por Oscar D'Ambrosio


 

 


Filomena

O ludismo das formas

A arte muitas vezes se aproxima do ludismo. É justamente isso o que ocorre nas telas da pintora Filomena. Ao trabalhar com cores fortes como vermelho, amarelo e azul, círculos imperfeitos e linhas retas imprecisas, a artista ergue um universo que evoca o mundo imagético infantil e os impulsos primordiais do ato do desenho, em quadros em que a única regra é a liberdade de criar. A trajetória de Maria Filomena Gonçalves Gouvêa, conhecida como Filomena no mundo das artes, está profundamente vinculada ao conhecimento técnico e teórico. Nascida em 24 de agosto de 1963, em Uberlândia, MG, ela iniciou seus estudos artísticos em 1977, com um Curso Livre de Expansão Artística Popular no Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás. Posteriormente, numa carreira que inclui graduação em Artes Visuais, com Licenciatura em Desenho e Plástica, pós-graduação em Planejamento Educacional e mestrado em Ciência da Religião, área de Antropologia Cultural, com a dissertação Memória e rito na arte de Waldomiro de Deus, foi desenvolvendo um trabalho cada vez mais próximo do expressionismo. Professora de Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás, Filomena recebeu, em 1990, o Prêmio Novos Valores da Casa Grande Galeria de Arte, Goiânia, GO, e sua primeira individual, em 1995, na Galeria de Arte itinerante, na mesma cidade, com apresentação do crítico Miguel Jorge, das Academias Brasileira e Internacional de Críticos de Arte (ABCA e AICA), Filomena, que trabalha com acrílico sobre tela, já realizou várias séries em sua carreira, como Detalhes (1985), Urbano (1988), Noites (1990), Poesias do Silêncio - Círculos (1992), Construção (1992 e 1994-95), Sementes (1995-96), Graça Infantil (1995-98), Relacionamentos (1997), Sedução do Peixe (1998), Elementos (1999) e Raízes (1999). É possível destacar algumas pelo valor intrínseco das imagens criadas. Construção (1992 e 1994-95), por exemplo, trabalha sobre fundos intensamente coloridos, indicando justamente o próprio ato da criação, pois o artista é aquele que sabe conduzir seus traços, jogos de formas e de cores em nome de um ideal que lhe é próprio e único. Nestas telas, Filomena ergue com círculos imperfeitos e linhas raramente perfeitamente retas um caleidoscópio de blocos de cores, que se articulam na mente do observador. O caminho, ao contemplar essas telas, não é buscar pistas que decifrem esse "semi-abstracionismo", segundo Miguel Jorge, mas desfruta-lo pelo que ele tem de mais significativo, ou seja, a habilidade no trabalho com as cores e o diálogo entre as diversas formas. A partir da consciência da cor, as formas surgem lúdicas, num resgate do universo infantil e, principalmente, da alegria de viver, indispensável para quem trabalha com cores quentes e com formas que exaltam os sentidos, sempre em busca de novos materiais e possibilidades. Poesia do Silêncio (1995) talvez seja a síntese da obra da artista. O próprio título já aponta para sua relação com a arte e o mundo, pois suas telas oferecem uma visão poética das cores sem se valer da palavra. Ao trabalhar com intensos azul escuro, amarelo e vermelho, Filomena alcança grande força imagética, semelhante àquela obtida pelos melhores poemas, justamente aqueles que atingem o ideal de dizer o máximo possível num mínimo de palavras, fazendo com que o observador sinta algo tão denso que mal consiga verbalizar. A série Sementes (1995-96), como o nome já indica, trabalha preferencialmente com formas circulares, alusivas à natureza. Como o arquiteto catalão Gaudí já alertava, toda a arte já existe na natureza, faltando ao ser humano a capacidade de verificar como essas formas poderiam e deveriam estar presentes no cotidiano das construções. As sementes de Filomena adquirem diversas variações dentro do universo do círculo. Ora mais ovais, ora com algumas linhas retas, ora em intersecções, elas são uma autêntica aula de pesquisa de uma forma geométrica sobre variados fundos, mas sempre conseguindo surpreender por um detalhe, um aspecto inusitado, algum traço inesperado, algo, enfim, que lembra que a arte não existe para copiar as sementes da natureza, mas para recriá-las em um novo universo de contextos e significações. Graça Infantil (1995-98) remete ao universo do lúdico, do jogo e das brincadeiras em pequenos parquinhos e coloridos parques de diversões de criança. Traços delicados e cores mais suaves em tom pastel trazem à mente a procura incessante pelo prazer do jogo e do viver em si mesmo, em composições que evocam muitas vezes o genial pintor catalão Miró, principalmente pela ausência de compromisso com qualquer racionalidade. Relacionamentos (1997) perscruta um dos grandes temas do mundo e da arte contemporânea: o diálogo do eu com o outro. Só que, na arte de Filomena, as relações não são entre pessoas, mas entre formas e cores. Assim, blocos pictóricos vermelhos e amarelos se encontram na mesma tela e se aproximam e repelem de acordo com o olhar do espectador. Relações de atração e repulsão se articulam como átomos, prótons, nêutrons ou elétrons, num jogo que evoca a Física e a Química como ciências que trabalham nos minúsculos aspectos da matéria, estudando os movimentos de diminutas partículas, num ir-e-vir constante e infinito. Sedução do Peixe (1998) introduz um outro universo, marcado pela presença desse animal, sugerido a partir de um ou dois traços. O peixe encanta e seduz justamente pela sua onipresença,saltando de uma tela para outras em diversas posições. Parece ter vida própria, adotando uma postura dinâmica, pró-ativa, olhando para várias direções e brincando sempre com o leitor. Elementos (1999) oferece ao espectador cores intensas, como amarelo, azul e vermelho. Os círculos repletos de raios aludem não apenas as forças primordiais da natureza, mas ao dinamismo de forças primitivas inconscientes. As nuances de cor colaboram para o impacto visual, principalmente quando o amarelo e o vermelho dialogam, num jogo visual que remete ao expressionismo. A série Raízes (1999) apresenta a predominância do azul e do amarelo, em combinações de várias figuras geométricas portadoras de intenso dinamismo. Círculos, losangos e raios se articulam criando justamente a imagem de elementos plenos de vida. Por um lado, há forças interiores que brotam da terra; por outro, o poder de cada indivíduo de retirar de si mesmo a força necessária para caminhar em busca da próprias origens primordiais e existenciais. Com obras nos acervos da Casa Grande Galeria de Arte da Fundação Jaime Câmara, Época Galeria de Arte, Espaço das Artes e Museu de Arte, todas em Goiânia, Filomena é mencionada nos livros Artes plásticas no Centro Oeste, de Aline Figueiredo; e Da caverna ao Museu: dicionário das artes plásticas em Goiás, de Amaury Menezes, pela sua arte alegre e de alto impacto visual. Ao contrário de alguns abstratos que se caracterizam pelas cores soturnas, há em Filomena uma constante alegria de viver. Suas cores quentes, suas formas fluidas e seus traços em constante movimento geram quadros agradáveis de serem vistos, porque evocam a pureza infantil e a ingenuidade dos traços de nossos antepassados pré-históricos. Aquilo, no entanto, que é inconsciente na criança e primitivo nas pinturas rupestres, é o resultado de elaborada pesquisa e profundo estudo em Filomena. Conhecedora dos materiais com os quais trabalha, oferece telas vibrantes, com formas lúdicas, que transmitem a alegria que todo artista sente no momento da criação. 


 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).   

   

 

 

 

 

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