Gina da
Silva
O
ludismo de criar
"Criar
é matar a morte". A frase do escritor francês Romain
Rolland define com precisão o universo artístico da pintora e
artesã Gina da Silva. Seja em quadros com linhas delicadas e bem
definidas ou em pequenas imagens de torsos femininos feitos com
latinhas de refrigerante, ela mostra como o objeto mais simples,
se trabalhado com talento, pode se transformar em obra de arte.
Nascida
em São Paulo, SP, em 1948, Georgina (Gina) da Silva é irmã dos
artistas Maria Auxiliadora, João Cândido e Conceição, entre
outros que se dedicam à pintura e a escultura. Em suas hábeis mãos,
qualquer material ganha status artístico. Seu principal talento
está justamente na capacidade de concretizar as idéias que não
param de surgir.
Pintora
autodidata de traço refinado, comprovado em cenas rurais, de
colheitas ou sobre cangaço, Gina, que começou a se exercitar nas
telas nos anos 1970, apresenta um delineamento mais delicado
daquele apresentado pela maioria dos artistas primitivistas. Suas
figuras têm contornos finos e precisos, que dão a seus quadros
grande harmonia estética, criando um mundo pictórico
caracterizado por cores vibrantes.
Gina
também realiza uma artesanato diferenciado, no qual utiliza
diversos materiais, como sucata, miçangas, pedras e conchinhas.
Um trabalho de esmerado labor estético é o feito com latas de
refrigerante ou de cerveja. A partir delas, a artista cria rostos
de damas da belle époque, do princípio do século passado, com
aqueles vestidos repletos de peles e transparências.
O
resultado alcançado por Gina assombra pelo efeito visual. Em meio
aos paetês, retirados de retalhos de vestidos ou de cerimônias
do candomblé, surgem formas que lembram rostos delicados e corpos
sensuais. As figuras ficam ainda mais valorizadas quando são
emolduradas em pares, pois surge assim um diálogo entre as
mulheres de sucata, que se transformam em belas damas a conversar
e estabelecer fuxicos a meia voz.
A
artista realiza ainda um belo trabalho com pequenas bonecas que
coloca sobre banquinhos de praça. Há o casal de idosos, sendo
que o braço dele é alongado, em pleno estilo surrealista; duas
crianças em posições bem sapecas; os namorados recostados um
sobre o outro; e uma grávida com um vestido todo estampado.
Essas
figuras colocadas sobre o banquinho em diversas posições trazem
ao observador todo o universo da infância e de um tempo em que as
praças eram espaços públicos nos quais a cidadania podia ser
exercida. Podia-se namorar, jogar damas ou simplesmente ver o
tempo passar sem o medo da violência urbana, expressa num assalto
ou outra ação truculenta típica das grandes cidades.
Outro
trabalho encantador de Gina é o de meninos empinando papagaios. A
interação entre as crianças, o brinquedo e a verticalidade
fascina, principalmente pela ampla imaginação posta em prática
a partir de elementos e materiais simples. Saber lidar com poucos
recursos e colocá-los a serviço da imaginação é o grande mérito
da artista, que consegue extrair o máximo daquilo que tem em mãos.
A
atividade artística de Gina da Silva tem um componente lúdico
essencial. Por meio de quadros e objetos, ela alerta que um dos
grandes atributos dos criadores é justamente o de nunca perder a
capacidade de brincar. Seus trabalhos provam como é possível,
pela criatividade da arte, vencer o tempo e a morte, colocando
suas deslumbrantes ilusões particulares em imagens e objetos de
alcance universal.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).