Figureiras
de Taubaté
Sublime arte popular
O escritor francês Victor Hugo dizia que “Um grande
artista é um grande homem numa grande criança”. Essa máxima
vale não só para pintores ou escultores que expressam
individualmente o seu gênio por meio da arte, mas também para
grupos de artesãos que seguem um padrão estético característico,
determinado por elementos da cultura da comunidade ou da região
onde são produzidos.
As figureiras de Taubaté,
cidade do Interior de São Paulo localizada no Vale do Paraíba, são
justamente um exemplo de um grupo – hoje formado por mais de 40
artistas, entre homens e mulheres – que exporta o seu trabalho não
só para outros Estados, mas também para o Exterior, como França,
Itália, China, Argentina, Japão e EUA.
A técnica das
figureiras é milenar. Utilizam-se da argila e da água para
realizar modelagens que, levados a um forno de alta temperatura,
endurecem e adquirem resistência. Esse trabalho com cerâmica
resulta em objetos decorativos, ricos em detalhes e cores.
A argila, matéria-prima
dos figureiros, também é chamada de “tabatinga” e é
facilmente encontrada no Vale do Paraíba. Isso ocorre porque, na
Era Terciária, a região era coberta por uma extensa lagoa de água
doce. Ao se escoarem as águas, houve o afloramento, em muitos
pontos, da sedimentação acumulada no fundo, surgindo, assim, a
argila, que é retirada, com enxada, colher de pedreiro, pá ou
faca, de seus depósitos naturais, chamados “barreiros”, e
acondicionada em sacos plásticos ou latas.
Com suas mãos
treinadas, os figureiros amassam o barro e realizam a modelagem
com os dedos, pequenas facas, pentes ou palitos de bambu. A
secagem, antes feita naturalmente, sob a luz do sol ou próximo a
um fogão alimentado com lenha, é hoje feita com forno elétrico,
o que dá maior velocidade à secagem.
A origem de toda essa
arte, tão típica do vale do Paraíba, pode ser encontrada nos
frades do convento de Santa Clara de Taubaté. Seguindo a tradição
estabelecida por São Francisco de Assis, eles montavam, desde o século
XVII, presépios, inicialmente com peças vindas da Itália.
Posteriormente, as pessoas que moravam no bairro de Itapecerica
tomaram a argila do rio Itaim para copiar os santos europeus,
montando presépios e altares em suas próprias casas ou para
presentear amigos.
Surgiram assim os
artistas conhecidos como santeiros, ou seja, aqueles que
fabricavam santos, iniciando, há cerca de um século e meio uma
tradição que começou a passar de geração em geração. No
entanto, nem todos dominavam a argila para modelar santos, começando
a fazer outras figuras que compunham a cena do nascimento de
Cristo.
Houve então a
proliferação de artistas que realizavam burros, vacas, galinhas,
raposas e pavões, entre outros animais. Essas pessoas passaram a
ser conhecidas como figureiros, sendo que alguns depois também
realizaram figuras de santos. Como o número de artistas que
trabalhava com figuras superou o que moldava santos, o nome
figureiro passou a ser comumente utilizado.
A arte dos figureiros
extrapolou a amizade e passou lentamente a se tornar comercial,
com os artistas começando a vender os seus trabalhos,
principalmente em dezembro, nas vésperas do Natal, no Mercado
Municipal de Taubaté. Foi ali que Rossini Tavares de Lima,
diretor do Museu de Folclore de São Paulo, conheceu esse trabalho
de características tão populares e autênticas.
O folclorista comprou
obras e as levou para São Paulo, onde elas tiveram grande
impacto. Iniciou-se assim a prática, hoje comum, de convidar as
figureiras para feiras e exposições, nas quais elas mostram o
seu talento e vendem a sua produção, que inclui figuras que, além
das imagens para presépios que originaram a tradição das
figureiras, retratam o dia-a-dia, além de usos e costumes da região
e motivos folclóricos.
Um
dos principais é o pavão, símbolo do folclore paulista, às
vezes chamado de “galinha do céu”, devido à sua cauda
colorida. A ave consolidou a sua importância graças a figureira
Cândida Santos, que fez quatro modelos, inspirados numa imagem
que existia na Praça do Mercado de Taubaté. Outro tema comum é
a chuva de pavões ou de personagens
do Sítio do Pica-Pau Amarelo, como Emília, Dona Benta,
Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Saci Pererê e o Visconde de
Sabugosa, criados por Monteiro Lobato, nascido em Taubaté.
Vendedores de galinhas,
jardineiros, passadeiras, lavadeiras, lenhadores, mulheres socando
pilão, símbolos da umbanda e candomblé e animais, como a
galinha d’angola e pássaros, também são bastante retratados.
Isso sem falar de imagens da Sagrada Família com o Menino Jesus e
diversas evocações de Nossa Senhora e São José, dos doze apóstolos,
além de Santo Antonio e São Francisco falando aos pássaros.
Para organizar ainda
mais as figureiras foi inaugurada, em 1993, a Casa do Figureiro
“Maria da Conceição Frutuoso Barbosa”, que funciona num prédio
cedido pela prefeitura da cidade. Lá quase 50 artistas, que
mantinham a atividade em suas residências, expõem seu trabalho.
O local conta com um salão amplo para comercialização, além de
uma oficina para que as artistas trabalhem e ensinem a sua técnica.
A grande padroeira das
figureiras de Taubaté é Maria da Conceição Frutuoso Barbosa,
que pertencia a Ordem Terceira do Convento de Santa Clara, sendo
considerada uma das mais devotas religiosas do Vale do Paraíba.
Nascida em Taubaté, em 1º de novembro de 1866, morreu em um
internato para leprosos em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, em 26
de agosto de 1950, e se tornou célebre pelas peças que
realizava, ajudando a consolidar inclusive a nomenclatura
“figureiras” para as mulheres que desenvolviam essa atividade
na cidade.
Conta-se que a família
de Maria da Conceição foi uma das primeiras a se dedicar à
fabricação de figuras para presépios. Como ela não tinha os
movimentos normais das mãos devido à hanseníase, mesmo mal que
provavelmente acometeu o Aleijadinho, ela confeccionava suas peças
com as mãos trêmulas, utilizando o queixo para firmar a argila e
os objetos.
O
bairro Imaculada, onde se localiza a atual Casa dos Figureiros,
surgiu justamente com Maria da Conceição. Foi ela que localizou
uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, danificada e
abandonada no sótão do Convento de Santa Clara. Após muito
insistir, conseguiu que os frades franciscanos lhe entregassem a
santa, que restaurou.
Conceição,
no entanto, não parou por aí. Organizou a comunidade para
construir, em 1909, a Capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceição,
que foi destruída por um vendaval. A imagem, porém, nada sofreu,
sendo a mesma que se encontra na nova igreja, construída no mesmo
local.
A
tradição iniciada por Maria da Conceição prossegue com as
figureiras de Taubaté. Uma delas é Marilízia Oliveira Castilho.
Nascida em Itaquera, SP, em 1º de setembro de 1944, começou a
modelar ainda criança, aos seis anos, enquanto a mãe lavava
roupa numa bica que ficava em uma nascente. Ela conta que colhia a
argila que ficava nas laterais da vala de onde escorria a água e,
sem que ninguém a ensinasse, fazia tudo o que via ao seu redor,
como aves, animais, flores, além de bonequinhos com os quais
brincava.
Sem
saber que estava fazendo arte, começou a intensificar cada mais o
seu trabalho, preferindo temas folclóricos, além de imagens
sacras. Hoje, voltada integralmente para a atividade de figureira,
foi premiada, em 2001, pela Superintendência do Trabalho
Artesanal nas Comunidades (Sutaco), entidade que reúne os
figureiros, em concurso realizado em São Paulo, na estação do
metrô República, e se orgulha por enaltecer, com o seu trabalho,
a cultura nacional.
A
figureira Benedita Alves de Lima, a Benê, já é de uma outra
geração. Nascida em Taubaté, em 2 de fevereiro de 1958, ama dar
forma, cor e vida ao barro. Considera cada peça que cria um filho
que nasce para dar alegria a si mesma e aos outros. A história
dela como figureira começou aos 15 anos, quando a já figureira
Josiane Sampaio chamou a irmã para aprender a fazer figuras.
Benê
foi junto porque sempre gostou de trabalhar com artesanato, tendo
inclusive feito dois anos de curso de artes plásticas na Escola
Fego Camargo. Após aprender a fazer algumas figuras como o pavão,
ela começou a realizar os próprios trabalhos e foi aceita, pelo
talento, como integrante da Casa das Figureiras, sendo que o que
ganha na atividade de artesanato a ajuda a complementar a renda
familiar e lhe dá uma satisfação sem limites, principalmente
quando realiza obras criativas, como uma Sagrada Família toda
negra, peça que lhe valeu muitos comentários elogiosos, além de
figuras de São Francisco.
O
trabalho das figureiras, como bem alertava Victor Hugo, é fruto
da pureza da alma de uma criança. É realizado com todo o coração
e, por isso, sobrevive há tanto tempo. Superando vaidades
pessoais, as artistas da argila de Taubaté se organizaram e
vendem em conjunto o seu trabalho, dando um exemplo de como a arte
popular pode sobreviver na atual sociedade globalizada se juntar
três fatores:
talento – que as figureiras têm de sobra –, criatividade –
que permite infinitas variações sobre temas tradicionais – e
amor a própria atividade – atitude artística que permite às
figureiras de Taubaté ter um espaço assegurado em qualquer compêndio
que trate do artesanato paulista, nacional e internacional.
Oscar
D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de
Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).