por Oscar D'Ambrosio


 

 


Gabriela Osorio

 

            Posicionamento perante o mundo

 

            Gabriela Osorio é várias artistas em uma ou, talvez, uma única criadora multifacetada pela maneira como consegue construir o seu trabalho em termos técnicos e plásticos. Recusa soluções fáceis e transforma cada tela num rico diálogo com o fruidor.

            À primeira vista, é o hiperrealismo que predomina. Isso gera uma inevitável discussão sobre o valor desse estilo , já que muitos o rejeitam e outros o defendem como uma espécie de reduto da técnica num mundo marcado, muitas vezes, pela emoção que beira a pieguice. 

            Claro está que, em termos de conteúdo, Gabriela tem no figurativo o seu porto seguro, seu muro de arrimo. Parte do real para construir suas camadas de cor e seus diversificados jogos visuais na luta por captar a atenção do observador numa sociedade visual tão poluída.

            Se há nela o amor ao detalhe, isso não significa perder a noção de conjunto, mas conseguir congelar o instante de um olhar ou uma cena cotidiana que faça cada um refletir sobre a arte como expressão plástica e o mundo como meio onde o indivíduo constrói a sua própria história.

            Há em Gabriela o estabelecimento de utopias e a crítica a sociedades em que as pessoas pouco valem perante o capital. Preocupado em ter e não em ver de maneira apurada, o homem perde a capacidade de discernimento e de indignação. Esquece até sua condição efêmera e que a arte é, sim, uma forma de comentar criticamente a vida.

            Ao erguer seus castelos visuais, Gabriela consegue manter acessa a chama da reflexão sobre o mundo e questiona as aparentes naturalidades com as quais começamos a nos habituar a conviver. Diferenças de visões, de raça ou de condição social não são encaradas como inevitabilidades da vida, mas ganham, em suas pinturas, uma expressão subjetiva a toda prova, num posicionamento perante o mundo e perante si mesma.

            A pincelada segura e o recorte  preciso das composições estabelecem imagens que tornam os trabalhos de Gabriela, principalmente nas obras mais críticas ao mundo que nos cabe viver, uma alerta constante, quase uma bandeira de combate interior contra a conformidade passiva e emburrecedora.

            Sequioso de lucro, ensimesmado, dominado por religiões que não praticam o que pregam, o ser humano vive hoje imerso na globalização que retira a individualidade de cada pessoa e a transforma num número anônimo na multidão. A arte pode recuperar essa dignidade perdida quando une o domínio dos materiais a um denso sentimento de poder estar de fato no mundo – e não apenas fazer parte dela decorativamente.

            Acima de quaisquer definições de estilo, que agradam àqueles que privilegiam a questão técnica, esquecendo que a arte é feita por homens e mulheres e para eles, Gabriela Osorio gera quadros que sadiamente incomodam, ainda mais quando as pinturas à nossa frente mostram imagens que não deveriam existir num mundo mais justo ou apontam para um mundo bem melhor que não é atingido pela incapacidade humana de lidar com as próprias torpezas.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, campus de São Paulo, e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

 

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Tolerância

óleo sobre tela 70 x 90 cm 2005

Gabriela Osorio

 

 

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