por Oscar D'Ambrosio


 

 


Gisele Ulisse: paixão com técnica

 

Um dos grandes problemas da arte produzida neste século está na dificuldade de muitos criadores de fundir aquilo que gostam de fazer com aquilo que podem fazer de melhor. Por um lado, o prazer de criar não pode ser abandonado; por outro, deve estar associado a um progressivo aprimoramento técnico.

 A artista plástica Gisele Ulisse consegue superar esse aparente dilema com pinturas que têm o índio como tema principal. Nelas, a arte de qualidade é resultado exatamente de um gradual envolvimento afetivo com o tema ao longo dos anos e a contínua busca pelo aperfeiçoamento do desenho do rosto humano.

O exercício técnico com a mescla da observação do mundo indígena resulta em telas em que a humanidade é mais importante que a antropologia. Isso significa dizer que a diferença de seu trabalho está na maneira como retrata a alma por meio da tinta. Os olhares e as expressões dessas pessoas são colocadas em evidência

            Nascida em Jundiaí, SP, filha de imigrantes italianos, Gisele tem como base de seu trabalho plástico a capacidade de captar expressões e emoções. O ponto de partida, como ela confessa, pode ser um branco, um negro ou um amarelo, mas, durante a composição da tela, a imagem vai se transformando na de um índio, revelando a alma do personagem retratado

            Embora haja uma predominância de tons de ocre, as cores dos adornos também se fazem presentes. A intensidade dos olhares e dos sorrisos das crianças índias, por exemplo, são importante referência, podendo, por exemplo, ser combinada com diversos elementos da natureza que rodeiam o mundo indígena, como um bambu ou um pássaro.

A combinação entre tons de marrom e outros mais quentes geram infinitas possibilidades plásticas, assim como o uso de imagens de crianças mescladas as de adultos. É o ser humano que fascina a artista e, nesse campo, os caminhos são infinitos e desafiadores.

Habilidosa na arte do desenho, a artista paulista, pelo uso das pinceladas, tenta conhecer melhor as expressões da alma. Cestos, cocares, instrumentos musicais e animais são combinados às imagens humanas com lirismo. A pintura corporal, característica dos indígenas brasileiros, também é utilizada como elemento de composição.

Gisele Ulisse dialoga com as tradições seculares dos primeiros povos que habitaram o Brasil. Realiza um trabalho que mostra sentimentos e expressões de um povo simples que, na sua autenticidade, deveria ser mais respeitado dentro da cultura brasileira. Acima de tudo – o que não é pouco – dá, com sua técnica, relevância ao sentimento humano de povos que parecem cada vez mais condenados ao desaparecimento com sua milenar cultura.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e responsável pela página www.artcanal.com.br/oscardambrosio

 
 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio