por Oscar D'Ambrosio


 

 


.

Francisco Vargas

 

            O mistério da reprodução

 

            É fácil se encantar com a beleza de uma flor. Um fascínio ainda maior reside em penetrar plasticamente em suas diversas formas e interstícios, em sua riqueza visual, que varia entre as espécies num jogo de grande poder de sedução. O ápice desse processo está na capacidade de tomar uma delas é desenvolver toda uma pesquisa.

            Foi exatamente essa a trajetória de Francisco Vargas. Pintor venezuelano,  radicado em Campinas, SP, desde 2002, ele realiza um trabalho que tem nas flores, especificamente no lírio, seu grande assunto. Além das questões de pintura que se propõe a resolver, ele aprofunda aspectos  simbólicos da natureza.

            Cabe retomar que a flor é a parte onde se encontram os órgãos sexuais das plantas. Ela assegura a reprodução, mediando a união dos gametas masculino e feminino num processo denominado polinização. Depois da fertilização do óvulo, a flor transforma-se em fruto, que contém as sementes que irão dar origem a novas plantas da mesma espécie.

            Em ocres, brancos e azuis, Vargas constrói imagens que se valem de diversas composições, com tinta acrílica e encáustica, técnica de pintura  na qual o artista mistura cores em uma cera aquecida e derretida. As soluções variam, mas se integram pela uniformidade de pensamento.

            Embora seja uma flor, portanto, ligada à manutenção da vida da espécie,  curiosamente, talvez pela sua cor branca, o lírio está ligada à pureza. Na Grécia, por exemplo, aparece nas paredes de palácios, como um atributo de Hera, esposa de Zeus e divindade ligada ao casamento e à perseguição das inúmeras amantes do marido.

            A analogia dessa relação prosseguiu no catolicismo, com o lírio vinculado à Virgem Maria, se fazendo muito presente em buquês de noivas e festas religiosas. Isso sem contar estudos alquímicos e crendices populares, que atribuíam ao bulbo da planta o poder de reaproximar namorados estremecidos.

            O mais interessante é que, para retirar a conotação sexual e reafirmar a questão da virgindade, nessas ocasiões sagradas, eram retirados do lírio os estames e pistilos,  órgãos masculinos e femininos respectivamente. Assim, era preservada a metáfora da virgindade.

            Todos esses sentidos estão, de alguma maneira,  presentes nas telas de Vargas. Inscrições em português, espanhol e latim reforçam o lado alquímico do lírio e da sua pintura como uma forma de integração de linguagens. A caligrafia não se trata apenas de um elemento gráfico, mas sim de uma demonstração visual de como a flor se integra à cultura e como ambas estão relacionadas ao universo pictórico.

            Há nas telas de Vargas espiritualidade. Ele parte de um tema e extrai dele o máximo que o seu repertório consegue. O resultado é um conjunto de trabalhos que fala de flores e dos tênues e complexos limiares entre a reprodução e a virgindade. Acima de tudo, o foco é a própria capacidade de transformar cada obra numa resposta plástica. Essa jornada é um desafio no qual o artista venezuelano consegue atingir momentos de sedução e encantamento.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

 Sem título
acrílica e encáustica 180 x 120 cm sem data

Francisco Vargas

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio