Orlando Fuzinelli
A alegria de viver
O poeta inglês William
Blake escreveu: "Quem amarra a si uma alegria,/ Destrói a
vida alada./ Mas quem beija alegria em vôo/ Vive no nascer do sol
da eternidade". As telas do pintor Orlando Fuzinelli, sejam
sobre o mundo rural ou sobre os 500 anos do Brasil, têm
justamente essa capacidade de captar e transmitir a alegria da
vida. Por isso, elas geram no observador, no mínimo, um sorriso
bem-humorado.
A pintura naïf de
Fuzinelli está em harmonia com o mundo e o representa
geralmente por um viés crítico, marcado por um sorriso ao
mundo circundante. Eventos cotidianos ou esporádicos ganham, em
suas telas, novas dimensões, geralmente marcados por uma
ingenuidade estética valorizada pelo senso preciso da combinação
de cores e formas.
Nascido em Jurupema,
SP, em 23 de julho de 1948, Fuzinelli começou, ainda criança, a
desenhar com carvão no papelão e nas paredes da casa de tábua
da fazenda em que morava. Apenas aos 22 anos ele se mudou para a
cidade e, seis anos depois, mudou-se para São José do Rio Preto,
SP, onde, incentivado por amigos, começou a mostrar o seu
trabalho no Salão de Inverno local, em 1986.
Fuzinelli lembra de seu
começo na pintura. "Trabalhei com látex com bisnagas e até
tinta de tecido. Como o solvente da tinta óleo me dava enjôos,
utilizo tinta acrílica. No início da carreira, pintava mais
cenas rurais, tema que já não é tão freqüente como
antes", conta. Quando via um trabalho acadêmico, queria
fazer igual e saía um desenho quase infantil. Além disso, as
pessoas olhavam para os meus quadros dizendo que o filho fazia
melhor. Na época, porém, eu nem sabia que tinha esse negócio de
primitivista, cubista e expressionista."
Ao se identificar com a
corrente primitivista ou naïf, Fuzinelli começou a divulgar por
conta própria o seu trabalho. "Escrevia cartas para todos os
lados e mandava quadros e fotos para diversos salões de artes. Às
vezes, era cortado; outras vezes, aceito; e diversas vezes,
premiado", relembra.
Entre as honrarias,
incluem-se dois primeiros prêmios, em 1991 e 1992, no II e III
Concursos de Pinturas a Óleo sobre Tela, respectivamente no XXVII
e XXVIII Festival de Folclore de Olímpia, SP; e, em 1995, o Prêmio
de Melhor Pintura no XI Salão de Artes Plásticas Contemporâneo
de Presidente Prudente.
O artista participou
ainda das Bienais Naïfs do Brasil, organizadas pelo SESC
Piracicaba, em 1996, 1998 e 2000. Liberdade para freiras num
piquenique, exposta em 1996, revela toda a alegria de
Fuzinelli. Dezenas de diminutas freiras aparecem espalhadas pela
tela, realizando as mais variadas atividades.
Elas surgem comendo
numa mesa tipicamente naïf, sem perspectiva alguma, andando a
cavalo, de bicicleta e pulando corda. A cena é intensa na alegria
que transmite por tratar, com cores fortes, o momento de lazer das
freiras. O entusiasmo é extravasado em cada imagem, localizada
num ambiente paradisíaco, com montes ao fundo e pássaros sobre
árvores.
Após trabalhar 33 anos
como funcionário público, hoje aposentado, Fuzinelli se inspira
no noticiário diário e com o que acontece no mundo, observando o
que é feito não só pelos naïfs, mas por todo tipo de artista.
"Conhecer bem a história brasileira, seu folclore, ditados
populares e costumes também é muito importante", diz.
Com essa filosofia,
Fuzinelli já tem quadros com colecionadores da Alemanha,
Dinamarca, El Salvador, EUA, China, Canadá, Inglaterra, Nova Zelândia,
Portugal e Suíça. De fato, é difícil resistir a telas como O
paraíso de Adão e Eva, exibido na Bienal Naïfs do Brasil de
1998, que mostra as personagens bíblicas no centro de numerosos círculos.
Ao redor do círculo
central, há numerosos animais, como elefantes, corujas, cavalos,
onças e galos, além de frutas, como a melancia. Do lado
esquerdo, há peixes e aves; e, do direito, macacos e um jaburu,
imponente. Essa representação de diversos animais, próximos ao
Paraíso, até desviam o olho da imagem central, uma cobra oferece
a maçã a Eva.
No canto superior
esquerdo, surge parte de um sol, enquanto a lua e uma estrela são
pintados em amarelo. Esses elementos de forte expressão simbólica
até ficam em segundo plano perante as telas totalmente
preenchidas que caracterizam alguns dos trabalhos de Fuzinelli.
Essa riqueza de imagens, nada caótica, é articulada por um
profundo senso de composição, próprio da linguagem pictórica
do artista.
Na Bienal Naïfs 2000
de Piracicaba, SP, Fuzinelli mostrou dois quadros: Brasil 500
anos de história e Brasil de Cabral a Cardoso. O
primeiro mostra, no centro, uma cena do descobrimento, cercada por
quatro imagens de cenas emblemáticas do país, como a primeira
missa e o Grito do Ipiranga de Dom Pedro I. Em volta do círculo
central, imagens de índios, preenchendo a tela e deixando poucos
espaços para o olho do observador descansar.
No segundo, uma
bandeira nacional é estilizada e, dentro do losango amarelo com a
legenda "ordem e progresso", surgem dois campos: o de
cima mostra as caravelas lusas de Cabral; e o de baixo, o
presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais uma vez, a tela é
quase totalmente preenchida por imagens que evocam a cultura indígena,
o universo caipira e a nacionalidade.
Em quadros como Enquanto
o Halybop passa o tigre que escapou do circo rondava a colônia,
de 1997, é possível ver a conexão do artista com o cotidiano. A
passagem do cometa, um fato de repercussão mundial, é associada
a um acontecimento local com naturalidade. O cometa passando, o
gado preso, as casas dos trabalhadores rurais, uma bandeira do
divino, uma coruja e um poço desproporcional em relação ao
tigre estabelecem relações internas que surpreendem pela
harmonia criada.
Mesmo sendo o poço diminuto em relação
ao animal fugido, não ocorre um choque estético. A tela, pelo
contrário, encanta pelo poder de combinar elementos tão
diferentes, como o mundo rural, um tigre e um cometa com o bom
humor que caracteriza o artista, sempre pronto a ver de uma
maneira toda especial a realidade.
O dia que São Jorge apartou a
briga dos dragões se encaixa nesse raciocínio de descrever o
inusitado. Geralmente, o santo luta contra o dragão. Aqui, no
entanto, é o ser divino, desproporcional em relação ao seu
cavalo branco, que procura colocar a sua pequena lança entre os
dois seres fantásticos que lançam fogo um no outro. Ao fundo,
montes e uma bela casinha – com chaminé e tudo, numa imagem que
introduz o nonsense e dá um toque pessoal todo especial à
obra.
Perante essa rica produção, o crítico
Romildo Sant’Anna situa Fuzinelli no "universo singelo das
vertentes culturais campesinas, espontâneas", enquanto Luís
Ernesto Kawall, da Associação Paulista de Críticos de Artes e
da União Brasileira de Escritores, considera o artista um
"autodidata imaginoso, emérito intérprete do cotidiano
rural", acrescentando que ele compõe as suas cenas com
"técnica segura, cores vibrantes e sensibilidade flor do
pincel".
Diretor da Galeria de Arte do Cassino
Estoril, Portugal, Nuno Lima de Carvalho completa esse raciocínio,
destacando as "composições equilibradas, pormenores de
grande sensibilidade e um inegável talento para a utilização
das cores complementares". Cabe, porém, ao pesquisador de
arte Guillermo de la Cuz Coronado identificar duas das maiores
qualidades das telas de Fuzinelli: a singeleza e a simplicidade:
"A singeleza qualifica a temática e a motivação
evidentemente populares; e a simplicidade refere-se ao
despojamento técnico, fora de qualquer ensinamento acadêmico".
Fuzinelli tem uma marca
registrada em seu trabalho: três cachorros, sendo dois pretos e
um branco, que estão em todas as suas telas. Sua característica
mais importante, porém, é a alegria das composições, alcançada
pelo diálogo entre as cores quentes e pela escolha de temas
geralmente engraçados ou, se comuns, como os mais rurais,
geralmente enfocados sob uma ótica bem-humorada.
Assim, as telas do artista beijam a
alegria que carrega dentro dele e a leva adiante pela pintura. Ao
fazer isso, como lembra Blake, não amarra a vontade de sorrir,
mas a espalha e multiplica, transmitindo uma intensa alegria de
viver, o que não é pouco na sociedade violenta e mal-humorada em
que vivemos.