por Oscar D'Ambrosio


 

 


Gustavo Moura

 

            Além do Reino Encantado

 

            O historiador de arte e professor e filosofia na Alemanha Boris Groys já afirmou que  “a função da arte é mostrar o que a mídia ignora”. Essa reflexão permite uma leitura visual enriquecedora do livro de fotografias Do Reino Encantado, com trabalhos de Gustavo Moura que evocam o universo peculiar de Ariano Suassuna.

            Nascido em João Pessoa, em 15 de março de 1960, Moura desvela com suas imagens um sertão de magnitude ignorada/desprezada/minimizada pelos grandes veículos de comunicação. Parte de sua poética, construída sobre blocos de pedra que parecem retirados de outras atmosferas, como as do satélite lua ou do planeta Vênus, traz uma dimensão épica, em preto e branco, de uma das regiões mais secas e áridas do País.

            A cruz e os cactos em diálogo de linhas horizontais e verticais sob um céu amplo e um solo gretado fazem imaginar quais os seres capazes de viver nesse mundo. Mas há ali vegetação rala e homens fortes, com rostos e mãos tão marcados como a terra. Faces e solos se irmanam no desafio de sobreviver a cada instante.

            Moura destaca a presença da criança, em flagrantes em que elas, leves e levadas, compões conjuntos narrativos em que a luz se faz onipresente. É ela que nos permite visualizar um novo agreste, capaz de gerar releituras de Suassuna e de João Cabral de Melo Neto, mestres na interpretação de um meio fascinante por uma linguagem ímpar em texturas visuais.

            As imagens do fotógrafo convida ao tato, incluem jogos barrocos de luz e sombra, evocam até a presença de pequenos espelhos de água e constroem linhas que parecem saídas de uma gravura, não de uma fotografia. São incisões visuais que as composições atingem no ato de sugerir climas que, por seu tom arquetípico, estão além do Reino Encantado.

            Detalhes de ferramentas, mãos ou correntinhas de pescoço com crucifixo apontam para a possibilidade de ver no sertão seres únicos em suas posições e olhares. Crianças ou lavadeiras guardam em si o fascínio que torna um homem, uma igreja e uma imensa pedra elementos conjugados do mesmo desafio: o de mostrar um Nordeste sem glamour que a mídia insiste em não ver.

Não há beleza na pobreza mostrada, mas revelação de um mundo peculiar, além da imaginação. As fotos de Gustavo Moura estabelecem um reino em que o compromisso com imagem não ignora o drama humano. A paisagem é respeitada em sua dimensão mítica, servindo como palco em si mesma ou como cenário de pessoas marcadas e sofridas, capazes de sorrir, porque habitam, talvez sem o saber, um mágico, grandioso, mas miserável Reino Encantado, que a mídia não desvela e que o presente livro desvenda.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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 Forografia Publicada em Do Reino Encantado, 2005

Gustavo Moura

 

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