por Oscar D'Ambrosio


 

 


Altina Felício

 

            Gravando a alma

 

            O mundo da gravura é um universo especial. Mistura-se ali a busca de soluções técnicas com a magia da impressão e o desenvolvimento da capacidade de combinar o rigor técnico à extrema sensibilidade de levar para a placa uma verdade interior que resulte em significativo efeito plástico.

            Altina Felício, na série Olhos D’Água, remete à cidade onde nasceu no interior do Estado de Goiás. Consegue manter a liberdade de expressão de suas áreas por meio do uso da técnica da ponta seca, que é a forma como seu desenho mantém a pureza  e a intuição que evitam o racionalismo que poderia colocar a perder a sua poética visão de mundo.

            A protagonista da série, seja quando aparece em primeiro plano ou quando sugerida pelas manchas da pele, é a onça. As primeiras lembranças dela vêem das histórias sobre o felino que ouvia quando criança e as mais recentes de uma bolsa feita com a pele do animal que adquiriu num sapateiro próximo ao seu ateliê, em São Paulo.

            Desmanchada a bolsa, Altina encontra na pele uma espécie de xamã a direcioná-la plasticamente. É ao tocá-la ou abraçá-la que renova suas energias para um mergulho cada vez mais fundo num universo que traz diversos tipos de recordações passadas e emoções presentes.

            A composição das placas segue a busca plástica dos diálogos entre o claro e o escuro. Surge assim a composição das mais diferentes figuras, que vão se entrelaçando. Além da onça, quase onipresente, estão imagens fundidas de mulheres grávidas; o seu pai jovem e vigoroso ou envelhecido e doente; ele, ao centro, levando Altina e a irmã para passear de mãos dadas; cobras, lobos e outros animais do cerrado goiano.

            Altina Felício grava a sua alma nas placas. A ligação que faz entre as diversas imagens dá origem a uma coleção marcada pela sinceridade vital e visceral. Seu mergulho em Olhos D’Água é  uma entrada num portal de emoções e imagens. O resultado, de extrema densidade poética, não pode ser visto apenas sob o signo da psicologia, mas sob a predominância de uma pesquisa estética e visual de um cosmos de claros e escuros que revelam uma alma criadora ímpar.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

           

 

 



 

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