Gisele
Ulisse: paixão com técnica
Um
dos grandes problemas da arte produzida neste século está na
dificuldade de muitos criadores de fundir aquilo que gostam de fazer com
aquilo que podem fazer de melhor. Por um lado, o prazer de criar não
pode ser abandonado; por outro, deve estar associado a um progressivo
aprimoramento técnico.
A
artista plástica Gisele Ulisse consegue superar esse aparente dilema
com pinturas que têm o índio como tema principal. Nelas, a arte de
qualidade é resultado exatamente de um gradual envolvimento afetivo com
o tema ao longo dos anos e a contínua busca pelo aperfeiçoamento do
desenho do rosto humano.
O
exercício técnico com a mescla da observação do mundo indígena
resulta em telas em que a humanidade é mais importante que a
antropologia. Isso significa dizer que a diferença de seu trabalho está
na maneira como retrata a alma por meio da tinta. Os olhares e as
expressões dessas pessoas são colocadas em evidência
Nascida em
Jundiaí, SP, filha de imigrantes italianos, Gisele tem como base de seu
trabalho plástico a capacidade de captar expressões e emoções. O
ponto de partida, como ela confessa, pode ser um branco, um negro ou um
amarelo, mas, durante a composição da tela, a imagem vai se
transformando na de um índio, revelando a alma do personagem retratado
Embora haja
uma predominância de tons de ocre, as cores dos adornos também se
fazem presentes. A intensidade dos olhares e dos sorrisos das crianças
índias, por exemplo, são importante referência, podendo, por exemplo,
ser combinada com diversos elementos da natureza que rodeiam o mundo indígena,
como um bambu ou um pássaro.
A
combinação entre tons de marrom e outros mais quentes geram infinitas
possibilidades plásticas, assim como o uso de imagens de crianças
mescladas as de adultos. É o ser humano que fascina a artista e, nesse
campo, os caminhos são infinitos e desafiadores.
Habilidosa
na arte do desenho, a artista paulista, pelo uso das pinceladas, tenta
conhecer melhor as expressões da alma. Cestos, cocares, instrumentos
musicais e animais são combinados às imagens humanas com lirismo. A
pintura corporal, característica dos indígenas brasileiros, também é
utilizada como elemento de composição.
Gisele
Ulisse dialoga com as tradições seculares dos primeiros povos que
habitaram o Brasil. Realiza um trabalho que mostra sentimentos e expressões
de um povo simples que, na sua autenticidade, deveria ser mais
respeitado dentro da cultura brasileira. Acima de tudo – o que não é
pouco – dá, com sua técnica, relevância ao sentimento humano de
povos que parecem cada vez mais condenados ao desaparecimento com sua
milenar cultura.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e
responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio