Graciela Bello
A poeta visual da
nostalgia e do tango – Oscar D’Ambrosio
"A pintura é a
minha forma de expressão, de comunicar minha visão do mundo e da
vida. Nâo é um hobby, mas algo fundamental, visceral, o que o
poeta alemão Rilke chamava de necessidade. É também um modo de
vencer o tempo e a morte, uma forma de perpetuar e de imortalizar
meus sonhos". Essa relação profunda com a sua arte torna as
telas da pintora argentina Graciela Bello uma densa viagem no
passado, um mergulho num país que aparentemente não existe mais,
mas que ainda deixa suas marcas.
Nascida em Buenos
Aires, em 11 de agosto de 1957, Graciela Bello, diz que, desde que
se lembra, pinta e desenha. "Era o que eu mais gostava de
fazer. O melhor presente que podia receber era uma caixa de lápis
de cor ou têmperas", afirma, reforçando a idéia de que,
mais cedo ou mais tarde, o ofício de artista dominaria a sua
vida.
Graciela tem uma sólida
formação intelectual, que incluem cinco anos de estudo de
Letras, além de ter freqüentado oficinas de pintura e cursos de
História da Arte, Fotografia, Aerografia e Papel maché.
Trabalhou ainda com desenhos e estampas têxteis e em oficinas de
artes plásticas para crianças e adultos. Desde 1990, dedica-se
exclusivamente à arte naïf e à família, o marido e um filho,
hoje com 13 anos.
A artista lembra que
um dos momentos fundamentais para a sua formação visual ocorreu
em 1979, quando visitou o Museu de Arte Moderna de Nova York.
Entre os quadros que a impressionaram, destaca A cigana
adormecida, de Henri Rousseau, o mais célebre dos naïfs, e Guernica
de Picasso, que estava ainda nos EUA e hoje se encontra no Museu
da Rainha Sofia, em Madri. "Senti, nessas obras, uma grande
sensação de liberdade que a arte oferece", conta, lembrando
ainda de outros pintores que admira, como o colombiano Fernando
Botero, o argentino Antonio Berni, além de Henri Matisse e Marc
Chagall.
Graciela já
participou de cerca de 100 mostras incluindo salões, coletivas e
individuais na Argentina, como no Museu Austral Naïf, em Chubut,
no Senado de la Nación Argentina e a exposição naïf realizada
na Quinta presidencial de Olivos, em 1997, e no exterior,
principalmente Uruguai, Brasil, Peru, Itália, Suíça, Espanha e
EUA.
A artista enfatiza que
suas principais temáticas são o passado e as lembranças.
"Tinha uma grande admiração pela minha avô Juana e, em
minhas obras, tento resgatar do esquecimento o mundo dos anos
1950, uma época que pouco a pouco vai se perdendo". Tenho
observado muitas fotografias velhas, cor sépia, e formulo novas
imagens a partir delas. Observo a moda, o penteado, as ruas e
componho uma nova visão do lugar inspirado pelas fotografias que
vi", conta.
Um ótimo exemplo
disso é En la puerta del civil. A imagem mostra o cartório
civil do bairro de Belgrano, onde vários familiares de sua família
se casaram. "Hoje, há ali um prédio", comenta
Graciela. O que impressiona na tela é a riqueza de detalhes. O
piso é cuidadosamente desenhado e todos os personagens são
precisamente caracterizados.
Da esquerda para a
direita, temos dois casais e uma senhora idosa posando para uma
fotografia. Bem no centro, uma menina de vestido rosa, cor
tradicionalmente vinculada ao amor e à lua-de-mel, joga arroz no
casal de noivos que se localiza à direita. Uma figura das mais
curiosas é o fotógrafo, identificado como Cacho, esperando, em
posição rígida, quase militar, a preparação dos fotografados
para a pose oficial.
Os noivos se escondem
do arroz, tapando o rosto com as mãos. Na extrema direita, mais
pessoas jogando arroz, sendo que cada uma revela uma
personalidade. "Cada rosto conta uma história. Não faço
dois iguais. Surge assim uma galeria de personagens: a simpática,
a romântica, a travessa, a sensual", comenta Graciela.
Duas crianças
correndo na calçada, muito desproporcionais em relação aos
adultos caracterizam a tela como naïf, justamente porque essa
falta de diálogo racional entre os personagens nos introduz no
universo individual de Graciela, marcado por uma retomada do
passado sob uma perspectiva sempre inovadora, que não deixa de
lado, por exemplo, as pombas na calçada e no meio-fio.
Um outro quadro com
características semelhantes é Despedida de solteira.
"É um exemplo daquelas antigas reuniões de mulheres com pó-de-arroz
que se reuniam com a noiva antes do casamento. São tradições
que se perdem e que gostaria de trazer na memória", descreve
Graciela. O tratamento dado ao piso quadriculado em preto e branco
pleno de enigmáticas imperfeições e irregularidades que
recordam o surrealismo de Chagall, e os rostos diferenciados das
17 mulheres presentes no quadro trazem à tona todo o espírito de
uma época que não existe mais.
A decoração das
paredes, os detalhes da mesa em forma de U, que incluem os
presentes ganhos pela noiva, flores, drinques, pedaços de bolo,
garrafas e sifão, além de um casaco de pele numa cadeira
constituem um retrato. Porém, como a própria artista admite, ela
não gosta de copiar o real. Por isso, recria, com sua fértil
imaginação e densidade psicológica, o clima de festas do tipo
comum nos anos 50, que foram se alterando com o passar das décadas.
Ainda nessa linha, um
quadro como Primer grado con las monjas se destaca.
"Muitas pessoas, ao observar esta obra, se aproximaram e
disseram: ‘Este é o pátio do meu colégio’. É o que ocorre
dentro da idéia ‘pinta tu aldeia e serás universal",
comenta a artista. O quadro, segundo o critico de arte argentino César
Magrini, em Argentina su arte ingênuo (Arte al Dia, 1997),
"resgata, com mão serena e firme, numa alegoria de formas e
cores sorridentes, todo um lindo futuro por chegar, repleto de
surpresas, que desaparecerá, cada vez que ameacem reaparecer, à
sombra desse mesmo passado que, às nossas costas, misteriosamente
vai sendo construído".
A relação entre
passado, presente e futuro é uma preocupação sempre presente
nas telas de Graciela. "Gosto de evocar constantemente o
passado. Impregno minhas obras de reminiscências de outras épocas,
ás quais pertenço porque sinto saudade delas. Quando pinto,
ingresso num tempo cândido e elegante, revivendo aquele mundo com
certa nostalgia", afirma.
Nesse mergulho no
passado, Graciela encontrou o tango e seu eterno ídolo, Carlos
Gardel. "Minhas telas passaram então a ser cor pastel, com
azul celeste e sépia, pura melancolia e nostalgia", afirma.
Surgiu assim uma série chamada "Tangos Ingenuos", que
ela expôs en La manzana de las Luces, um dos prédios mais
antigos de Buenos Aires, que data da época colonial. "Para
mim foi emocionante", recorda.
Surgem assim telas
como Gardel Fans Club, em que três mulheres, duas sobre a
cama em poses lânguidas, e uma sentada num pequeno banquinho,
fumando, ouvem uma vitrola alimentada com discos de Gardel. Na
parede, fotos do ídolo maior e de um casal dançando. O chão da
casa, assim como ocorria em Despedida de soltera, é
magnificamente irregular. Parede e piso quase se mesclam numa
atmosfera timidamente sensual, repleta da emoção que o tango
inspira.
Em Nostalgias del
Gardel Fans Club II, Menção Honrosa na III Bienal Naïf
Internacional, realizada pela Fundación Rômulo Raggio, em 1998,
na Argentina, a atmosfera de sensualidade se amplia e a tela ganha
contornos surrealistas, principalmente pela escada que surge à
esquerda do quadro. Flores gigantescas em tom pastel, uma
bandoneonista de vestido amarelo e cabelo solto, duas mulheres dançando
tango, uma de preto e a outra de azul celeste e uma terceira
mulher reclinada sobre uma namoradeira com ar lânguido e distante
completam a cena.
Nas paredes e sobre
uma mesa de canto, fotos de Gardel. Sobre uma das flores gigantes,
uma borboleta pousada, bem no centro de uma rosa branca aberta,
acentua um certo tom místico e simbólico. Sobre o chão,
partituras caídas ao léu. É quase possível imaginar a música
que é tocada, o que acentua os elementos surreais da cena, que é
para ser ouvida e sentida e não apenas contemplada.
Essa aproximação da
obra de Graciela Bello do surrealismo não é arbitrária. Ela
mesma conta que o museu da Fundação Rally, em Punta del Este
(Uruguai), com seu belo acervo de pinturas do estilo, lhe é um
ponto de referência importante, assim como uma grande mostra de
pintores surrealistas realizada, em 1981, no Museu Nacional de
Belas Artes de Buenos Aires, com a participação de quadros de
Magritte, Max Ernst, Miró e De Chirico.
Uma outra característica
marcante das obras de Graciela Bello é praticamente a ausência
de cenas de exteriores. "Quase sempre meus personagens
aparecem em interiores, como se pudessem observar o mundo por
alguma janela", diz. Talvez isso possa se explicar pelo fato
de as cenas dentro de casas antigas proporcionarem uma maior
oportunidade para a reflexão introspectiva dos personagens, algo
que interessa muito à pintora. Além disso, sua forma de
trabalhar com os pisos, sejam quadriculados ou com losangos também
funciona melhor em ambientes fechados, onde essa técnica, marca
registrada de seu estilo, pode ser melhor trabalhada e atrair a
atenção do espectador.
Inquieta, Graciela
admite estar procurando novos caminhos. "Ultimamente, estou
começando uma nova etapa de minha obra, em que deixo o passado e
me volto mais para o fantasioso e o irreal. Acho que me aproximo
do surrealismo. É uma série chamada ‘Los equilibristas",
anuncia.
O pintor espanhol
Pablo Picasso, cuja Guernica tanto impressionou Graciela, já
alertava que "um pintor é aquele que pinta o que vende,
enquanto um artista, pelo contrário, é um homem que vende o que
pinta". A artista Argentina concorda inteiramente com essa
filosofia: "Creio que o artista deve se deixar levar pelo que
realmente sente, não começar a repetir um modelo seguro, no qual
sabe, de antemão, que vai se sair bem. Estou experimentando,
tentando, jogando com novas formas", declara.
Ao conhecer o trabalho
de Graciela, percebe-se um grande inquietação intelectual
mesclada com extrema delicadeza. Sua busca artística não se
limita, porém, as artes plásticas. "Minha outra paixão é
a literatura. Leio com avidez e gosto de analisar e decifrar
autores. Mesmo assim, meu aspecto criativo ocorre pela pintura, não
pela literatura. Escrevo apenas coisas pessoais, mas, quando fecho
os olhos antes de dormir, sempre aparecem imagens novas que
esperam ser pintadas", explica.
A presença do sonho
como elemento inspirador aproxima, mais uma vez, Graciela do
surrealismo. Sua obra, como seu sobrenome já diz, busca o bello
a partir de evocações retiradas do passado. Isso leva a declarar
frases como "A arte vence o tempo: desde minha obra, resgato
o cândido mundo de meus avôs" ou ainda "O transcender
passa pela felicidade a partir das lembranças".
Motivada pelas lembranças
e pelo sonhos. Graciela Bello vem construindo uma carreira pictórica
sólida. No passado de seus avôs, encontra a matéria-prima para
revisitar uma Argentina que se perde no tempo e, ao mergulhar nas
melodias de Gardel, reconstrói, já com toques surrealistas, um
mundo de delicada sensualidade e extrema delicadeza, criando
poesias visuais que seduzem e encantam.