Flavio Rossi
A busca
da essência
As
fronteiras entre a ilustração, a caricatura e a Arte, considerada
com letra maiúscula, embora estabelecidas com certa rigidez pelos
manuais, parecem cada vez mais tênues numa sociedade em que não
ter limites parece ser a principal palavra de ordem. Fala-se muito
em liberdade e relações intervisuais, mas, na prática, ainda
predomina uma visão até sectária quando se pensa nos gêneros plásticos.
Flavio
Rossi suscita essa espécie de questionamento por progressivamente
estar migrando da ilustração e da caricatura para a pintura, que a
crítica, a universidade e as galerias reconhecem como algo mais
nobre. O grande desafio está em manter, ao lidar com os pincéis
uma característica fundamental de seus trabalhos anteriores: a
deformação como recurso de revelação de personalidades e almas.
De fato,
desde o seu início na ilustração e, posteriormente, com
caricaturas que tiveram êxito em diversos salões de humor no
Brasil e no exterior, ele conseguiu desenvolver a capacidade de
acentuar algum traço para atingir o que mais interessa na arte,
independente do gênero: vislumbrar as principais características
psicológicas e existenciais do retratado.
Esse
recurso, quando se pensa numa pintura que não mostra personagens
conhecidos, mas trabalha com seres quaisquer ganha novas dimensões.
Pela experiência de 5 anos de redação em jornal, onde fez aquilo
que Aldemir Martins chamava de “serviço militar” pela
necessidade de se disciplinar para cumprir prazos e seguir pautas do
veículo, a oportunidade de estar livre para criar comporta o
desafio de escolher o próprio caminho.
Nascido
em 9 de abril de 1979, em Campinas, onde fez o curso de Artes Plásticas
da PUC, Rossi atinge um resultado mais contundente em sua pintura
quando se debruça no universo feminino. Perceber o ridículo do ser
humano, especialmente da mulher, em sua vaidade ou em situações
inusitadas parece ser um caminho próspero, que se cristaliza ainda
mais pelo uso da cor.
As
figuras do antes chamado sexo frágil surgem com tamanha intensidade
talvez por serem um universo em que as habilidades de ilustrador e
caricaturista podem se fazer mais presentes. Captar o absurdo de
situações envolvendo a mulher e resumir esses momentos em traços
exagerados, mas não por isso desprovidos de sutileza, surge como
uma vereda possível.
Há
em Flavio Rossi que, entre outros, trabalhou com o mestre Ziraldo, o
esforço constante de captar aquilo que nos torna humanos, seja no
gesto, no físico ou na atitude. No momento em que esses aspectos vêm
à tona com maior força, sua pintura cresce. Assim a habilidade de
desenvolver um assunto, próprio da ilustração, ou o consistente
traço ligado à caricatura pode, pouco a pouco entrar numa outra
esfera: a da pintura da divina e trágica (mas não por isso menos cômica)
existência humana.
Oscar
D’Ambrosio mestre em Artes Visuais pela UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).