Frida Baranek
Armários
pessoais
Um
armário pode ser muito mais do que um móvel de madeira ou metal
com prateleiras ou gavetas onde se pode guardar roupa, louça,
papel ou remédios. Embutido ou não, sempre guarda ou esconde
algum objeto, seja de uso comum ou algo que se deseja proteger,
por ser extremamente valioso monetária ou emocionalmente.
Em
sua exposição no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, de 18 e abril a
26 de maio de 2001, a artista plástica brasileira Frida Baranek
trabalha justamente com armários abertos, que revelam fios e
tubos com o poder de estimular a imaginação do observador, tanto
pelo aspecto estético como pelas suas conotações simbólicas.
O
trabalho é o resultado de um processo de amadurecimento da
artista ao lidar com diversos materiais e conceitos. Nascida em
1961, Frida estudou arquitetura e arte no Rio de Janeiro. Desde a
década de 1980, ela trabalha em São Paulo, Nova York e Paris,
tendo participado das Bienais de Arte de Veneza e de São Paulo,
além de diversas exposições individuais e coletivas.
Nessas exposições,
Frida realizou trabalhos de grandes dimensões que se caracterizam
pela utilização de diversos materiais, como ferro, tubos, chapas
de metal e mesmo fuselagens de aviões. O interessante está na
forma de articular esses materiais, como destaca o curador Paulo
Herkenhoff: "As peças de Baranek, que parecem estar em ruínas,
ameaçam constantemente os observadores com a iminência de um
colapso".
Os armários exibidos são
apresentado abertos ao público. Geram então, de saída, um
estranhamento, porque eles são colocados num ambiente que não
lhe é natural, num processo que recoloca a questão do que deve
ser ou não exibido num museu e, principalmente, da necessidade de
repensar o valor dos objetos na sociedade em que vivemos, dominada
pela impermanência.
Frida coloca dentro e
sobre sus armários fibras e tubos que parecem monstros que saem
da memória e ameaçam invadir as nossas vidas. É como se o
passado, guardado na inconsciência, pudesse guardar por muito
tempo certas lembranças e fatos, mas, num momento rápido e
inesperado, tudo pudesse vir à tona com um potencial destruidor.
Os
armários de Frida dialogam com uma de suas principais obras,
comprada pelo National Museum of Women in the Arts, EUA, em 1993,
após ter sido mostrado na exposição UltraModern: The Art of
Contemporary Brasil, mostra organizada pelo museu em cooperação
com o Instituto Cultural Americano-Brasileiro e a Embaixada
Brasileira.
A
obra, sem título, é uma massa esférica de ferro perfurada por
cabos do mesmo material, "formando numerosos ângulos de vários
comprimentos", como aponta a crítica Laura Hoptman. A
impressão do conjunto é de leveza, como se pudesse levantar vôo,
embora pese cerca de 45 kg e tenha as dimensões aproximadas de
107x187x115 cm.
Se
o peso da esfera é quebrado pelo dinamismo das linhas
estabelecidas pelos cabos de ferro, a sisudez dos armários é
rompida pelas braços de cobre e borracha, que parecem ter o poder
de tudo invadir e dominar, como se fossem bichos de filmes de ficção
científica, com a força descomunal de arrasar tudo o que está
ao seu redor.
Materiais
como ferro, sisal, bronze, látex, aço inox e pedra são
combinados dentro dos armários. Deusa imortal, por
exemplo, descortina dentro do armário uma forma em sisal que
evoca um casaco de peles de alguma artista de Hollywood, mais
especificamente o glamour que cerca uma estrela como
Marilyn Monroe.
O armário aberto
possibilita a entrada nesse mundo em que o escondido fala mais
alto e forte. O proibido e fechado se torna visível e aberto à
visitação pública, talvez porque uma galeria de arte não é
uma casa e os armários, perdendo a sua função primordial de
guardar objetos, passam a revelá-los sob novas perspectivas.
Os
tubos que aparecem em Vital, por sua vez, surgem como tentáculos
prontos a sair dos armários e ocupar o espaço, mas também podem
se encolher com medo do mundo exterior que mal conhecem. Nessa
incerteza, cativam o olho do espectador e geram dezenas de
perguntas e questionamentos sobre a relação dos armários com a
galeria, espaço que lhes é estranho, e com as residências, seu
habitat natural.
Os
armários de Frida Baranek, portanto, podem ser vistos como uma
metáfora do próprio processo de criação artística. O artista
escancara os seus armários interiores, a sua consciência e
inconsciência, e expõe o resultado. Oferecendo a sua visão de
mundo, desnuda a mente do espectador. Assim, cada armário, semi
ou totalmente aberto, pronto a interagir com o mundo, permanece na
galeria à espreita de seu público.
Ao
ver as obras de Baranek no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, a
realidade interior de cada pessoa também sai do armário e ganha
o mundo. Pode, às vezes, retornar, mas, de uma forma ou de outra,
estabelece um diálogo com o mundo circundante, saindo enriquecida
dessa experiência.
Ocorre assim uma interação
do armário semi-aberto com cada pessoa que entra na exposição.
Ele pede um olhar atento, apto a desvendar seus segredos e mistérios,
suas lembranças e devaneios, suas indagações e passado. Cada um
deles, assim como cada um de nós, tem uma história, própria e
inimitável. Na exposição de Baranek, essas duas histórias têm
a possibilidade de se encontrar.