Floreal
O lirismo dos
indigentes
A
marginalidade é um drama de inegável alcance social, pois, além de
consumir vidas e potenciais no presente, compromete o futuro de pessoas
isoladamente e até de gerações. Ao mesmo tempo, dependendo da forma como
é enfocada, principalmente nas artes visuais, pode ser vista com outros
olhos.
É isso que faz
o artista plástico chileno Floreal. Nascido em Iquitos, em 1950, mas
radicado no Brasil desde os anos 1970, traz, em trabalhos com óleo e
pastel, uma visão diferenciada das pessoas solitárias que caminham pelas
ruas e avenidas do universo urbano.
O seu
principal mérito está em criar estados de alma em cada imagem. É
possível captar não apenas uma via sofrida com a delicadeza da técnica,
mas, acima de tudo, um clima marcado pela presença de um profundo
sentimento lírico sobre a sensação de cada um deles de estar no mundo.
A harmonia das
cores e a habilidade do desenho se conjugam para oferecer uma
interpretação artística e mesmo sociológica do que significa ser um
indigente. Geralmente vestidos, muito mais próximos de uma realidade
não-brasileira, esses seres das ruas tornam-se universais em sua procura
de aconchego e paz interior.
Aquarelista,
cenógrafo, escultor e capaz de utilizar diversas técnicas de desenho e
pintura, Floreal trabalha o tema da mendicância muito próximo da
marginalidade e profundamente associado ao da miséria existencial que
acompanha muitos indivíduos que, embora não vivam nas ruas, sentem-se
excluídos por razões emocionais.
Acima de tudo,
Floreal pinta com sensibilidade seres humanos. Consegue desnudar almas,
mostrando a carência deles por carinho e respeito, muito mais do que por
dinheiro ou comida. O frio que geralmente sentem, nessa lógica, é muito
mais interno, causado pela solidão e pela atmosfera de abandono, do que
meramente pela injustiça social.
Oscar D’Ambrosio,
jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da
UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional
de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).