por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

 

Fernando Botero

 

            Arte da indignação

 

            Completar 75 anos e poder ter o reconhecimento em vida de uma trajetória plástica ímpar é um feito. Isso se torna ainda mais relevante quando quem atinge a marca possui uma mensagem explícita de amor à vida e de compromisso com a sua nação. De fato, colocar, em trabalhos contundentes, o próprio talento a serviço de uma causa social sem deixar de lado a qualidade estética é um fato digno de registro.

            Fernando Botero reúne todas as qualidades descritas. Os 67 desenhos e pinturas a óleo mostradas, em 2007, na exposição “A dor dos colombianos”, na Galeria Marta Traba, no Memorial da América Latina, em São Paulo , SP, revelam um envolvimento com a arte e com a vida de seu país natal, mágico.

            Realizados entre 1999 e 2004 e doados pelo próprio artista ao Museu Nacional da Colômbia, em Bogotá, são muito mais que uma reação aos difíceis anos vividos pela nação sul-americana entre 1980 e 1990. Constituem um legado visual de um artista que sabe – o que é cada vez mais raro – fazer uma denúncia social sem perder o poder artístico de transformar ludicamente a realidade.

            As imagens de aves devorando pessoas esquartejadas ou crivadas de balas, por exemplo, ganham uma dimensão próxima ao fantástico. Botero se vale do branco das montanhas e dos corpos sem vida para construir uma massa de cor, rompida pelos corpos negros e patas e cabeças brancas a se alimentar da carne e do sangue de cidadãos colombianos.

            São essas mesmas pessoas, só que fechadas em caixões, que estão reunidas em O desfile, um dos melhores quadros da mostra. A composição de uma multidão carregando os esquifes, com um padre à frente e, à esquerda, casas e torres de aparência destruída, ganham dramaticidade com a ave voando sobre a cena, à espreita de um país em ruínas.

            As célebres figuras arredondadas do artista colombiano, geralmente associadas ao bom humor, são, neste conjunto de trabalhos, um libelo contra a violência. Não falam apenas da Colômbia, mas da América Latina, com sua triste convivência com regimes totalitários.

            Discutem, acima de tudo, a arbitrariedade humana. Nesse sentido, o uso da cor como recurso dramático oferece resultados muitas vezes surpreendentes. Um deles é a maneira como o pintor representa as balas. Ele poderia dar algum efeito visual ou técnico que sugerisse movimento, mas as coloca estáticas em diversas cidades.

            Cabe ao observador dar continuidade à cena. Estabelece-se assim um clima quase de história em quadrinhos, instaurado por um mestre da pintura, sempre pronto a oferecer um depoimento visual contundente. Trata-se de uma manifestação estética que aponta os riscos existenciais de qualquer prática contra a liberdade.

            Cenas como a explosão de um veículo, um homem com uma arma com o pé sobre a cabeça de um corpo furado a balas ou um matador com um facão ensangüentando levantado contra uma mulher que mescla o desespero de perder a própria vida com a dor de ter o ente querido caído aos seus pés revela que Botero cria composições plásticas que evocam mestres como Goya no sentido de fazer grande pintura com temas de densidade social.

             Especificamente na tela Massacre, o azul do céu, o amarelo das casas e o vermelho de uma explosão e da camisa do assassino remetem às cores da bandeira colombiana e alertam para a perda de humanidade que caracteriza os relacionamentos pessoais quando cada indivíduo deixa de ser uma entidade com alma e se torna um objeto nas mãos de insensíveis apenas voltados para a luta pelo poder.

            Nesse contexto, o conjunto de imagens mais impressionante é o que mostra homens e mulheres encerrados em cárceres. Em posições de oração, implorando ajuda divina ou sendo covardemente torturadas, são retratos da violência em suas diversas expressões, tanto a física como a psicológica.

            Os olhos para o alto, as expressões faciais, as paredes velhas cor tijolo, as portas esverdeadas, as fechaduras que não abrem e a espera de um amanhã melhor se articulam em quadros que falam sobre o isolamento a que um ser humano é submetido ao ser confinado. Recluída, humilhada, desnudada e privada do poder de ir e vir, uma pessoa perde a dignidade e só pode se refugiar em sua última guarida: a da mente.

            Botero completa 75 anos, em 2007, com diversos elogios, entre os quais o de ser um dos principais pintores vivos. Um dos principais motivos certamente é o conjunto de trabalhos de cunho social doados ao Museu Nacional da Colômbia. Essas obras, de fato, o colocam na lista dos artistas plásticos que souberam transformar indignação individual em arte da melhor qualidade, que contribui para o aperfeiçoamento coletivo da raça humana.

             

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil)

 

 

 

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O desfile
óleo sobre tela - 2000

Fernando Botero

 

 

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