Gil Verx
A quarta dimensão
A mescla de pressupostos
artísticos acadêmicos de reprodução do real com o pensamento
conceitual da modernidade é o que torna a arte produzida por Gil
Verx extremamente atual. Ele toma como matéria-prima telas de arame
e modela nelas formas humanas ou abstrações criando um universo de
possibilidades visuais que extrapola as três dimensões.
Tradicionalmente, quando
se pensa em três dimensões, estamos trabalhando com as medidas de
comprimento (ou profundidade), largura e altura. A quarta dimensão
(espacial) é ortogonal, ou seja escapa aos conceitos de cima/baixo
(altitude), norte/sul (longitude) e leste/oeste (latitude).
A quarta dimensão espacial a que nos
referimos provém das aberturas que Verx propicia. Por um lado, ele
utiliza o plano, no sentido que as sobras da luz sobre a peça que o
artista produz geram uma imagem contra uma parede, papel ou algo
semelhante. Por outro, atinge, em todas as dimensões possíveis, de
volume.
O segredo está no fato de a tela de
arame, que apresenta numerosos graus de espessura e de abertura de
tramas, vale enquanto obra em si mesma e enquanto caminho a ser
desvendado em termos de viabilidade plástica pelo uso da incidência
de luz sobre ela.
Há na obra de Gil Verx numerosos
elementos estranhos e misteriosos. Isso significa a capacidade de
explorar novas formas de expressão por intermédio de um suporte
ainda pouco utilizado. O fato de a luz poder agir com as máscaras e
objetos de arame questiona inclusive o próprio trabalho.
As perguntas que surgem apontam para
onde está o ponto mais forte da pesquisa do artista. Ele residiria
no ato da escolha do material, na modelagem, na consecução lenta das
tramas, com inúmeras tranças, no estudo da luz ou nos jogos de
sombras possíveis a partir da passagem e a interação dos feixes de
luz com o objeto?
A técnica que o artista plástico e
iluminador baiano radicado em São Paulo usa é indagadora. Os seus
trabalhos com resultados plásticos mais significativos ocorrem
quando começa a criar formas abstratas ou aliadas a um conceito,
como telas de arame cobrindo caveiras de animais ou sugerindo a
presença deles.
Quanto menos figurativa, a obra ganha
em profundidade e em possibilidades de leituras. As sombras
projetadas obtêm uma autonomia cada vez maior, sendo praticamente
autônomas à construção plástica em si mesma. É nesse jogo que a
quarta dimensão se instaura.
Não estamos falando mais de linha,
plano ou volume, mas dos diálogos entre essas instâncias. São
estabelecidas assim estruturas imaginárias que demandam do
espectador sensibilidade e criatividade, principais atributos
mostrados por Gil Verx em cada nova criação.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da
Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-
Seção Brasil).