por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

 

Gonçalo Ivo

 

            A prática como religião

 

            Poucas artes se revelam tão próximas da religião como a pintura. Ela re-liga o ser humano com algo maior, que pouco pode ser explicado por meio de palavras, que instaura sua existência num reino que beira o mágico e o misterioso, instâncias em que a poética do fazer é simétrica ao lirismo do viver.

            A obra de Gonçalo Ivo encanta o observador porque se dá justamente nessa atmosfera em que a construção racional e plástica é tão depurada, que atinge uma outra dimensão, marcada pelo questionamento daquilo que significa, de fato, desenhar, pintar ou fazer uma escultura.

            Nascido no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1958, Ivo torna a aquarela um ato religioso no sentido mais denso do termo. Está ali a prática cotidiana de um pensamento sobre cores, luzes e transparências, sem as quais essa técnica não se realiza na sua plenitude.

            Ao se debruçar sobre pesquisas de cor realiza um aprendizado que leva com muita força para a pintura e para a escultura, onde a presença da colagem desempenha um papel telúrico, trazendo para o nível matérico uma experiência quase divina no ato de dar às camadas e nuanças cromáticas um valor superlativo.

            Existe em Gonçalo Ivo uma comovente relação com a arte. Trata-se de uma prática do fazer e do pensar aliadas de modo pouco visto hoje. Nãoali verborragia acadêmica ou simplicidade que disfarce falta de conhecimento, dois vícios muito presentes na arte contemporânea brasileira.  

            O que se é uma arte que se realiza enquanto pensa e se materializa por aquilo que é pensado. Isso significa deixar de lado o ato de pensar para concentrar a atenção e a energia, como faz um monge budista, no esquecimento daquilo que se faz. Desse modo, a criação não se realiza como um parto doloroso, mas flui poeticamente.

            O resultado transporta a uma outra dimensão, que não é a do falar de arte, mas a de senti-la e praticá-la. Essa forma de manifestação plástica do criador carioca funciona como uma sinfonia, que leva a pensar na própria harmonia do mundo, numa relação divina – e ao mesmo tempo muito humanacom o universo.

            A poética de Gonçalo Ivo motiva uma conclusão: não podemos ter certeza da existência de Deus; mas, se ele for uma realidade, pintaria – e teria em Gonçalo Ivo um de seus fiéis discípulos, que pinta e traz a público esculturas de quem faz e refaz infinitamente, com delicadeza lírica, uma única e delicada aquarela. É na solene repetição do gesto, sempre em novas perspectivas, que a magia do re-ligare se completa.

       

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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Aquarela para o primeiro dia
aquarela 38 x 32 cm 2003

Gonçalo Ivo

 

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