por Oscar D'Ambrosio


 

 


Gersion de Castro

 

            Poético depoimento visual

 

            A pintura de Gersion de Castro já mereceu numerosos elogios, mas eles, em sua grande maioria, insistem em colocar o artista como uma espécie de repórter das telas, enfatizando a sua habilidade de criar imagens sobre o Paranoá, Região Administrativa do Distrito Federal (DF) que está a 20 minutos do centro da Capital do país, Brasília.

            O local, hoje com uma população de aproximadamente 65 mil pessoas, guarda, de fato, uma importante história, pois surgiu em 1957, com a chegada dos primeiros trabalhadores para a construção de Brasília, mais especificamente para as obras da Barragem do Paranoá.

            Ao longo dos anos, foram agregando-se à estrutura do antigo acampamento vilas de moradias.          A região era considerada uma das maiores invasões do DF e o local apenas ganhou reconhecimento público no final dos anos 1980, após uma longa trajetória de resistência e de luta dos moradores.

Nascido em Brasília, DF, em 8 de novembro de 1969, Gersion acompanhou essa história e sua arte tem esse universo como mote. Ele não leva para a tela o Paranoá de hoje, mas sim aquele que conheceu quando criança, com falta de água e de luz, barracos acumulados e cenas de lazer aos finais de semana.

            Foi nessa realidade que Gersion começou a desenhar nas paredes do barraco de madeira onde morava.  Incentivado pelos pais e pela irmã mais velha, passou a fazer desenhos para jornais comunitários e cartazes para anunciar eventos culturais, festivais de música, festas juninas e comemorações religiosas.

            O contato com artistas plásticos como Isabel Hilgenberg e Marlene Godoy, foi importante para aprimorar o conhecimento técnico, mas sua poética já estava se cristalizando na maneira de ver o Paranoá. Não se trata apenas de um tema, mas de um manancial de estímulos visuais.

            A intensidade das cores é uma característica relevante, assim como a habilidade compor grupos de pessoas nas telas interagindo com o meio. Barracos, postes de luz e personagens diminutos geralmente são o cenário de algum acontecimento principal que ganha o centro da tela.

            Reivindicações que almejavam a fixação no Paranoá, dezenas de pessoas levando latas de água para serem atendidas por um carro pipa ou as cores de roupas e de bandeirinhas das tradicionais festas de junho são solucionadas plasticamente numa mescla entre o conhecimento de uma determinada realidade somado à habilidade técnica.

            Não se pode correr o risco de compreender a arte de Gersion de Castro apenas como um depoimento histórico ou sociológico. Ele se alimenta dessa realidade em suas pinturas e desenhos, mas seu valor como artista plástico está além disso. A maneira como realiza as suas composições o coloca acima do tema que retrata.

            O pintor de Brasília realiza um poético depoimento visual que se distingue pela sinceridade e por um complexo e personalíssimo mecanismo de composição de lembranças e fragmentos de sua história. Trata-se de um caminho legítimo, mas, se o seu assunto fosse outro, o resultado final seria igualmente admirável.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

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 Becos e barracos
caneta esferográfica sobre papel 21 x 28 cm 1999

Gersion de Castro

 

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