por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Genésio Teles

 

            Felicidade na arte

 

            A arte contemporânea vive o dilema de conviver com duas vertentes: a da produção inexistente, que se limita a uma discussão de conceitos sem obras, ou a de idéias de grande qualidade muitas vezes não desenvolvidas a contento pela falta de recursos técnicos. Genésio Teles consegue driblar os dois riscos com uma produção contundente que vem recebendo destaque internacional.            

            Nascido em 1947, em Botucatu, SP, Teles chegou a utilizar raspagem em negativos com monocromia de sombra e luz, realizou cursos de pigmentação na Itália e mantém, como uma de suas características, uma visão crítica e muito pessoal sobre o presente e o futuro. Com exposições em países como Espanha, Portugal, França e EUA, além de diversas cidades brasileiras, apresenta uma forma própria de lidar com o mundo.

            Justamente aí está a sua riqueza. A sua temática pode ser a de Antonio Conselheiro, um dos mais destacados líderes nordestinos, ou de caráter mais lúdico. O importante é que ele consegue expressar a sua visão de mundo numa união  significativa entre o conceito presente em cada obra e o universo plástico, principalmente pela forma de trabalhar com as cores.

            A música, um assunto que se faz bastante presente, vale também como metáfora da busca constante por uma harmonia que o mundo contemporâneo não oferece. Isso pode explicar em parte a estética de Teles como uma resposta plástica a uma sociedade que caminha para uma direção incerta pela sua própria fragmentação.

            Nesse aspecto, ou seja, pela mescla entre o lúdico e a falta de um prumo definido do mundo, o artista, em uma obra como Pião, apresenta exatamente as possibilidades infinitas e giratórias, em um tempo indefinido, marcado pela alternância e convivência de visões artísticas e existenciais.

            A imagem do pião é emblemática por colocar em primeiro plano os resquícios de uma sociedade. O ato de girar possui em si mesmo toda uma impermanência, ou seja, caracteriza-se pela transitoriedade constante e pelas perguntas sobrepostas parara uma realidade que a tecnologia nos permite conhecer cada vez melhor aparentemente, mas que  nos desafia pelos jogos de espelhos onipresentes.

            Teles dá voz ao que resta da sociedade  com seu trabalho instigante. Não se trata aqui de uma frase de efeito, mas de uma constatação. Há no pensamento do artista a virtude de não deixar o observador indiferente. Isso ocorre tanto pela pesquisa de materiais como pela forma como a sua proposta nos confronta.

            Seus retirantes evocam clássicos de pintura do gênero, mas apresentam aspectos próprios de um artista que se desenvolve no saudável prazer de nos incomodar. Não se esgota, portanto, numa vertente engajada, mas atinge a universalidade por retratar um país que muitos desejam esquecer ou ignorar.

            Com a habilidade de um jogador de xadrez, Genésio Teles busca planejar os próximos movimentos de suas partidas plásticas numa peleja interna por alcançar resultados cada vez mais significativos e desafiadores ao observador. Seja em mini-esculturas ou em obras de maiores proporções, sua plástica é a da busca da felicidade do criador. Para isso, não mede recursos. Salta no vazio existencial que o leva a sorrir na concretização de cada novo trabalho.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

 

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Instalação
Imagem de mostra na Universidade Federal de Viçosa, MG - 2006

Genésio Teles

 

 

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