A expressão
do sentir
Uma das
principais batalhas da arte é a diferença entre aquilo que o artista
deseja alcançar e aquilo que ele de fato atinge. Tal distância,
explicitada por Marcel Duchamp, está no centro da expressão plástica
de diversos artistas. Na obra de Guilherme Kramer, essa discussão se
torna estéril.
O trabalho
que ele realiza, principalmente com nanquim, em preto e branco, revela
o domínio do desenho como forma de expressão de um sentimento de estar
no mundo. Isso significa, no seu caso, a construção prolífica de
estados de alma imagéticos marcados por um traço que causa impacto no
observador.
Autodidata,
não se preocupa em ser um virtuoso. Seu desenho, que nos melhores
momentos mais inspirados se aproxima das obras melhor realizadas por
Aldemir Martins, contém um poder de explosão que impressiona à
primeira vista. O trabalho com nanquim está tanto na confecção dos
fundos, em algumas obras, assim como, em outras ocasiões, a
valorização do branco como suporte.
Seja em
aguadas de cunho expressionista, em maravilhosos pássaros repletos de
traços ou na construção de árvores e paisagens que alternam cheios e
vazios, Kramer mantém uma produção de alto nível e de elevado número.
Há nele o prazer de criar constantemente, com uma energia admirável.
Há sempre a
preocupação do fazer – e bem. Essa consciência, marcada ainda pelo
humor e crítica social em trabalhos mais próximos da linguagem do
grafite, revela um processo de amadurecimento artístico. A grande
discussão do artista não está no espaço entre pensar e criar, mas no
desafio de selecionar conjuntos plásticos na sua diversidade
retumbante.
O poderio de
Kramer ressoa nos olhos daqueles que contemplam a sua obra como uma
espécie de sinfonia visual. Trata-se de um concerto que alterna
momentos de percussão, cordas e sopros. O que marca é a maneira como
articula o traço mais nervoso e pouco comportado com instantes de
extrema delicadeza.
Nessas
possibilidades sonoras, existe a construção de um patrimônio visual
marcado pela criatividade e pela diversificação, embora unificado pela
qualidade e por um pensamento que coloca em primeiro lugar a certeza
de que sua expressão tem um lugar assegurado enquanto depoimento de um
conhecimento poético do mundo.
Assim, a
estética de Guilherme Kramer atesta a aliança entre o pensar e o fazer
e entre o sentir e o executar. Cada imagem ganha força justamente por
ser um mundo autônomo, que independe de realidades exteriores para se
realizar enquanto objeto plástico, livre em seu processo criativo e
impressionante por uma qualidade cada vez mais rara na arte
contemporânea, a autenticidade de sentimentos e o prazer visceral no
ato de conceber cada nova obra.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp,
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção
Brasil).