por Oscar D'Ambrosio


 

 


Graciete

 

            Diálogo entre cores e formas

 

            A arte é, para muitos, um caminho que revela almas. Para outros, trata-se de um constante jogo entre formas e cores em que a técnica pode até superar o sentimento. Nos quadros de Graciete Ferreira Borges, que assina os trabalhos como Graciete, essas duas visões se fundem.Por um lado, há um coração que pinta; por outro, uma consciência crescente do uso dos próprios procedimentos pictóricos rumo a resultados cada vez mais aprimorados em termos estéticos.    

            Nascida em América Dourada, BA, em 25 de outubro de 1953, Graciete Ferreira Borges se envolveu com o mundo da arte pela convivência com o companheiro José Antônio da Silva, um dos maiores pintores primitivistas do país. Esse relacionamento, que foi de 1981 até o falecimento do artista, em 1996, deixou, claro marcas em sua vida, mas, em termos de pintura, ela está pronta a seguir percurso próprio.

            Uma prova disso ocorreu em 1999, quando enviou ilustrações a nanquim para o Concurso Tóquio/ACCU – Ásia Pacific Cultural Centre for Unesco. Quatro anos depois, começou a pintar com tinta a óleo, encontrando nela o material mais adequado para o seu gestual perante o suporte.

            O quadro Casamento do saci, selecionado para integrar a conceituada Bienal Naïfs do Brasil do SESC Piracicaba, em 2004, mostra bem a facilidade da artista para lidar com os elementos constitutivos da imagem. Acima da temática folclórica e do bom humor, ela revela uma composição toda própria, presente, por exemplo na maneira como se utiliza do branco para equilibrar o se trabalho, nos ângulos superior esquerdo e inferior direito.

            Um diferencial de Graciete está nas cores. Talvez a força das tonalidades criadas pelo sol da Bahia dê aos seus trabalhos uma intensa luminosidade, principalmente quando a artista decide trabalhar com algumas manchas de amarelo, que dão às telas não só uma tonalidade mais quente, mas que funcionam como autênticas marcas de vigor e de alegria para o olho do observador.

            O amarelo também surge com muita intensidade, no mencionado quadro, seja no cavalo elegante que puxa a carroça com os noivos, seja nas flores da vegetação ou nos tons entre marrom e alaranjado dos caminhos. Nessa sinfonia de amarelo e marrom, o verde da natureza e o vermelho do calção e do gorro do saci funcionam como elementos complementares que estabelecem o lirismo da tela.

            Sem ter cursado qualquer tipo de escola de arte, a não ser a convivência cotidiana com Silva, Graciete tem como principais características pictóricas as mencionadas cores fortes e as pinceladas grossas, mas não grosseiras. Com esses recursos técnicos, pinta casas, flores e carros de boi, elementos do mundo rural trazidos da infância na Bahia.

            Dessas temáticas, a dos caminhos com casas no fundo apresenta lirismo e veia poética muito peculiares. As flores e os vilarejos que Graciete estabelece apresentam pequenas figuras flutuando nos caminhos e dão uma atmosfera quase surreal a paisagens bem brasileiras.

            Assim, a artista nos retira do universo dos referenciais concretos e nos coloca em outra esfera, a da arte propriamente dita. Deixamos de ver casas ou caminhos para contemplar a sua habilidade para estabelecer jogos de cores, onde o amarelo se destaca e as formas são dispostas com harmonia na tela.

            Há, portanto, na obra de Graciete o talento de uma profissional das imagens pronta a seguir carreira autônoma. Seja na produção de uma natureza morta, de uma paisagem ou de uma cena rural, ela mantém certas características de quem já encontrou o seu estilo: massas de tons quentes em diálogo com formas de uma dimensão poética muito pessoal, que tende a ser cada vez mais aprofundada com o passar dos anos.

           

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

 

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Casamento do saci

óleo sobre tela 60x80 cm 2004

Graciete


 

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