por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

George Gutlich

 

            O poder da expressão

 

            A arte da gravura encontra em George Rembrandt Gutlich um representante visceral, daqueles que dedicam a sua vida não tanto ao desenvolvimento de um tema específico, mas sim ao aprimorar um pensamento e discutir questões técnicas tanto no ofício da feitura como no da impressão.

            Seu ateliê em São José dos Campos, SP, funciona como centro de discussão de propostas estéticas e também de experimentação de formas de expressividade, em que alunos e professor debatem e trocam processos que podem levar a uma melhor realização de  projetos individuais.

            Do conjunto da obra de Gutlich, que também faz incursões pela pintura, há dois universos que se interligam em diversos aspectos, embora aparentemente afastados. O que eles têm em comum é justamente o princípio de que o amadurecimento plástico é uma constante e os melhores trabalhos não são os feitos, mas aqueles que estão por vir, num autêntico e sincero caminhar.    

            Um universo do artista, nascido em São José dos Campos em 1968 e filho do pintor holandês Johann Gutlich, que veio para o Brasil no começo da década de 1950, é o que se alimenta de paisagens. São cenas urbanas, preferencialmente de galpões e ambientes semi-abandonados em que o foco é a arquitetura como um diálogo visual com o espaço.

            A ausência do elemento humano surge como fato significativo na poética do artista. O que se tem é a exploração dos claros e escuros de modo a configurar um universo em que as áreas em branco ganham uma dimensão próxima ao metafísico que a discussão que se instaura é a da inserção das construções humanas no espaço e o seu abandono.

            Quando se trata de lançar os olhos sobre o universo rural, é o banhado, região de São José conhecida pelas suas zonas encharcadas e a constante bruma matinal. Esta última ganha, na forma de expressão da gravura, várias conotações e visualizações, tanto no que diz respeito à questão ecológica quanto à oportunidade de exercitar-se tecnicamente, juntando o pensar bem ao saber fazer.

            Um outro segmento de trabalhos, distinto no assunto, mas muito próximo em relação ao olhar lançado sobre referenciais concretos, é o que se volta aos brinquedos antigos, colocados nas mais diferentes composições, num exercício que se realiza na temperatura plástica de naturezas-mortas européias, mas com uma acurada pesquisa que passa pela discussão dos materiais e processos.   

            Com uma ampla cultura de referências visuais e de leitura, George Gutlich absorve idéias tanto do mundo greco-romano como do italiano. Isso pode ser comprovado na reflexão que interliga a Torre de Babel, de Pieter Bruegel, à paisagem ao fundo da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. Assim, cada nova pesquisa mantém das antigas as leituras e vivências como aluno, professor e autor, por exemplo, de Arcádia Nassoviana: natureza e imaginário no Brasil holandês.

            É no universo das suas cartografias artisticamente transformadas que Gutlich perfaz sua caminhada pelas artes visuais. Como um de seus ícones preferidos da série das imagens inspiradas na infância, o ventilador, ele dissemina sua erudição, sensibilidade, poder expressivo, capacidade criadora e olhar treinado de impressor, em seu próprio trabalho e no de seus alunos, tornando-se um dos principais gravuristas, em talento e influência, de sua geração.   

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

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gravura P. I 1992 30x31,5 cm

George Gutlich

 

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