por Oscar D'Ambrosio


 

 


Gisella Hiche

 

            Fidelidade a si mesma

 

O educador norte-americano Benjamin E. Mays (1895-1984) dizia que “Cada homem e cada mulher nasceram para realizar algo de único e diferente. Se não o fizerem, nunca será feito”. Talvez essa frase seja um caminho para penetrar na pintura de Gisella Hiche. Embora seus trabalhos tenham o universo feminino como um dos pontos centrais, surge nela um vigor e uma inquietação que apontam para uma produção cada vez mais madura e de qualidade.

Nascida em 9 de fevereiro de 1982, em São Paulo, SP, Gisella teve no avô seu primeiro incentivador. Lembra que ele a estimulava a desenhar no asfalto da rua com carvão. Além disso, a mãe, Lucia Novo, aquarelista, certamente é uma referência importante em termos e organização do trabalho e de respeitar, acima de tudo, a sua liberdade criativa.

Artista plástica desde 2001, formada em Jornalismo, a artista recebeu aulas de Sérgio Niculitcheff e recebe orientação de Eduardo Lima. Surge assim um encontro de influências em termos de técnica com pintura acrílica e de reflexão sobre a própria poética.

É justamente o caminho escolhido por Gisella que chama a atenção. Ela se vale da tinta acrílica sobre tela de algodão para criar planos a partir do uso de veladuras e contrastes. A sobreposição de pinceladas é o principal recurso técnico, gerando um resultado em que se observa, na maioria dos casos, o prazer pelo ato de fazer.

O processo de Gisella, principalmente em seus trabalhos mais expressivos, é o de ir para a tela e se deixar levar pelas manchas sugeridas. Daí brotam as mais variadas figuras, principalmente as femininas. Algumas aparecem acompanhadas de objetos, como um copo ou garrafa, mas o elemento humano se torna fundamental.

Ao trabalhar com o figurativo e com técnicas tradicionais de pintura, a artista paulista opta por uma vereda em que se vê obrigada a buscar um constante processo de renovação de si mesma para atingir resultados cada vez mais expressivos. De fato, o universo dela é o da expressão e, nesse sentido, as imagens que cria talvez sejam o menos importante.

Rostos de mulheres, moças sentadas ou figuras femininas contemplando o horizonte, num misto de esperança, solidão e tristeza são meramente o resultado plástico  de um desenvolvimento interno muito rico da própria produção. Uma das imagens já criadas, uma espécie de xamã, mescla entre masculino e feminino, parece ser a trilha aberta mais enriquecedora.

As manchas podem então ganhar novas e diversificadas formas, sempre dentro do princípio de que Gisella pinta não a alma e a forma femininas, mas o próprio dilema de existir. Para isso, ela integra o universo das manchas, não das linhas. Delas brota não um universo feminino, mas a rica possibilidade de interpretar as relações internas e externas de cada ser humano pelas tintas e pincéis.

A partir das manchas, Gisella Hiche gera uma visão de mundo pessoal – como não poderia deixar de ser –, marcada pela cor, pela expressividade e pela possibilidade quase infinita de transformar a inquietação do existir, com recursos técnicos, em trabalho artístico de qualidade, denso e motivado pela necessidade interior de ser fiel a si mesma.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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   Saiu das flores 
acrílica 2004
Gisella Hiche

 

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