Giuseppe
Ranzini
As
formas espirais têm uma sedução muito especial. Ao se
observar cada uma delas, tem-se a sensação de estar sendo
tragado por um universo de perguntas, que se repetem
indefinidamente, motivando a mente a buscar novas respostas e
alternativas. A passividade, nesse universo, não encontra
lugar, pois significa a estaticidade que as formas em espiral
contestam por princípio.
As
pinturas de Giuseppe Ranzini se caracterizam justamente pela
capacidade de gerar no olhar do observador essa busca da
circularidade eterna, numa espécie de uróboro místico, no
qual mais se perde quanto mais se busca e mais se encontra
quando se enfrenta mais desafios.
Nascido
em Milano, Itália, Ranzini veio para ao Brasil aos 8 anos, em
1952, quando o pai, engenheiro químico que atuava na maior
empresa vidreira do mundo, foi contratado para trabalhar no Rio
de Janeiro. Se as possibilidades cromáticas e de forma do vidro
já estavam no sangue, a arte da pintura veio com o tio, o
pintor paisagista Attilio Fesce.
Giuseppe
gostava, desde cedo, de pintar, utilizando folhas de jornal e
confeccionava máscaras e pequenas esculturas em terracota, que
cozia no forno da mãe. Embora, na juventude, tenha participado
de exposições em
São Bernardo do Campo, onde a família se fixou, pouco a pouco,
a atividade artística deixou de ocupar o principal espaço em
sua vida, dando lugar a uma carreira de êxito ligada ao
marketing da indústria farmacêutica.
Assim,
Ranzini viajou pelo mundo, conheceu pessoas célebres da área e
participou de eventos de primeira grandeza em medicina e
quimioterapia. Em 1999, aposentou-se após 35 anos de trabalho e
retomou a carreira de artista plástico com vigor. Seus
trabalhos mais recentes dão aos mundos microscópicos da química
e da medicina, com os quais teve profundo contato, uma manifestação
pictórica pelos traços espiralados e pela circularidade.
As
estruturas anelares, embora estejam presentes nas ciências
exatas, são paradigmáticas na história da arte. Além do
significado simbólico de um eterno retorno, comportam a
possibilidade visual de capar o olhar de quem contempla cada
tela. Nessa visão, o todo supera a parte e o encantamento com a
obra ocorre com maior intensidade a distância.
As
segmentações estéticas propostas nos anéis trazem uma nova
questão. O círculo tem partes, e elas interagem a cada
instante. Seja em trabalhos com apenas uma ou duas cores ou nas
imagens em que há a maior preocupação colorista, é o
espiral, enquanto forma e linha, que cativa, constituindo um fio
da vida e um caminho para a leitura de cada composição estética.
A poética
de Ranzini leva à formação de estruturas diversas a partir do
mote de estruturas químicas e genéticas que se colocam lado a
lado, em movimentos trabalhados com precisão técnica. Oriundo
de uma arte figurativa, o artista parte para segmentações cromáticas,
cromossômicas e anelares com segurança.
Há
em Giuseppe Ranzini a busca permanente pela solução plástica
apurada. Ele não aceita a solução fácil que a espiral pode
oferecer. Mergulha nela para retirar toda a sua densidade e a
maior plasticidade possível, num ludismo continuo, numa busca
constante pela alternativa mais atraente em termos visuais, seja
pelo jogo de formas e de cores ou pela justaposição de
misteriosas espirais que atormentam sadiamente a nossa mente.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando
a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de
Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora
Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).