por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Francisco Brennand

 

            Divinamente longe de Deus

 

            O prazer de criar comanda a poética do artista pernambucano Francisco Brennand. Se algo o mobiliza, é justamente uma força demiúrgica que se faz presente em todo seu trabalho, tanto na pintura como na escultura. Esses dois universos, muitas vezes dissociados, parecem brotar e um mesmo manancial: a capacidade de se sentir vivo e de compartilhar esse sentimento de estar no mundo.

            Talvez por esse motivo a melhor forma de visitar o Museu Oficina Cerâmica Brennand seja iniciar a jornada pelo prédio batizado como Accademia, onde estão desenhos e pinturas que não só apresentam uma trajetória consistente, como também revelam como o ceramista está contido no pintor.

            A sensualidade presente nos desenhos ganha expressão tridimensional nas esculturas, mas possui uma mesma força vital. Brennand é um artista da vida, da infinita capacidade humana de criar. Suas incontáveis mulheres, seja no plano ou no espaço, evidenciam um poder ilimitado de sedução e de conquista.

            Funcionam como as sereias em forma de aves de rapina que tentam Ulisses na Odisséia. Têm o poder de encantar e de matar, porque são grandiosas em todos os sentidos. O problema está que a maioria dos observadores se coloca perante o universo de Brennand de duas formas que pouco contribuem para a apreensão dos seus trabalhos: a inferioridade adoradora submissa ou a superioridade crítica arrogante.

            As duas opções são perversas para colocar numa dimensão adequada o talento de Brennand. Perante a magnitude do que vê, a maior dificuldade do observador está em dialogar com elas de igual para igual – e quem consegue isso dá um passo gigantesco para penetrar com mente e olhos livres no espaço criado pelo artista na Várzea pernambucana.

            Quando se observa esse universo em uma posição de inferioridade, corre-se o risco de ler o trabalho plástico ali presente apenas com adoração, como se fosse um templo. As esculturas ganham então uma dimensão mítica e o demiurgo Brennand passa a ser venerado como se fosse um Deus.

            Esquece-se que é um artista plástico e, acima de tudo, um ser humano. Por isso, ver os desenhos e pinturas antes das esculturas é essencial. Torna-se evidente que se está perante um criador de grande capacidade, mas não de um deus, já que seus temas e técnicas evidenciam justamente sua humanidade, com as cenas de engenho e retratos familiares.

            De fato, o desenho é uma forma de arte na qual não se mente. E o autêntico Brennand está ali, seja nos auto-retratos, nas imagens da família e na maneira como vê o mundo ao seu redor, inclusive com imagens de qualidade ímpar como as que tratam do tema das relações visuais e simbólicas entre os célebres personagens da Morte e da Donzela.

            Outra possibilidade do visitante é adotar uma posição de superioridade crítica,  sob a desculpa de um olhar técnico sobre a produção exposta, tanto no Templo Central, em que o Ovo Primordial é o centro das atenções,  no Salão de Esculturas, em que o olho se perde perante a quantidade de esculturas, na Praça Burle Marx, em que gramados, cisnes selvagens e peças bi e tridimensionais constituem uma admirável cenografia, o Templo do Sacrifício, com sua solenidade grávida de referências, e a mencionada Accademia, berço de uma criatividade e talento diferenciados.

            Ao se conhecer o universo de Brennand com esse olhar, perde-se também a perspectiva humana. O olhar frio e voltado apenas para questões de forma, proporções e recursos plásticos em si mesmos deixa de lado o fato de que um homem criou aquilo tudo que se vê. Desconsiderar esse aspecto significa ignorar a capacidade mítica de que cada um de nós pode ser o demiurgo de uma própria realidade interior e virtual, de sua própria Second Life.

            Se o olhar inferior coloca Brennand num pedestal inatingível, vertente agravada ainda pelo fato de ele, com sua volumosa barba branca e chapéu de abas largas, parecer de fato um ser divino, o olhar superior tende a apagar a figura biográfica e humana do artista, resultado, como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset de suas “circunstâncias” temporais, vivenciais e influências absorvidas, assimiladas ou negadas.

            O infinito poder de criar de Francisco Brennand só pode ser captado com os olhos de quem está pronto a estudar o artista e a sua obra de frente: sem ver no homem nascido em 11 de junho de 1927, no Engenho São João, um Deus, mas também sem se esquecer que ele existe e tem uma história para contar.

             O artista pernambucano é, antes e acima de tudo, um homem, como qualquer um de nós. Entender isso, sem mitificá-lo, é passo essencial para um melhor mergulho em sua significativa obra. E, nessa linha de raciocínio, ele é mais e densamente humano nos trabalhos expostos no espaço batizado de Accademia. Ali está o artista pleno, tão divinamente longe de Deus e liricamente perto dos homens como qualquer um de nós pode, deve e precisa ser.  

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

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Árvore da vida
nanquim sobre papel 48 x 65 cm 1961

Francisco Brennand

 

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