Gondin
Espaços de sonho
Embora a pintura não escolha
conteúdo, ocorrendo pela habilidade como o criador trabalha com
sua matéria-prima, seja com cores, formas e outros recursos de
expressão, a natureza, a vida cotidiana no campo, as colheitas e
as festas populares são sempre um ótimo ponto de partida par as
mais diversas manifestações artísticas.
Os quadros de Raimundo Vieira Gondin
são uma demonstração de como o fazer artístico está muito
mais na maneira de trabalhar os temas do que na escolha dos
mesmos. Suas pinturas, autênticas explosões de alegria com rica
gama cromática, são um exemplo de como a riqueza e a diversidade
podem estar presentes em infinitas variações sobre temas
populares.
Nascido em 7 de outubro de 1944, em
Aracati, CE, Gondin foi inicialmente pintor de paredes, mas, nos
momentos livres que a profissão lhe permitia, começou a pintar e
desenhar o universo ao seu redor. Seu talento chamou a atenção
do célebre artista plástico Chico da Silva, que, em 1972,
encaminhou o jovem para que obtivesse o seu sustento não mais
pintando casas e muros, mas sim telas, hoje vendidas para
colecionadores de todo o Brasil e de países como EUA, Itália e
Alemanha.
É nas festas populares que o intenso
colorido de Gondin se manifesta com toda forma. A interação
entre as roupas das pessoas e o ambiente em que se inserem gera um
diálogo interno do quadro que contagia o observador. Colinas e
plantações verdes, por exemplo, encontram um rico jogo
cromático com camisas e blusas, enquanto o azul do céu, de um
lago e de portas e janelas de casas encontra seu correspondente em
saias e calças.
As cenas de colheita seguem um
conceito cromático semelhante, pois árvores com flores amarelas,
por exemplo, reforçam a sua presença ao encontrar uma prenda de
roupa da mesma cor ou parte de uma casa com tonalidade semelhante.
Esse recurso empresta às telas harmonia, equilíbrio e as torna
convidativas.
Os trabalhos de Gondin chamam o
observador a participar. É praticamente impossível ficar passivo
perante cada uma delas. Quando se trata de uma festa, a vontade é
a de soltar balões junto com os retratados. De fato, quando eles
pairam no céu das telas do artista também seguem uma lógica
interna cromática, pois suas cores se repetem ao longo do quadro
na criação de uma atmosfera de encantamento.
A intensa luminosidade contribui para
criar espaços de sonho. É o caso das cenas agrárias,
desenvolvidas pictoricamente embaixo de um intenso céu azul com
algumas poucas nuvens. Para os moradores dos confusos e complexos
ambientes metropolitanos, essas telas trazem descanso para os
olhos e paz para o coração.
Sonho é a palavra-chave para penetrar
no mundo de Gondin. Não se trata de dizer que suas telas beiram o
surrealismo ou o hiper-realismo. Pelo contrário, elas estão
próximas da realidade do povo, pois trabalham com imagens da
roça ou de pequenas vilas ou povoados.
Cada tela oferece uma defesa da
alegria de viver e da existência das cores. É a celebração do
dom de existir que permeia cada imagem, devido ao uso das cores e
ao desejo permanente de que cada obra seja uma apologia ao dom de
criar. Por isso, os espaços de sonho criados por Gondin são
aulas de otimismo e de habilidade com o manejo de cor, num
exercício pictórico que mescla talento e amor à vida
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp