por Oscar D'Ambrosio


 

 


G. Farina

O reino da luz

Mergulhar no mundo pictórico de certos artistas é penetrar em outra realidade. Imagens, cores e luz têm essa rara capacidade de permitir que o observador se sinta transportado a um novo mundo, só acessível aos que se liberam das amarras cotidianas do tempo e do espaço.

As telas de G. Farina conseguem esse efeito justamente pela capacidade que ele apresenta de trabalhar com a luminosidade. É esse recurso pictórico que abre as chaves da fantasia. Cada tela torna-se então um portão mágico de possibilidades e cada imagem, o ponto de partida de infinitas narrativas.

O talento de Gilberto Farina soma-se a uma biografia que, embora possível de ser resumida em poucas linhas, valoriza ainda mais sua afirmação como artista profissional num País em que a arte está longe de ser uma prioridade. Ser pintor, entre nós, portanto, é um ato de coragem e tomar isso como modo de vida, quase um heroísmo.

Nascido em 1942, em São Bernardo do Campo, SP, Gilberto Farina, ainda menino, sofreu de uma moléstia que o deixou com deficiências de audição e de fala. Por isso, aos oito anos, vai estudar no Instituto Nacional de Surdos e Mudos do Rio de Janeiro, onde descobre a sua vocação para as artes plásticas, que desenvolve plenamente ao 17 anos, quando começa a se dedicar integralmente à pintura e a obter desse ofício o seu sustento.

Essa nota biográfica em si mesma não justifica, todavia, qualquer elogio a Farina. Sua luz e sus cores são significativas enquanto objetos artísticos autônomos. Há nelas um portal para o desconhecido, uma maneira de dialogar com o espectador que ultrapassa a mera imagem para se alojar no campo do inconsciente.

Talvez seja por isso que os casarios, as paisagens e os pátios e alamedas espanholas surgem como convites para ingressar nas telas. O uso de arcos e arcadas de várias dimensões contribui – e muito – para convidar o espectador a participar da obra. Aliado à iluminação fantástica, esse recurso possibilita a expansão da imaginação de quem está do lado de fora da tela.

Farina sabe como atrair o olhar do espectador. Domina bem essa técnica e a utiliza com naturalidade. Os ambientes, quando marcados pela presença de flores, se tornam ainda mais convidativos e merecedores de uma visita. É, portanto, quase praticamente impossível não contemplar o quadro por uma segunda vez após uma primeira olhadela.

O maior desafio está em retornar da viagem mental induzida pelas telas. Os espaços ganham uma coloração quase mística, não no sentido de irrealidade, mas, pelo contrário, de sua supra-realidade. De tão intensos, parecem estar além do nosso alcance mortal e conhecê-los surge como alternativa às agruras cotidianas.

A arte de G. Farina beira a magia. Seus ambientes fantásticos, repletos e luz, parecem saídos de um romance espanhol do século XIX. Após as arcadas de suas telas, pode-se sempre imaginar uma cativante surpresa, seja por um emocionante rapto digno de um filme de aventuras dos anos 1940 ou pela presença gloriosa de um cavaleiro medieval. Tudo se torna possível nesse instigante reino da luz e de fantasia, em que a única proibição é estabelecer um limite para a própria capacidade de sonhar.

Oscar D’Ambrosio é jornalista, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Wadomiro de Deus (Editora UNESP).

   

 

 

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