por Oscar D'Ambrosio


 

 


Floreal

 

            O lirismo dos indigentes

 

            A marginalidade é um drama de inegável alcance social, pois, além de consumir vidas e potenciais no presente, compromete o futuro de pessoas isoladamente e até de gerações. Ao mesmo tempo, dependendo da forma como é enfocada, principalmente nas artes visuais, pode ser vista com outros olhos.

            É isso que faz o artista plástico chileno Floreal. Nascido em Iquitos, em 1950, mas radicado no Brasil desde os anos 1970, traz, em trabalhos com óleo e pastel, uma visão diferenciada das pessoas solitárias que caminham pelas ruas e avenidas do universo urbano.

            O seu principal mérito está em criar estados de alma em cada imagem. É possível captar não apenas uma via sofrida com a delicadeza da técnica, mas, acima de tudo, um clima marcado pela presença de um profundo sentimento lírico sobre a sensação de cada um deles de estar no mundo.

            A harmonia das cores e a habilidade do desenho se conjugam para oferecer uma  interpretação artística e mesmo sociológica do que significa ser um indigente. Geralmente vestidos, muito mais próximos de uma realidade não-brasileira, esses seres das ruas tornam-se universais em sua procura de aconchego e paz interior.

            Aquarelista, cenógrafo, escultor e capaz de utilizar diversas técnicas de desenho e pintura, Floreal trabalha o tema da mendicância muito próximo da marginalidade e profundamente associado ao da miséria existencial que acompanha muitos indivíduos que, embora não vivam nas ruas, sentem-se excluídos por razões emocionais.

            Acima de tudo, Floreal pinta com sensibilidade seres humanos. Consegue desnudar almas, mostrando a carência deles por carinho e respeito, muito mais do que por dinheiro ou comida. O frio que geralmente sentem, nessa lógica, é muito mais interno, causado pela solidão e pela atmosfera de abandono, do que meramente pela injustiça social.  

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

 

 

 

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 Sem título
óleo sobre tela 1,80 x 1.20 cm 1992

Floreal

 

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