por Oscar D'Ambrosio


 

 


Fernando Ito

 

            A delicadeza no gigantismo

 

            O célebre episódio bíblico em que o pastor Davi vence o gigante Golias consagrou um paradigma de que tudo aquilo que é grande tende a ser grosseiro e violento. As esculturas de Fernando Ito contrariam essa idéia pela forma como trabalha com objetos plásticos que oscilam entre dois e sete metros.

            Residente em Quiririm, em Taubaté, SP, Ito realiza, a partir de madeira rejeitada ou descartada, bichos gigantes. São libélulas, pássaros, tartarugas, aranhas, gafanhotos e formigas. Sempre criados em posições dinâmicas, conquistam exatamente por, embora serem grandes esculturas, não interferirem no ambiente, integrando-se a ele.

            Obtidas em caçambas ou terrenos baldios, as matérias-primas utilizadas por Ito ganham o status de obra de arte pela maneira como o artista consegue ver no material bruto o início de um processo de criação fascinante em que a madeira conserva seu aspecto mais sagrado e se transforma em animais, ou seja, seres da própria natureza.

            Assim, a natureza, pela intermediação do artista, fala de si mesma. A madeira se torna bicho – e cada um deles se cristaliza aos olhos do observador como um ser praticamente vivo, o que não deixa de ser verdade, pois Ito dá vida a madeiras julgadas mortas ou sem uso.

            O artista, que trabalhou inicialmente como carpinteiro e construtor de barcos, tornou-se um estudioso da marcenaria brasileira. Recebeu o incentivo de artistas plásticos como Aldemir Martins e Rubens Matuck e diz que os cinco anos que viveu no Japão foram fundamentais para o desenvolvimento de sua técnica e seu conceito de arte.

Ao reaproveitar a madeira, Ito desnuda a aparente oposição que pode existir entre tamanho e delicadeza. Ao trabalhar com diferentes tipos de material, como jatobá, cedro rosa, garapeira, pau roxo, peroba rosa, jabuticabeira e imbúia, a sua preocupação está em criar animais brasileiros com vida – que se tornam eternos.

            Impressiona a capacidade de gerar volumes a partir de materiais pré-existentes e, principalmente, no caso das libélulas, a maneira como a parte inferior desses animais, abaixo das asas, aparece em formas retorcidas. Os seres que ali surgem parecem prontos a decolar em busca de novas paragens.

            O trabalho com marchetaria, quando surge, integra-se a outras técnicas, sempre com a característica de gerar formas suaves, delicadas e leves. Não há nada antinatural ou agressivo. É no respeito ao material que surge um artista pleno, com a sabedoria existencial e o domínio técnico que lhe permitem tratar os sentimentos da madeira.

            O escritor francês Romain Rolland (1866-1944) dizia que “criar é matar a morte”. Ito toma a matéria rejeitada e lhe dá uma segunda oportunidade de brilhar. Na maioria dos casos, até nos esquecemos de olhar o bicho criado, perante o fascínio da própria madeira utilizada, em sua milenar existência.

Fernando Ito, portanto, recria a matéria-prima para deleite próprio e do atento apreciador de todas as idades, imerso num mundo de libélulas imensas de delicadas asas e estruturas, enigmáticas aranhas e tartarugas gigantes a nos interrogar em sua lendária sabedoria: como algo tão grande pode ser tão delicado?

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 

 
 

 

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 Libélula madeira 
aproximadamente 2 m de extensão sem data
Fernando Ito

 

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