por Oscar D'Ambrosio


 

 


  

Figureiras de Taubaté

 

            Sublime arte popular

 

            O escritor francês Victor Hugo dizia que “Um grande artista é um grande homem numa grande criança”. Essa máxima vale não só para pintores ou escultores que expressam individualmente o seu gênio por meio da arte, mas também para grupos de artesãos que seguem um padrão estético característico, determinado por elementos da cultura da comunidade ou da região onde são produzidos.

            As figureiras de Taubaté, cidade do Interior de São Paulo localizada no Vale do Paraíba, são justamente um exemplo de um grupo – hoje formado por mais de 40 artistas, entre homens e mulheres – que exporta o seu trabalho não só para outros Estados, mas também para o Exterior, como França, Itália, China, Argentina, Japão e EUA.

            A técnica das figureiras é milenar. Utilizam-se da argila e da água para realizar modelagens que, levados a um forno de alta temperatura, endurecem e adquirem resistência. Esse trabalho com cerâmica resulta em objetos decorativos, ricos em detalhes e cores.

            A argila, matéria-prima dos figureiros, também é chamada de “tabatinga” e é facilmente encontrada no Vale do Paraíba. Isso ocorre porque, na Era Terciária, a região era coberta por uma extensa lagoa de água doce. Ao se escoarem as águas, houve o afloramento, em muitos pontos, da sedimentação acumulada no fundo, surgindo, assim, a argila, que é retirada, com enxada, colher de pedreiro, pá ou faca, de seus depósitos naturais, chamados “barreiros”, e acondicionada em sacos plásticos ou latas.

            Com suas mãos treinadas, os figureiros amassam o barro e realizam a modelagem com os dedos, pequenas facas, pentes ou palitos de bambu. A secagem, antes feita naturalmente, sob a luz do sol ou próximo a um fogão alimentado com lenha, é hoje feita com forno elétrico, o que dá maior velocidade à secagem.

            A origem de toda essa arte, tão típica do vale do Paraíba, pode ser encontrada nos frades do convento de Santa Clara de Taubaté. Seguindo a tradição estabelecida por São Francisco de Assis, eles montavam, desde o século XVII, presépios, inicialmente com peças vindas da Itália. Posteriormente, as pessoas que moravam no bairro de Itapecerica tomaram a argila do rio Itaim para copiar os santos europeus, montando presépios e altares em suas próprias casas ou para presentear amigos.

            Surgiram assim os artistas conhecidos como santeiros, ou seja, aqueles que fabricavam santos, iniciando, há cerca de um século e meio uma tradição que começou a passar de geração em geração. No entanto, nem todos dominavam a argila para modelar santos, começando a fazer outras figuras que compunham a cena do nascimento de Cristo.

            Houve então a proliferação de artistas que realizavam burros, vacas, galinhas, raposas e pavões, entre outros animais. Essas pessoas passaram a ser conhecidas como figureiros, sendo que alguns depois também realizaram figuras de santos. Como o número de artistas que trabalhava com figuras superou o que moldava santos, o nome figureiro passou a ser comumente utilizado.

            A arte dos figureiros extrapolou a amizade e passou lentamente a se tornar comercial, com os artistas começando a vender os seus trabalhos, principalmente em dezembro, nas vésperas do Natal, no Mercado Municipal de Taubaté. Foi ali que Rossini Tavares de Lima, diretor do Museu de Folclore de São Paulo, conheceu esse trabalho de características tão populares e autênticas.

            O folclorista comprou obras e as levou para São Paulo, onde elas tiveram grande impacto. Iniciou-se assim a prática, hoje comum, de convidar as figureiras para feiras e exposições, nas quais elas mostram o seu talento e vendem a sua produção, que inclui figuras que, além das imagens para presépios que originaram a tradição das figureiras, retratam o dia-a-dia, além de usos e costumes da região e motivos folclóricos.

Um dos principais é o pavão, símbolo do folclore paulista, às vezes chamado de “galinha do céu”, devido à sua cauda colorida. A ave consolidou a sua importância graças a figureira Cândida Santos, que fez quatro modelos, inspirados numa imagem que existia na Praça do Mercado de Taubaté. Outro tema comum é a chuva de pavões ou de personagens  do Sítio do Pica-Pau Amarelo, como Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Saci Pererê e o Visconde de Sabugosa, criados por Monteiro Lobato, nascido em Taubaté.

            Vendedores de galinhas, jardineiros, passadeiras, lavadeiras, lenhadores, mulheres socando pilão, símbolos da umbanda e candomblé e animais, como a galinha d’angola e pássaros, também são bastante retratados. Isso sem falar de imagens da Sagrada Família com o Menino Jesus e diversas evocações de Nossa Senhora e São José, dos doze apóstolos, além de Santo Antonio e São Francisco falando aos pássaros.

            Para organizar ainda mais as figureiras foi inaugurada, em 1993, a Casa do Figureiro “Maria da Conceição Frutuoso Barbosa”, que funciona num prédio cedido pela prefeitura da cidade. Lá quase 50 artistas, que mantinham a atividade em suas residências, expõem seu trabalho. O local conta com um salão amplo para comercialização, além de uma oficina para que as artistas trabalhem e ensinem a sua técnica.

            A grande padroeira das figureiras de Taubaté é Maria da Conceição Frutuoso Barbosa, que pertencia a Ordem Terceira do Convento de Santa Clara, sendo considerada uma das mais devotas religiosas do Vale do Paraíba. Nascida em Taubaté, em 1º de novembro de 1866, morreu em um internato para leprosos em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, em 26 de agosto de 1950, e se tornou célebre pelas peças que realizava, ajudando a consolidar inclusive a nomenclatura “figureiras” para as mulheres que desenvolviam essa atividade na cidade.

            Conta-se que a família de Maria da Conceição foi uma das primeiras a se dedicar à fabricação de figuras para presépios. Como ela não tinha os movimentos normais das mãos devido à hanseníase, mesmo mal que provavelmente acometeu o Aleijadinho, ela confeccionava suas peças com as mãos trêmulas, utilizando o queixo para firmar a argila e os objetos.

O bairro Imaculada, onde se localiza a atual Casa dos Figureiros, surgiu justamente com Maria da Conceição. Foi ela que localizou uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, danificada e abandonada no sótão do Convento de Santa Clara. Após muito insistir, conseguiu que os frades franciscanos lhe entregassem a santa, que restaurou.

Conceição, no entanto, não parou por aí. Organizou a comunidade para construir, em 1909, a Capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que foi destruída por um vendaval. A imagem, porém, nada sofreu, sendo a mesma que se encontra na nova igreja, construída no mesmo local.

A tradição iniciada por Maria da Conceição prossegue com as figureiras de Taubaté. Uma delas é Marilízia Oliveira Castilho. Nascida em Itaquera, SP, em 1º de setembro de 1944, começou a modelar ainda criança, aos seis anos, enquanto a mãe lavava roupa numa bica que ficava em uma nascente. Ela conta que colhia a argila que ficava nas laterais da vala de onde escorria a água e, sem que ninguém a ensinasse, fazia tudo o que via ao seu redor, como aves, animais, flores, além de bonequinhos com os quais brincava.

Sem saber que estava fazendo arte, começou a intensificar cada mais o seu trabalho, preferindo temas folclóricos, além de imagens sacras. Hoje, voltada integralmente para a atividade de figureira, foi premiada, em 2001, pela Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco), entidade que reúne os figureiros, em concurso realizado em São Paulo, na estação do metrô República, e se orgulha por enaltecer, com o seu trabalho, a cultura nacional.

A figureira Benedita Alves de Lima, a Benê, já é de uma outra geração. Nascida em Taubaté, em 2 de fevereiro de 1958, ama dar forma, cor e vida ao barro. Considera cada peça que cria um filho que nasce para dar alegria a si mesma e aos outros. A história dela como figureira começou aos 15 anos, quando a já figureira Josiane Sampaio chamou a irmã para aprender a fazer figuras.

Benê foi junto porque sempre gostou de trabalhar com artesanato, tendo inclusive feito dois anos de curso de artes plásticas na Escola Fego Camargo. Após aprender a fazer algumas figuras como o pavão, ela começou a realizar os próprios trabalhos e foi aceita, pelo talento, como integrante da Casa das Figureiras, sendo que o que ganha na atividade de artesanato a ajuda a complementar a renda familiar e lhe dá uma satisfação sem limites, principalmente quando realiza obras criativas, como uma Sagrada Família toda negra, peça que lhe valeu muitos comentários elogiosos, além de figuras de São Francisco.

O trabalho das figureiras, como bem alertava Victor Hugo, é fruto da pureza da alma de uma criança. É realizado com todo o coração e, por isso, sobrevive há tanto tempo. Superando vaidades pessoais, as artistas da argila de Taubaté se organizaram e vendem em conjunto o seu trabalho, dando um exemplo de como a arte popular pode sobreviver na atual sociedade globalizada se juntar três  fatores: talento – que as figureiras têm de sobra –, criatividade – que permite infinitas variações sobre temas tradicionais – e amor a própria atividade – atitude artística que permite às figureiras de Taubaté ter um espaço assegurado em qualquer compêndio que trate do artesanato paulista, nacional e internacional.

 

Oscar D’Ambrosio é jornalista, integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp).

 

 

 

 

 

 

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"Figureiras de Taubaté"

Barro policromado - 31 x 24,5 x 12 cm - 1970

 
Cândida Alves dos Santos

 

 

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