por Oscar D'Ambrosio


 

 


Fernando Pasini

 

            Desafios da arte

 

            Os caminhos para os artistas plásticos às vezes parecem cada vez mais restritos. Com a progressiva transformação das galerias em pontos de venda possuidores de uma lógica cada vez mais própria, pouco relacionada diretamente ao mercado de modo geral, mas sim à linha de trabalho de cada uma delas, a possibilidade de novos criadores galgarem espaço se torna cada vez mais difícil a não ser que conheçam as pessoas certas ou que tenham um trabalho realmente diferenciado.

Fernando Pasini é um artista que se encaixa no perfil acima descrito. Sua trajetória, brevemente estudada por Thelma Luiza Fantini Nieto, em seu mestrado em Educação, Arte e História da Cultura apresentado na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1999, proporciona uma reflexão sobre como conquistar uma visibilidade maior do trabalho.

            Intitulada A pintura de Fernando Pasini e orientado pelo docente Norberto Stori, a pesquisa se debruça sobre a obra pictórica do artista paulistano, nascido em 7 de abril de 1964, realizando uma contextualização de suas obras, detendo-se principalmente nas suas influências e fases.

Formado em Arquitetura e Urbanismo na Universidade de Guarulhos, Pasini desenvolveu uma carreira plástica voltada para o mercado, com destaque para o de decoração, e busca novos caminhos que o renovem tanto como artista como em ternos de posicionamento profissional.

            Thelma estabelece em seu trabalho alguns paralelos entre o trabalho de Pasini e pintores que o influenciaram como Salvador Dalí, Manabu Mabe e Tomie Othake, além de célebres ilustradores como Rodney Matthews, Peter Jones, Boris Vallejo e Chris Achilleos.

            A grande questão é verificar o que resulta das influências detectadas. Tecnicamente, há  a observação feita pela autora da pesquisa que Pasini consegue com tinta a óleo efeitos que parecem ter sido realizados com aerógrafo. Cabe discutir até que ponto isso é uma qualidade, pois o aerógrafo é um elemento que não é bem visto no universo da arte comercializada nas galerias mais prestigiadas. 

            Por um lado, a gestualidade de Pasini parece ser o caminho mais maduro a seguir. Há em suas composições um dinamismo que indica diversas possibilidades, que prescindem da figura humana. Círculos, elipses e arcos são elementos geométricos presentes nas composições, às vezes marcadas por excessivo artifício, com prejuízo de alguma simplicidade.

Uma opção é abrir  mão de algum artificialismo, na busca de soluções mais essenciais, em que a pintura em si mesma ganhe destaque como elemento principal do processo criativo. Nesse sentido, o fato de a obra ser mais ou menos figurativa não é o essencial.

O ponto de auto-afirmação do trabalho está nas respostas técnicas aos desafios da composição. O fato de o trabalho ter como ponto de partida a ilustração ou a presença de cores mais quentes não constitui, em si mesmo, uma dificuldade ou um empecilho estético.

            A tarefa a ser vencida, às vezes mais árdua do que os doze trabalhos de Hércules, é a de conseguir renovar o estilo de modo a ser absorvido pelo mercado. É preciso encontrar novas estratégias de construir suas imagens em que se evidencie a força de uma linguagem própria, marcada por um diferencial.

            É exatamente a construção dessa alternativa que dá a cada trabalho uma nova faceta. Assim, no ato de erguer seu castelo plástico, processo no qual os recursos até agora somados não podem ser deixados de lado, Fernando Pasini pode, em termos de melhor e maior aceitação de mercado, abandonar, pelo menos em parte, a marca de ilustrador que o acompanha.

Esse raciocínio significa mergulhar, com maior risco, em respostas talvez mais ousadas, inclusive em termos de composições e texturas, que podem lhe gerar maior oportunidade nas galerias, abertas, mais umas do que outras, a trabalhos que incorporem algum aspecto inovador, fator essencial dentro do espírito capitalista, em que é preciso se reinventar constantemente, ainda mais quando se espera ocupar um espaço diferenciado.

O desafio para o artista está na sua relação com o público, esteja ela mediada pelas galerias ou não. Nesse aspecto, Fernando Pasini apresenta todas as condições de trazer surpresas, seja pelo rigor técnico, pela figuração ou pela abstração ousada. São caminhos a serem percorridos, num exercício em que o criador nem sempre alcança o que espera – e o público, em muitas ocasiões, vê mais daquilo que o pintor pretendia. Os dois lados dessa equação são igualmente interrogadores e fascinantes.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 
 

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 Coma 
óleo sobre tela sem data

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