Gonçalo Ivo
A
prática
como
religião
Poucas
artes se revelam
tão próximas da
religião
como a
pintura.
Ela re-liga o
ser
humano
com
algo
maior,
que
pouco pode
ser explicado
por
meio de
palavras,
já
que instaura
sua
existência num
reino
que
beira o
mágico e o misterioso,
instâncias
em
que a
poética do
fazer é simétrica ao
lirismo do
viver.
A
obra de Gonçalo Ivo
encanta o
observador
porque se dá
justamente nessa
atmosfera
em
que a
construção
racional e
plástica é
tão depurada,
que atinge uma
outra
dimensão, marcada
pelo
questionamento daquilo
que significa, de
fato,
desenhar,
pintar
ou
fazer uma
escultura.
Nascido no
Rio de
Janeiro,
em 15 de
agosto de 1958, Ivo
torna a
aquarela
um
ato
religioso no
sentido
mais
denso do
termo. Está
ali a
prática
cotidiana de
um
pensamento
sobre
cores,
luzes e
transparências,
sem as
quais essa
técnica
não se realiza na
sua
plenitude.
Ao se
debruçar
sobre
pesquisas de
cor realiza
um
aprendizado
que
leva
com
muita
força
para a
pintura e
para a
escultura,
onde a
presença da
colagem
desempenha
um
papel
telúrico, trazendo
para o
nível matérico uma
experiência
quase
divina no
ato de
dar às
camadas e nuanças cromáticas
um
valor
superlativo.
Existe
em Gonçalo Ivo uma
comovente
relação
com a
arte. Trata-se de uma
prática do
fazer e do
pensar aliadas de
modo
pouco
visto
hoje.
Não há
ali
verborragia
acadêmica
ou
simplicidade
que
disfarce
falta de
conhecimento,
dois
vícios
muito
presentes na
arte
contemporânea
brasileira.
O
que se
vê é uma
arte
que se realiza
enquanto
pensa e se materializa
por
aquilo
que é pensado.
Isso significa
deixar de
lado o
ato de
pensar
para
concentrar a
atenção e a
energia,
como faz
um
monge
budista, no
esquecimento daquilo
que se faz. Desse
modo, a
criação
não se realiza
como
um
parto
doloroso,
mas flui poeticamente.
O
resultado transporta a uma
outra
dimensão,
que
não é a do
falar de
arte,
mas a de senti-la e praticá-la. Essa
forma de
manifestação
plástica do
criador
carioca funciona como uma sinfonia, que
leva a
pensar na
própria
harmonia do
mundo, numa
relação
divina – e ao
mesmo
tempo
muito
humana –
com o
universo.
A
poética de Gonçalo Ivo
motiva uma
conclusão:
não podemos
ter
certeza da
existência de
Deus;
mas, se
ele for uma
realidade, pintaria – e teria
em Gonçalo Ivo
um de
seus fiéis
discípulos,
que
pinta e traz a
público
esculturas de
quem faz e refaz
infinitamente,
com
delicadeza
lírica, uma
única e
delicada
aquarela. É na
solene
repetição do
gesto,
sempre
em
novas
perspectivas,
que a
magia do re-ligare se
completa.
Oscar
D’Ambrosio,
jornalista e
mestre
em
Artes
Visuais
pelo
Instituto de
Artes da Unesp, integra a
Associação
Internacional de
Críticos de
Arte (AICA-
Seção Brasil).