por Oscar D'Ambrosio


 

 


Frans Krajcberg

 

            A força da natureza

 

“Tudo que é Natureza, é arte que desconheces”. Com essas palavras, o poeta inglês Alexander Pope (1688-1744), em seu Ensaio sobre o homem, alertava para a força e beleza indomável dos elementos naturais. Essa mesma mensagem, em forma de obra de arte, pode ser encontrada nos desenhos com pigmentos naturais sobre madeira realizados pelo artista plástico Frans Krajcberg.

            Expostos na galeria Sergio Caribé, em São Paulo, de 14 de setembro a 15 de outubro de 2005, são depoimentos contundentes de um artista que utiliza pigmentos naturais, como o urucum, sobre madeira para reverenciar a mãe de todos os homens. Trata-se de um alerta para a morte da Amazônia causada pelas queimadas e, ao mesmo tempo, gera um admirável impacto estético pela harmonia e equilíbrio de muitas das formas criadas.

            Nascido na Polônia em 1921, Krajcberg veio para o Brasil em 1940. Serviu como soldado na II Guerra Mundial, quando perdeu toda a família, e conheceu os horrores de um campo de concentração. Célebre pelas suas esculturas a partir de troncos de árvores mortas, em seus recentes desenhos faz a sua denúncia do mal que o homem faz a natureza.

            Seus trabalhos anunciam que a natureza, por mais que seja destruída continuamente, renova as suas forças para continuar a existir. Do carvão e cinzas das queimadas, por exemplo, surgem desenhos vigorosos, seja na forma de manchas ou de folhas secas e mortas.

            As imagens evocam, em certos momentos, os materiais da Pré-História e parecem continuamente exortar o homem a fazer a sua arte na conservação do meio ambiente. Se a natureza tudo cria, por que o homem tudo destrói? Os desenhos de Krajcberg têm a marca da mescla entre a delicadeza e o vigor que apenas a natureza tem condições de oferecer.

            Se os seus trabalhos são um manifesto de defesa da vida, não se limitam a essa visão. Acima de tudo, constituem obras de arte que expressam o poder da natureza de gerar seres dos quais nem o ser humano é capaz de imaginar. Criadora, conservadora de si mesma e túmulo de segredos, a natureza é o ponto de partida e de chegada do artista.

            Mutáveis em si mesmos, os elementos naturais, principalmente as folhas, ganham, nos desenhos de Krajcberg, uma atmosfera mítica. Brotam com uma força divina, principalmente no uso de tonalidades quentes, como o vermelho. Suas imagens evocam, por exemplo, representações visuais extraídas de satélites sobre a destruição da floresta amazônica.

            Krajcberg vê a natureza como um templo em que as árvores são gigantescos pilares, indicadores de portais para o desconhecido que exigem do homem humildade para serem minimamente desvendados. Os desenhos com pigmentos da própria natureza são um passo para penetrar em universos que reservam, por mais que a ciência e a tecnologia avancem, uma faceta sutil e fascinante de desconhecimento, do qual artistas com delicadeza e sensibilidade, como o artista polonês radicado no Sul da Bahia, retiram a sua matéria-prima.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

 

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Sem título

desenho com pigmento natural sore madeira

120 cm x 120 cm 2000/2004 

Frans Krajcberg 

 

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