Fernando
Ito
A
delicadeza no gigantismo
O célebre
episódio bíblico em que o pastor Davi vence o gigante Golias
consagrou um paradigma de que tudo aquilo que é grande tende a
ser grosseiro e violento. As esculturas de Fernando Ito contrariam
essa idéia pela forma como trabalha com objetos plásticos que
oscilam entre dois e sete metros.
Residente
em Quiririm, em Taubaté, SP, Ito realiza, a partir de madeira
rejeitada ou descartada, bichos gigantes. São libélulas, pássaros,
tartarugas, aranhas, gafanhotos e formigas. Sempre criados em posições
dinâmicas, conquistam exatamente por, embora serem grandes
esculturas, não interferirem no ambiente, integrando-se a ele.
Obtidas
em caçambas ou terrenos baldios, as matérias-primas utilizadas
por Ito ganham o status
de obra de arte pela maneira como o artista consegue ver no
material bruto o início de um processo de criação fascinante em
que a madeira conserva seu aspecto mais sagrado e se transforma em
animais, ou seja, seres da própria natureza.
Assim,
a natureza, pela intermediação do artista, fala de si mesma. A
madeira se torna bicho – e cada um deles se cristaliza aos olhos
do observador como um ser praticamente vivo, o que não deixa de
ser verdade, pois Ito dá vida a madeiras julgadas mortas ou sem
uso.
O
artista, que trabalhou inicialmente como carpinteiro e construtor
de barcos, tornou-se um estudioso da marcenaria brasileira.
Recebeu o incentivo de artistas plásticos como Aldemir Martins e
Rubens Matuck e diz que os cinco anos que viveu no Japão foram
fundamentais para o desenvolvimento de sua técnica e seu conceito
de arte.
Ao
reaproveitar a madeira, Ito desnuda a aparente oposição que pode
existir entre tamanho e delicadeza. Ao trabalhar com diferentes
tipos de material, como jatobá, cedro rosa, garapeira, pau roxo,
peroba rosa, jabuticabeira e imbúia, a sua preocupação está em
criar animais brasileiros com vida – que se tornam eternos.
Impressiona
a capacidade de gerar volumes a partir de materiais pré-existentes
e, principalmente, no caso das libélulas, a maneira como a parte
inferior desses animais, abaixo das asas, aparece em formas
retorcidas. Os seres que ali surgem parecem prontos a decolar em
busca de novas paragens.
O
trabalho com marchetaria, quando surge, integra-se a outras técnicas,
sempre com a característica de gerar formas suaves, delicadas e
leves. Não há nada antinatural ou agressivo. É no respeito ao
material que surge um artista pleno, com a sabedoria existencial e
o domínio técnico que lhe permitem tratar os sentimentos da
madeira.
O
escritor francês Romain Rolland (1866-1944) dizia que “criar é
matar a morte”. Ito toma a matéria rejeitada e lhe dá uma
segunda oportunidade de brilhar. Na maioria dos casos, até nos
esquecemos de olhar o bicho criado, perante o fascínio da própria
madeira utilizada, em sua milenar existência.
Fernando
Ito, portanto, recria a matéria-prima para deleite próprio e do
atento apreciador de todas as idades, imerso num mundo de libélulas
imensas de delicadas asas e estruturas, enigmáticas aranhas e
tartarugas gigantes a nos interrogar em sua lendária sabedoria:
como algo tão grande pode ser tão delicado?
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor
naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do
Estado de São Paulo).