por Oscar D'Ambrosio


 

 


Glaucia Gomes: a pesquisa como processo

 

            Talvez a grande chave para penetrar na floresta de árvores plásticas de Gláucia Gomes seja o episódio do melancólico rei que somente volta a ter amor pela vida quando o cavaleiro Percival lhe pergunta: “Onde está o Graal?”. Esse momento marca a retomada das forças do soberano e faz a própria natureza florescer.

A metáfora é evidente. Saber fazer a pergunta certa pode ser tão ou mais importante que realizar a obra considerada prima. Nessa linha de raciocínio, ao escolher as melhores indagações, indica a seleção de uma jornada num bosque de imagens nem sempre agradáveis.

            A pesquisa de Glaucia realizada como Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do bacharelado em Artes Plásticas no Instituto de Artes da UNESP, câmpus de São Paulo, passeia por técnicas como pintura, escultura, instalação, gravura, fotografia e, principalmente, monotipia.

            Intitulado Tramas: a árvore como fonte de inspiração artística e orientada pelo docente Norberto Stori, o trabalho surge como um processo de aprendizado do saber olhar, que inclui o progressivo desenvolvimento de aprender a lidar com o acaso, algo que vai sendo adquirido com a prática contínua.

            Evidencia-se, na pesquisa, o amor pelo processo do fazer – e uma realização eficiente. Isso, no caso da jovem artista, resulta numa sede pelo produzir novas obras, inclusive num número bastante elevado, que chega até a impressionar pela construção de uma obra plástica em que o jogo é fundamental.

Talvez o segredo do trabalho de Gláucia esteja na postura, em boa parte inata, de conceber o ato de criar numa perspectiva lúdica. Há prazer nesse processo – e ele não pode ser perdido sob hipótese alguma. Se não há dúvidas que é importante refletir sobre o que se faz, também é inegável que pensar demais pode gerar um peso que termina com a diversão.

Uma criança, quando brinca, fica tão concentrada na sua atividade, que parece ignorar o mundo ao redor. Algo semelhante ocorre com os artistas dignos desse nome. O processo pode ser mais ou menos racional dependendo do caso, mas a mágica de criar só funciona se houver esse envolvimento, uma entrega igual ao de uma criança que fica rodando horas a fio em volta da fonte desligada e suja da cidade do interior apenas concentrada no caminhãozinho vermelho que empurra com total devoção.

 Glaucia leva seu brinquedo pelas alamedas repletas de árvores da praça. Antes fazia isso pelo instinto de criar. Pouco a pouco, a diversão passou a caminhar lado a lado da pergunta do cavaleiro Percival sobre a localização do Graal e o sentido da vida e do mundo. Assim, a pesquisa se torna processo contínuo de aprendizagem

No futuro, que a ninguém pertence, já que cabe a nós construí-lo, o desafio está em ela mesma ocupar seu lugar na praça. Afinal, como diz a sabedoria popular: “As árvores só aparecem quando querem”. Quando chegar a hora, Glaucia Gomes saberá – e a árvore da praça passará a ser a raiz, o tronco e copa de um novo mundo.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 



 

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