por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Gisele Ulisse

 

            Paixão e técnica na pintura

 

            Transformar dificuldades em energia positiva para realizar seus sonhos é a principal característica da artista plástica Gisele Ulisse. Suas pinturas, que têm como principal tema o índio, mostram como a arte de qualidade é resultado de dois fatores: a paixão pelo que se faz e o constante exercício da técnica.

            Nascida em Jundiaí, filha de imigrantes italianos, superou a infância difícil em busca de dois grandes sonhos: dar aula de arte e ser reconhecida como artista plástica. Para atingir ambos, precisou de competência e sorte. Juntando ambos, vai construindo a sua carreira.

            Gisele Regina Ulisse nasceu dia 4 de maio de 1972, em Jundiaí, interior do Estado de São Paulo, onde mora até hoje. Seu pai, Rodolfo, nasceu em Teramo, área central da Itália, de onde saiu, aos 14 anos, para atuar como lavrador na agricultura, nas plantações do Estado do Paraná, na região de Londrina.

            Rodolfo chegou ao Brasil com os país e irmãos. Não trouxeram quase nada a não ser a disposição de trabalhar muito na plantação da uva, atividade que conheciam muito bem na Itália. Tinham a promessa de que o Brasil era quase um paraíso na terra. Não foi bem assim. As condições de trabalho para os imigrantes, infelizmente, eram péssimas e as dificuldades, muitas.

            Como uma das irmãs de Rodolfo tinha problemas de saúde e não se deu bem com clima frio do Paraná, a família mudou para Jundiaí, onde também havia grande colonização italiana e a plantação de uvas era a principal atividade econômica. O problema é que, ao sair da região de Londrina, ele deixava ali uma namorada, Olinda.

            Eles se conheceram no Paraná e namoravam há três anos. Paranaense, de família de sitiantes, mas também de origem italiana, ela não queria mudar para o Estado de São Paulo. Ele veio sozinho, mas sentia tanta falta de sua amada que o pai dele foi buscar a moça. O casamento ocorreu no Paraná e, em seguida, a família se estabeleceu em Jundiaí, onde ela conheceu um novo mundo. Até então, no pacato interior do Paraná, nem carnaval ela conhecia.

Jundiaí, que começava a se industrializar, embora tivesse a produção de uvas como atividade importante, já não tinha tantas oportunidades para agricultores. A área em expansão era a construção civil, que se ampliara muito com o desenvolvimento. Assim, a família mudou de atividades. Rodolfo trabalhou como assistente de pedreiro e, depois, pedreiro. Depois fez curso de mecânica e começou a trabalhar nas indústrias metalúrgicas da região, como a Vigoreli, hoje extinta.

            Aos 5 anos, Gisele, brincando com Marcos, um dos irmãos, mexeu com álcool e fogo. Dessa combinação perigosa, resultou uma queimadura em quase todo o lado direito de seu corpo. Foram necessárias várias cirurgias reparadoras durante toda a adolescência a parte da vida adulta.

            Mas essa situação, marcada pela dor física e pelo preconceito de outras crianças ao ver as marcas em sua pele, não fez Gisele desanimar nunca. Seguramente retirou daí muito de suas forças que a levaram rumo aos seu sonhos de ter a arte como uma forma de vida em que pudesse exercitar a sua criatividade.

            Até meados do anos 1980, a infância de Gisele foi muito difícil em termos econômicos. O pai trabalhava muito, mas ganhava muito pouco. Não havia nem dinheiro para comprar caderno para a escola, mas isso não impedia que ela e os dois irmãos se divertissem muito. A principal brincadeira era desenhar.

            Com seus dois irmãos mais velhos (Carlos, que hoje trabalha com compra e venda de carros, e Marcos, tatuador), Gisele ficava na mesa da cozinha, desenhando todo o tempo que podiam. Carlos idealizava maquetes de cidades e os três pegavam papel e lápis de cor para criar casas, postos de gasolina, ruas, bancos e até o dinheiro.

            Quando Gisele tinha 14 anos, começou a servir de cobaia para as primeiras tatuagens de Marcos. Como não havia condições de comprar os materiais adequados, improvisavam como podiam. Mais tarde, ele deixou o emprego de mecânico com o pai e se dedicou totalmente à tatuagem, sendo considerado o melhor de Jundiaí e tendo o seu trabalho mencionado em revistas norte-americanas.

            A falta de dinheiro obrigou os três irmãos a serem criativos. Como não tinham como comprar brinquedos, fabricavam tudo, desde tratorzinhos feitos com madeira, pregos e manivelas feitas a mão até carrocerias de carrinhos de autorama. Tudo era feito de maneira artesanal e engenhosa, com o maior cuidado e carinho, num desenvolvimento contínuo da criatividade e do lado artístico de cada um.

Como seus dois irmãos mais velhos, ainda adolescente, Gisele começou a trabalhar. Estudava a noite e, de dia, atendia ao público numa locadora de vídeo. No final dos anos 1980, os filmes não ficavam nas prateleiras, como hoje, mas havia fichinhas que ajudavam as pessoas a escolherem o que queriam ver.

O dono da loja era quem escrevia aqueles textos, mas Gisele fez um e ele gostou passando a função para adolescente. O emprego se tornou muito agradável, pois passou a ser a responsável por ver os filmes e redigir aqueles textos. Passaram por seu olhos, filmes que marcaram época, como A era do rádio e Máquina mortífera.

Gisele atuou depois numa loja de roupas e calçados, como balconista, e numa fábrica de parafusos, atendendo as montadoras, que desejavam saber em que parte da linha de produção estavam os produtos que haviam encomendado. Ela lembra que esse emprego a marcou muito, pois percebeu que se envolvia muito com toda atividade que desempenhava, não medindo esforços para ser bem-sucedida atender bem o seu cliente.

Paralelamente, Gisele continuava desenhando e pintando. O sonho de ser professora de artes a acompanha desde os 8 anos. Na rua em que morava com os pais, as crianças formaram um “Clubinho da Mônica”, e ali exerceu pela primeira vez seu grande desejo de ensinar pessoas, principalmente as mais idosas, a desenhar e pintar.

Tanto na fábrica de parafusos como na empresa em que o pai trabalhava, havia concursos de desenho para cartazes das mais variadas campanhas de qualidade de produtos e serviços ou para economizar energia. Geralmente podiam participar funcionários ou seus familiares.

Assim, Gisele começou a ganhar concursos nas duas empresas. Certa vez, obteve os três primeiros lugares, o que levava até as outras pessoas a desistirem de concorrer. Por isso, o seu chefe lhe disse que deveria transformar aquela habilidade natural numa forma de vida, fazendo algum curso que relacionasse o seu talento com uma profissão, como publicidade.

Motivada, procurou a Escola Panamericana de Arte, em São Paulo, onde se formou.. Confessa que sofreu um pouco com a falta de atenção individualizada dos professores, mas não passava de mais uma entre centenas de alunos. Também procurou aproveitar ao máximo, pois quase tudo o seu salário era para pagar o curso.

Os primeiros frutos vieram quando foi convidada pela empresa a mudar de função. Em vez de trabalhar no atendimento, seria responsável pela criação dos cartazes de todas as campanhas da fábrica. Um deles foi até para sede da empresa na Alemanha. Com isso, percebeu que podia transformar o desenho em uma profissão com a qual pudesse se sustentar.

Tomou então uma decisão que alterou toda a sua vida: estudar Artes Plásticas e sair da empresa. Começou a fazer o cursinho preparatório para os exames vestibulares em ainda saber exatamente que curso queria. Buscava algo relacionado a artes, como publicidade, arquitetura ou desenho industrial.

Quando soube que havia um curso de Artes, não teve dúvidas. Prestou vestibular no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo, SP. Entrou e começou uma jornada heróica. Fazia faculdade de manhã e dava aula de educação artística em escolas de Jundiaí, às vezes, à tarde e à noite.

Assistia às aulas até meio-dia, ia até a rodoviária pegava ônibus na rodoviária às 13h almoçava no ônibus, numa viagem de 45 minutos, e ia direto lecionar. Após seis meses nessa loucura, passou a dar aulas somente à noite. Isso foi possível, porque, aos 21 anos, realizando um de seus sonhos de infância, Gisele montou uma escola.

A decisão foi repentina e assustou a família, mas a jovem não se intimidou. Como havia conseguido ser despedida da fábrica, empregou o dinheiro na compra de seis cadeiras, seis carteiras e seis cavaletes e no aluguel de uma pequena sala. Não havia dinheiro nem para ter um telefone de contato.

Nasceu assim a escola Oficina de Artes, que hoje conta com aproximadamente 70 alunos e sete professores. O foco, no começo, era um público adulto que desejava aprender a pintar. A própria Gisele fez uns panfletos bem simples, distribuiu de mão em mão e, na primeira semana, já tinha três alunos. No primeiro mês, foram sete.

Enquanto a escola começava a se desenvolver, Gisele não tinha ainda definido o seu caminho na pintura. Preferia a figura humana – característica muito presente em seu trabalho – e seguia um estilo acadêmico, ou seja, seguindo os ensinamentos tradicionais de composição dos quadros e de perspectiva, embora já começando a buscar as próprias soluções, abstraindo alguns elementos.

Para se aperfeiçoar na representação da anatomia, reservava todas as sextas-feiras para fazer aulas de modelo vivo no Centro Cultural Vergueiro. Na faculdade, teve aulas de artes plásticas, cênicas (teatro) e música. Adorava as aulas de modelagem de esculturas em argila, de história dos instrumentos, como o oboé, e de coral.

Durante o curso, sentiu falta de liberdade para poder exercitar a sua liberdade no desenho ou na fotografia. Reagia, no fundo, a qualquer tentativa que a colocasse em fórmulas pré-determinadas. A solução foi a troca de experiências entre as colegas de turma, onde cada uma passava às outras aquilo que dominava mais sem bloquear a criatividade do colega.

Nem é preciso dizer que Gisele orientava as colegas no desenho e, em troca, lembra dos ensinamentos que recebeu para lidar com papel machê, principalmente na feitura de máscaras venezianas, assim como aquarela e outros procedimentos artísticos que a ajudaram a ampliar o seu referencial.

Gisele terminou a faculdade em 1996 e se casou no ano seguinte, após um namoro-relâmpago de dez meses com Willy, que aprecia muito o seu trabalho, sendo um de seus principais incentivadores para que a sua arte alcance um nível cada vez mais elevado e uma repercussão ainda maior.

O trabalho de conclusão de curso de Artes Plásticas com licenciatura em Educação Artística de Gisele foi sobre idosos, tema que sempre apaixonou e que a motivava a fazer centenas de fotografias pelas ruas de Jundiaí. Isso provavelmente a levou a preferir dar aulas para esse público, pelo qual tem especial afeição.

Os índios surgiram em seu trabalho graças à mãe, Olinda. Foi ela quem lhe mostrou uma foto de um índio e sugeriu que fosse o ponto de partida para uma pintura. Gostou do assunto e, além dos nus que fazia, começou a realizar outras obras sobre o tema, já com tinta acrílica e não mais com óleo, como fazia no começo da carreira.

Foi o colecionador e marchand suíço radicado no Brasil Marcel Markus quem, em 1998, ao ver um desses quadros de índios, ficou fascinado. Pediu para ver outros e se encantou mais ainda. Sugeriu então que Gisele tentasse desenvolver e explorar o tema o máximo possível.

Ela gostou e os quadros começaram a ser comercializados por Markus, na sua galeria no Embu, em São Paulo, e em outros lugares. Com todo esse incentivo, Gisele passou a pesquisar mais o assunto – e o tema começou a apaixoná-la. Suas obras, porém, não têm uma preocupação antropológica.

A base da obra da artista está em captar expressões e emoções. O início pode ser um branco, um negro ou um amarelo, que, durante o processo de criação, na tela, se transforma em índio. Como Willly trabalha numa empresa com fábrica em Manaus, Gisele foi com ele e visitou algumas aldeias próximas à capital do Amazonas já bem aculturadas pela influência do homem branco. Mesmo assim, viu que a convivência numa aldeia envolve diversos fatores, como tomar vacinas preventivas e ter contato com bichos como pernilongos e aranhas.

Pela proximidade geográfica, Gisele, sempre que tem oportunidade, visita comunidades indígenas na região de São Paulo. Em janeiro de 2006, por exemplo,  conheceu a aldeia guarani Tekoá Pyaü, (Aldeia Nova, em português) próxima à Capital do Estado, com 128 indígenas.

Ficou impressionada em ver um povo tão simples vivendo tão próximo de uma metrópole como São Paulo. A visita também a fez rever alguns conceitos, principalmente a falsa idéia, muito difundida, que os índios são atualmente ambiciosos e aproveitadores. Essa visão contribui para que os índios sejam muito marginalizados.

Naquela comunidade, encontrou homens, mulheres e crianças que só desejam viver de acordo com a cultura de seus ancestrais, em contato direto com a natureza. Também verificou como a saúde desses índios, principalmente das crianças, está fragilizada e necessita de atenção pública.

            Desde 2003, Gisele freqüenta a Festa Nacional do Índio, realizada em Bertioga, durante quatro dias, em abril, em homenagem ao Dia Nacional do Índio. Em 2005, por exemplo, na quinta edição do evento, foram reunidos representantes de 13 etnias do Brasil. Houve também uma Feira de Artesanato Indígena, no Parque dos Tupiniquins, com produtos produzidos pelas etnias participantes, além da realização do Fórum Social Indígena, tendo como tema Tradição, Globalização e Novas Perspectivas, com a presença de autoridades e representantes indígenas.

            A ocasião é muito importante para quem pesquisa os índios, pois muitos deles nem dominam a língua portuguesa. Gisele tira muitas fotos e nelas busca as expressões que depois utilizará em seu trabalho. Com uma delas até obteve um prêmio de fotografia em 2003.

Ela ficou especialmente fascinada com as cores dos adornos e com os olhares e o  sorriso das crianças índias, bem mais autêntico do que muitas crianças urbanas que já têm um sorriso de pose de modelo quando vão ser fotografadas. A partir dessas imagens, Gisele encaixa elementos da natureza, como um bambu ou um pássaro, e estabelece seu processo criativo, geralmente marcado pelo predomínio de cores ligadas à terra, como o marrom.

Algo muito interessante ocorre quando se freqüenta por diversos anos na Festa do Índio de Bertioga. Torna-se possível acompanhar, por exemplo, o crescimento das crianças e verificar como elas vão se inserindo no mundo indígena e no mundo branco. Com a combinação de diversas imagens de crianças e a fusão delas com a de um adulto, por exemplo, surgem trabalhos interessantes.

Com sua escola de artes e o seu trabalho artístico, Gisele Ulisse vai traçando uma trajetória muito pessoal nas artes plásticas. Baseada em sua habilidade no desenho, pinta índios não com o interesse de uma antropóloga, mas com a qualidade de uma artista que busca, pelo uso de tintas com seu pincel, conhecer melhor as expressões da alma humana.

Cestos, cocares, instrumentos musicais e animais são colocados junto à figura humana com grande lirismo. A pintura corporal, característica dos indígenas brasileiros, também serve de inspiração para Gisele, que compõe parte de seu trabalho justamente no diálogo entre a sua arte e as tradições seculares dos primeiros povos que habitaram o Brasil.

O grande ensinamento que Gisele retira dos índios é justamente a simplicidade e a ausência de ambição, características tão presentes na sociedade moderna. Eles buscam, dentro do possível, viver em harmonia com a natureza – e isso lhes basta, desde que lhe sejam dadas condições de ter áreas de terra que lhes permita assegurar a sobrevivência.

A pintura de Gisele apresenta semelhança no sentido de uma ausência de pretensão. Seu trabalho com a figura humana mostra, acima de tudo, sentimentos e expressões de um povo simples que, na sua autenticidade, deveria ser mais respeitado dentro da cultura brasileira. O trabalho da artista, em parte, propicia que isso aconteça.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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   Herdeiro do Brasil 
acrílico sobre tela 90 x 30 cm 2005

Gisele Ulisse

 

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