por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 
 

Grupo Piap da Unesp: trajetória de entusiasmo e talento

 

            Era uma vez um menino de 9 anos do subúrbio de Buffalo, cidade do Estado de Nova York, EUA, que não parava de bater as panelas na cozinha emitindo os mais variados sons. Muitos anos depois, esse desejo o levou a ser, no Brasil, diretor do Grupo de Percussão do Instituto de Artes (IA) da Unesp, o Piap, que se tornou referência nacional e internacional na área.

            Graças a uma iniciativa da mãe de levá-lo a realizar um curso de verão de percussão, aquele menino – o futuro percussionista John Boudler – iniciou uma carreira que teve continuidade no Brasil ao vir, em 1978, para atuar como timpanista da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp.

            Chegou aqui com um grupo de músicos norte-americanos, mas somente ele permaneceu no Brasil. Naquele mesmo ano, fundou o Piap. Constituído por alunos de graduação do IA, o grupo tem como principal diferencial a dinâmica entre os alunos que entram anualmente e os que se formam, deixando a instituição e, em conseqüência, o Grupo.

            Uma das bases do êxito do Piap está em ele funcionar como uma família desde o primeiro dia em que os calouros chegam em sala de aula. São apenas cinco vagas anuais e os veteranos não admitem uma queda de nível do grupo. Trotes musicais – como exigir interpretações magistrais em prazos impossíveis – e brincadeiras nas viagens de ônibus integram professores e alunos mais e menos experientes.

            Todo exercício é um esforço rumo ao entrosamento. Os professores, como especialistas que são, indicam possibilidades e oportunidades, mas são os alunos, nas infinitas horas que passam estudando e ensaiando, que necessitam encontrar soluções e espaços para exercitar seu talento na busca de como a individualidade auxilia na composição da química do todo.

            Um colega apontar caminhos para sanar a dúvida do outro é um hábito estimulado. Cada um precisa ouvir criticamente os companheiros para que a arte cresça em cada um deles. Isso inclui levar compositores para falar com alunos, pois somente conhecendo novas propostas, instrumentos e variações deles chega-se a um grau de domínio de uma diversidade musical que leva os alunos do Piap a se espalharem pelo Brasil por meio da aprovação em concursos.

Há uma convivência diária e intensa entre Boudler, os outros dois professores do Piap, Carlos Stasi e Eduardo Gianesella, formados pelo IA, e os alunos. Musicalmente, existe um impressionante ecletismo. Em 2009, os 17 integrantes reúnem pessoas de seis estados, do Distrito Federal e do Peru.

Surge daí uma vivência diferenciada. Os músicos se congregam para estudar estruturas e timbres e contam, por exemplo, com a orientação de Stasi, especialista em reco-reco, com doutorado na África do Sul que enfoca, entre outras questões da percussão, especificamente esse instrumento e suas variações em todo o mundo.

            O Piap não se limita – o que já não seria pouco – à execução de peças musicais. A pesquisa de performances é uma constante. Imaginar como as partes de percussão de obras de Beethoven ou Brahms eram executadas exige amplo mergulho em indagações sobre tipos de pele dos instrumentos ou de baquetas utilizados no período.

            A discussão do repertório segue a mesma direção. Além de uma retomada de clássicos, há uma busca constante de Boudler por novos compositores internacionais e nacionais – e isso inclui os estudantes do IA. Uma preocupação é reunir obras inéditas para fazer as primeiras audições mundiais, o que constitui um desafio para os professores e alunos.

            O primeiro ano de existência do Piap foi somente de recrutamento de alunos e ensaios. O concerto inaugural ocorreu em 1980, ainda na sede do IA em São Bernardo do Campo. Depois, o Instituto passou para uma sala no bairro do Ipiranga, em São Paulo , SP e, a partir de 2009, realiza suas atividades de ensino e pesquisa no novo campus de Barra Funda.

            Entrar no universo musical do Piap significa começar a ouvir de maneira diferenciada instrumentos que integram a chamada cozinha de uma orquestra: tambores, tímpanos, bumbo, caixa, marimba, xilofone, campanas, sinos tubulares, pandeiros e pratos.

É um mundo que ganhou novas explorações com o músico John Cage, nos anos 1930. Ele começou a usar tambores de freios de carro, molas de caminhão e triângulos para obter sons até então insuspeitados no universo da música erudita, iniciando um movimento que levou, nos anos 1950, a percussão a ser estudada no mundo universitário dos EUA.

            O Piap é, a seu modo, um filho dessa história. Seu primeiro grande momento no cenário nacional foi em 1986, ao receber o Prêmio Eldorado de Música. Era uma conquista marcante por ser um grupo de alunos que vencia concorrendo contra competidores que adotavam a voz ou instrumentos bem mais tradicionais, como piano,   violino ou clarinete. O resultado foi uma viagem internacional aos EUA de 12 integrantes do Grupo e a gravação de um LP.

            Outro momento de gala foi ter recebido a encomenda do diretor Ulysses Cruz para fazer a trilha sonora de Péricles e o príncipe de Tiro, de Shakespeare, e interpretá-la ao vivo. Foram quatro meses de apresentações em São Paulo – e viagens para Rio de Janeiro e Portugal – para mais de 100 mil pessoas, além dos prêmios Mambembe e da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) em 1995.

            Os mais de 70 músicos formados pelo Piap desde 1978 estão disseminados pelas mais diferentes orquestras e instituições. Eles formam todo o naipe de percussão da Osesp, quase toda a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e metade do da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro, além de atuarem em locais como Santo André, Tatuí, Santos, Cubatão e diversas filarmônicas de Estados brasileiros.

            Há ainda formados que lecionam na própria Unesp, USP, Unicamp, Universidade Federal de Minas Gerais e do Pará. Ao todo, são 20 mestrados, sete doutorados e uma livre-docência de ex-alunos. Trata-se do balanço acadêmico de um processo em que os estudantes são levados a viver em harmonia com a arte que escolheram.

            Por isso, em cada apresentação – com um orgulho nada dissimulado, fruto de trabalho, dedicação e muito estudo e prática – o grito de guerra de professores e alunos é ouvido. À voz de comando “Grupo!”, de Boudler, os integrantes respondem “Piap!”. O entusiasmo nessa manifestação é o maior prêmio que o Grupo dá a si mesmo ao longo de sua trajetória.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

 

 

 

 

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