por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Gondin

Espaços de sonho

Embora a pintura não escolha conteúdo, ocorrendo pela habilidade como o criador trabalha com sua matéria-prima, seja com cores, formas e outros recursos de expressão, a natureza, a vida cotidiana no campo, as colheitas e as festas populares são sempre um ótimo ponto de partida par as mais diversas manifestações artísticas.

Os quadros de Raimundo Vieira Gondin são uma demonstração de como o fazer artístico está muito mais na maneira de trabalhar os temas do que na escolha dos mesmos. Suas pinturas, autênticas explosões de alegria com rica gama cromática, são um exemplo de como a riqueza e a diversidade podem estar presentes em infinitas variações sobre temas populares.

Nascido em 7 de outubro de 1944, em Aracati, CE, Gondin foi inicialmente pintor de paredes, mas, nos momentos livres que a profissão lhe permitia, começou a pintar e desenhar o universo ao seu redor. Seu talento chamou a atenção do célebre artista plástico Chico da Silva, que, em 1972, encaminhou o jovem para que obtivesse o seu sustento não mais pintando casas e muros, mas sim telas, hoje vendidas para colecionadores de todo o Brasil e de países como EUA, Itália e Alemanha.

É nas festas populares que o intenso colorido de Gondin se manifesta com toda forma. A interação entre as roupas das pessoas e o ambiente em que se inserem gera um diálogo interno do quadro que contagia o observador. Colinas e plantações verdes, por exemplo, encontram um rico jogo cromático com camisas e blusas, enquanto o azul do céu, de um lago e de portas e janelas de casas encontra seu correspondente em saias e calças.

As cenas de colheita seguem um conceito cromático semelhante, pois árvores com flores amarelas, por exemplo, reforçam a sua presença ao encontrar uma prenda de roupa da mesma cor ou parte de uma casa com tonalidade semelhante. Esse recurso empresta às telas harmonia, equilíbrio e as torna convidativas.

Os trabalhos de Gondin chamam o observador a participar. É praticamente impossível ficar passivo perante cada uma delas. Quando se trata de uma festa, a vontade é a de soltar balões junto com os retratados. De fato, quando eles pairam no céu das telas do artista também seguem uma lógica interna cromática, pois suas cores se repetem ao longo do quadro na criação de uma atmosfera de encantamento.

A intensa luminosidade contribui para criar espaços de sonho. É o caso das cenas agrárias, desenvolvidas pictoricamente embaixo de um intenso céu azul com algumas poucas nuvens. Para os moradores dos confusos e complexos ambientes metropolitanos, essas telas trazem descanso para os olhos e paz para o coração.

Sonho é a palavra-chave para penetrar no mundo de Gondin. Não se trata de dizer que suas telas beiram o surrealismo ou o hiper-realismo. Pelo contrário, elas estão próximas da realidade do povo, pois trabalham com imagens da roça ou de pequenas vilas ou povoados.

Cada tela oferece uma defesa da alegria de viver e da existência das cores. É a celebração do dom de existir que permeia cada imagem, devido ao uso das cores e ao desejo permanente de que cada obra seja uma apologia ao dom de criar. Por isso, os espaços de sonho criados por Gondin são aulas de otimismo e de habilidade com o manejo de cor, num exercício pictórico que mescla talento e amor à vida

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp

 


  

 

 

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