por Oscar D'Ambrosio


 

 



Gina da Silva

O ludismo de criar

 

"Criar é matar a morte". A frase do escritor francês Romain Rolland define com precisão o universo artístico da pintora e artesã Gina da Silva. Seja em quadros com linhas delicadas e bem definidas ou em pequenas imagens de torsos femininos feitos com latinhas de refrigerante, ela mostra como o objeto mais simples, se trabalhado com talento, pode se transformar em obra de arte.

Nascida em São Paulo, SP, em 1948, Georgina (Gina) da Silva é irmã dos artistas Maria Auxiliadora, João Cândido e Conceição, entre outros que se dedicam à pintura e a escultura. Em suas hábeis mãos, qualquer material ganha status artístico. Seu principal talento está justamente na capacidade de concretizar as idéias que não param de surgir.

Pintora autodidata de traço refinado, comprovado em cenas rurais, de colheitas ou sobre cangaço, Gina, que começou a se exercitar nas telas nos anos 1970, apresenta um delineamento mais delicado daquele apresentado pela maioria dos artistas primitivistas. Suas figuras têm contornos finos e precisos, que dão a seus quadros grande harmonia estética, criando um mundo pictórico caracterizado por cores vibrantes.

Gina também realiza uma artesanato diferenciado, no qual utiliza diversos materiais, como sucata, miçangas, pedras e conchinhas. Um trabalho de esmerado labor estético é o feito com latas de refrigerante ou de cerveja. A partir delas, a artista cria rostos de damas da belle époque, do princípio do século passado, com aqueles vestidos repletos de peles e transparências.

O resultado alcançado por Gina assombra pelo efeito visual. Em meio aos paetês, retirados de retalhos de vestidos ou de cerimônias do candomblé, surgem formas que lembram rostos delicados e corpos sensuais. As figuras ficam ainda mais valorizadas quando são emolduradas em pares, pois surge assim um diálogo entre as mulheres de sucata, que se transformam em belas damas a conversar e estabelecer fuxicos a meia voz.

A artista realiza ainda um belo trabalho com pequenas bonecas que coloca sobre banquinhos de praça. Há o casal de idosos, sendo que o braço dele é alongado, em pleno estilo surrealista; duas crianças em posições bem sapecas; os namorados recostados um sobre o outro; e uma grávida com um vestido todo estampado.

Essas figuras colocadas sobre o banquinho em diversas posições trazem ao observador todo o universo da infância e de um tempo em que as praças eram espaços públicos nos quais a cidadania podia ser exercida. Podia-se namorar, jogar damas ou simplesmente ver o tempo passar sem o medo da violência urbana, expressa num assalto ou outra ação truculenta típica das grandes cidades.

Outro trabalho encantador de Gina é o de meninos empinando papagaios. A interação entre as crianças, o brinquedo e a verticalidade fascina, principalmente pela ampla imaginação posta em prática a partir de elementos e materiais simples. Saber lidar com poucos recursos e colocá-los a serviço da imaginação é o grande mérito da artista, que consegue extrair o máximo daquilo que tem em mãos.

A atividade artística de Gina da Silva tem um componente lúdico essencial. Por meio de quadros e objetos, ela alerta que um dos grandes atributos dos criadores é justamente o de nunca perder a capacidade de brincar. Seus trabalhos provam como é possível, pela criatividade da arte, vencer o tempo e a morte, colocando suas deslumbrantes ilusões particulares em imagens e objetos de alcance universal.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

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"Banquinho"

Mista - 13x17 - 2001

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