por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Glória Coelho

        Facetas da violência    

       O Trabalho de Conclusão de Curso Vestígios: violência midiatizada, de Glória Coelho, realizado sob orientação do docente Milton Sogabe para o Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo, discute o papel da mídia na relação de cada cidadão com a violência.

        O fato é que boa parte das pessoas acaba por formatar o seu discurso sobre o tema não tanto por como o vivencia em seu cotidiano, mas pela maneira como absorve as informações que recebe pela mídia, principalmente pela televisão. Constrói, a partir daí, um imaginário que reproduz de maneira mais ou menos consciente de acordo com o caso.

         A proposta de Glória de relacionar arte, mídia e violência toca ainda num dos pontos essenciais do mundo contemporâneo, o fato de vivermos uma realidade marcada por muita informação e pouca reflexão. Isso traz como conseqüência a banalização de todos os temas, inclusive o da violência, que é o objeto de estudo dela.

            Nesse contexto, as artes visuais, usadas, por exemplo, na Idade Média, na Europa, para divulgar o cristianismo entre a maioria da população iletrada, desempenham um papel merecedor de reflexão, ainda mais quando se vive numa sociedade em que predomina uma certa anomia, ou seja, uma falta de vontade de agir e de participar das mais variadas questões políticas e/ou sociais, além, é claro, das artísticas.

            Criadores como Hermann Nitsch, Gil Vicente, Tom Friedman, Yang Shaobin, Kjell Erik Killi Olsen, Franz Krajcberg, Rosana Palazyan, Jocely Carvalho e, especialmente, o baiano Waldomiro de Deus e o goiano Siron Franco, são citados como alguns exemplos de criadores plásticos que incorporam diversos aspectos da violência, sobremaneira da urbana, aos seus trabalhos.

            O pensamento de Glória se completou com uma instalação que, grosso modo,  continha os seguintes elementos: uma cama, uma cadeira, uma voz e uma imagem numa tela. Eles foram articulados de modo a interagir com o espectador que se sentasse na cadeira, propiciando um momento para pensar sobre o que a violência representa não para aquele que a vê pela televisão, mas por aquele que, infelizmente, a vivencia.

            A cama vazia é certamente uma forte metáfora do vácuo existencial no qual uma família mergulha ao perder um ser querido. É o espaço da dor e da ausência, marcado, ainda mais quando se trata de um jovem que perdeu a vida, pelo cerceamento e desaparecimento de possibilidades existenciais que se avizinhavam .

            A voz que se escuta da criança rezando ao seu anjo da guarda, acionada quando o visitante entra na sala da instalação, remete ao sentido de solidão que permeia o universo contemporâneo. Talvez apenas os seres divinos possam proteger as crianças, imersas num mundo em que a violência é cada vez mais regra e menos exceção.

            Com a entrada do visitante e o início da projeção da voz, acende-se um spot sobre a cadeira. Se o convidado ali se sentar, verá o vídeo, em que uma alegórica mancha vermelha preenche uma tela. A violência então se corporifica em sangue.

É ela que invade o espaço tanto na esfera privada como pública. A mancha que surge diante dos olhos obriga ao trabalho de reflexão sobre como a violência se faz presente na vida de cada um. Seja pela mídia, pela arte ou pela vivência pessoal, a violência ganha dimensões diferentes.

A instalação Vestígios, em última análise estimula um mergulho não só na questão da violência, mas na forma como ela é percebida e nas diferentes maneiras em que pode ser transformada, ainda mais na arte, onde a liberdade do fazer e do pensar caminham em paralelo.

            A falta de pessoas queridas, afastadas da família em situações violentas, ganha, na instalação e na pesquisa, a dimensão do pesar e da dor que a morte envolve. O tema, assim, muito mais que a violência em si mesma, é o do vazio que cada  ausência gera. Nesse sentido, a instalação atinge seu objetivo e, certamente, motivará novas pesquisas que aprofundem a ligação entre arte, mídia e violência, assunto central de Glória Coelho.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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 Vestígios
Instalação 2007

Glória Coelho

 

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