por Oscar D'Ambrosio


 

 



Frida Baranek

        Armários pessoais

        Um armário pode ser muito mais do que um móvel de madeira ou metal com prateleiras ou gavetas onde se pode guardar roupa, louça, papel ou remédios. Embutido ou não, sempre guarda ou esconde algum objeto, seja de uso comum ou algo que se deseja proteger, por ser extremamente valioso monetária ou emocionalmente.

        Em sua exposição no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, de 18 e abril a 26 de maio de 2001, a artista plástica brasileira Frida Baranek trabalha justamente com armários abertos, que revelam fios e tubos com o poder de estimular a imaginação do observador, tanto pelo aspecto estético como pelas suas conotações simbólicas.

        O trabalho é o resultado de um processo de amadurecimento da artista ao lidar com diversos materiais e conceitos. Nascida em 1961, Frida estudou arquitetura e arte no Rio de Janeiro. Desde a década de 1980, ela trabalha em São Paulo, Nova York e Paris, tendo participado das Bienais de Arte de Veneza e de São Paulo, além de diversas exposições individuais e coletivas.

Nessas exposições, Frida realizou trabalhos de grandes dimensões que se caracterizam pela utilização de diversos materiais, como ferro, tubos, chapas de metal e mesmo fuselagens de aviões. O interessante está na forma de articular esses materiais, como destaca o curador Paulo Herkenhoff: "As peças de Baranek, que parecem estar em ruínas, ameaçam constantemente os observadores com a iminência de um colapso".

Os armários exibidos são apresentado abertos ao público. Geram então, de saída, um estranhamento, porque eles são colocados num ambiente que não lhe é natural, num processo que recoloca a questão do que deve ser ou não exibido num museu e, principalmente, da necessidade de repensar o valor dos objetos na sociedade em que vivemos, dominada pela impermanência.

Frida coloca dentro e sobre sus armários fibras e tubos que parecem monstros que saem da memória e ameaçam invadir as nossas vidas. É como se o passado, guardado na inconsciência, pudesse guardar por muito tempo certas lembranças e fatos, mas, num momento rápido e inesperado, tudo pudesse vir à tona com um potencial destruidor.

        Os armários de Frida dialogam com uma de suas principais obras, comprada pelo National Museum of Women in the Arts, EUA, em 1993, após ter sido mostrado na exposição UltraModern: The Art of Contemporary Brasil, mostra organizada pelo museu em cooperação com o Instituto Cultural Americano-Brasileiro e a Embaixada Brasileira.

        A obra, sem título, é uma massa esférica de ferro perfurada por cabos do mesmo material, "formando numerosos ângulos de vários comprimentos", como aponta a crítica Laura Hoptman. A impressão do conjunto é de leveza, como se pudesse levantar vôo, embora pese cerca de 45 kg e tenha as dimensões aproximadas de 107x187x115 cm.

        Se o peso da esfera é quebrado pelo dinamismo das linhas estabelecidas pelos cabos de ferro, a sisudez dos armários é rompida pelas braços de cobre e borracha, que parecem ter o poder de tudo invadir e dominar, como se fossem bichos de filmes de ficção científica, com a força descomunal de arrasar tudo o que está ao seu redor.

        Materiais como ferro, sisal, bronze, látex, aço inox e pedra são combinados dentro dos armários. Deusa imortal, por exemplo, descortina dentro do armário uma forma em sisal que evoca um casaco de peles de alguma artista de Hollywood, mais especificamente o glamour que cerca uma estrela como Marilyn Monroe.

O armário aberto possibilita a entrada nesse mundo em que o escondido fala mais alto e forte. O proibido e fechado se torna visível e aberto à visitação pública, talvez porque uma galeria de arte não é uma casa e os armários, perdendo a sua função primordial de guardar objetos, passam a revelá-los sob novas perspectivas.

        Os tubos que aparecem em Vital, por sua vez, surgem como tentáculos prontos a sair dos armários e ocupar o espaço, mas também podem se encolher com medo do mundo exterior que mal conhecem. Nessa incerteza, cativam o olho do espectador e geram dezenas de perguntas e questionamentos sobre a relação dos armários com a galeria, espaço que lhes é estranho, e com as residências, seu habitat natural.

        Os armários de Frida Baranek, portanto, podem ser vistos como uma metáfora do próprio processo de criação artística. O artista escancara os seus armários interiores, a sua consciência e inconsciência, e expõe o resultado. Oferecendo a sua visão de mundo, desnuda a mente do espectador. Assim, cada armário, semi ou totalmente aberto, pronto a interagir com o mundo, permanece na galeria à espreita de seu público.

        Ao ver as obras de Baranek no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, a realidade interior de cada pessoa também sai do armário e ganha o mundo. Pode, às vezes, retornar, mas, de uma forma ou de outra, estabelece um diálogo com o mundo circundante, saindo enriquecida dessa experiência.

Ocorre assim uma interação do armário semi-aberto com cada pessoa que entra na exposição. Ele pede um olhar atento, apto a desvendar seus segredos e mistérios, suas lembranças e devaneios, suas indagações e passado. Cada um deles, assim como cada um de nós, tem uma história, própria e inimitável. Na exposição de Baranek, essas duas histórias têm a possibilidade de se encontrar.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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