por Oscar D'Ambrosio


 

 


GGuilherme Kramer

 

            A expressão do sentir

 

            Uma das principais batalhas da arte é a diferença entre aquilo que o artista deseja alcançar e aquilo que ele de fato atinge. Tal distância, explicitada por Marcel Duchamp, está no centro da expressão plástica de diversos artistas. Na obra de Guilherme Kramer, essa discussão se torna estéril.

            O trabalho que ele realiza, principalmente com nanquim, em preto e branco, revela o domínio do desenho como forma de expressão de um sentimento de estar no mundo. Isso significa, no seu caso, a construção prolífica de estados de alma imagéticos marcados por um traço que causa impacto no observador.

            Autodidata, não se preocupa em ser um virtuoso. Seu desenho, que nos melhores momentos mais inspirados se aproxima das obras melhor realizadas por Aldemir Martins, contém um poder de explosão que impressiona à primeira vista. O trabalho com nanquim está tanto na confecção dos fundos, em algumas obras, assim como, em outras ocasiões, a valorização do branco como suporte.

            Seja em aguadas de cunho expressionista, em maravilhosos pássaros repletos de traços ou na construção de árvores e paisagens que alternam cheios e vazios, Kramer mantém uma produção de alto nível e de elevado número. Há nele o prazer de criar constantemente, com uma energia admirável.

            Há sempre a preocupação do fazer – e bem. Essa consciência, marcada ainda pelo humor e crítica social em trabalhos mais próximos da linguagem do grafite, revela um processo de amadurecimento artístico. A grande discussão do artista não está no espaço entre pensar e criar, mas no desafio de selecionar conjuntos plásticos na sua diversidade retumbante.

            O poderio de Kramer ressoa nos olhos daqueles que contemplam a sua obra como uma espécie de sinfonia visual. Trata-se de um concerto que alterna momentos de percussão, cordas e sopros. O que marca é a maneira como articula o traço mais nervoso e pouco comportado com instantes de extrema delicadeza.

            Nessas possibilidades sonoras, existe a construção de um patrimônio visual marcado pela criatividade e pela diversificação, embora unificado pela qualidade e por um pensamento que coloca em primeiro lugar a certeza de que sua expressão tem um lugar assegurado enquanto depoimento de um conhecimento poético do mundo.

            Assim, a estética de Guilherme Kramer atesta a aliança entre o pensar e o fazer e entre o sentir e o executar. Cada imagem ganha força justamente por ser um mundo autônomo, que independe de realidades exteriores para se realizar enquanto objeto plástico, livre em seu processo criativo e impressionante por uma qualidade cada vez mais rara na arte contemporânea, a autenticidade de sentimentos e o prazer visceral no ato de conceber cada nova obra.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 
 

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 Rainha

nanquim sobre papel 20 x 20 cm sem data

Guilherme Kramer

 

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