por Oscar D'Ambrosio


 

 


Feres Lourenço Khoury

 

            Versatilidade a ser desvendada

 

            Há artistas que fazem da versatilidade uma marca de sua trajetória. A discussão que propõem está justamente na resposta técnica que dão às mais variadas dificuldades e na forma como enfrentam os diversos desafios. Nesse sentido, Feres Lourenço Khoury fascina. Embora o seu trabalho mais conhecido seja o de gravurista, nas formas como explora as possibilidades do branco e do preto, suas telas, rolos de pinturas e imagens de objetos do cotidiano o colocam como um artista ainda a ser descoberto pela crítica e pelo público.        

            Nascido em 28 de maio de 1951, na pequena Urupês, no interior do Estado de São Paulo, Feres Lourenço Khoury vem de uma família de libaneses. O pai era daquele país e a mãe, filha de imigrantes. Os primeiros anos da vida do futuro artista, portanto, foram marcados pela influência da cultura árabe.

            A família do pai de Feres era de boa condição social no interior do Líbano, e o pai estudou num colégio francês. A mãe estudara em São Paulo e gostava muito de música, mas, como era comum na época, parou os estudos quando casou. Mesmo assim, sempre estimulou a busca do conhecimento. Prova disso é que suas três filhas, irmãs de Feres, ampliaram a sua visão de mundo na capital paulista e se tornaram professoras.

            Feres morou na pequena Urupês apenas até os três anos de idade, quando os pais se mudaram para Catanduva, onde abriram um comércio. Ninguém na família desenvolveu vocação artística, mas o menino, desde cedo, demonstrou gostar de atividades relacionadas como teatro e desenho. Este último nunca foi abandonado e ainda é motivo de belos cadernos, realizados com diversas técnicas.

            O futuro artista passou em Catanduva a infância e a adolescência. No ensino fundamental, o amor pelas artes e pelo desenho, em especial, já se manifestava. Entre 15 e 16 anos, participou de diversos concursos de artes e salões para jovens em cidades daquela região, como São José do Rio Preto.

            Seus primeiros desenhos refletiam justamente a influência que recebia, principalmente das formas geométricas do cubismo, com seus princípios de deformação da realidade. Mas nesse momento, Feres não pensava ainda em ser artista profissional. De fato, não sabia exatamente o que desejava como carreira. Bem depois, as artes plásticas se tornaram a sua vida.

            Uma de suas paixões era o teatro e, como era próprio dos anos 1960, estudou muito folclore e as raízes regionais. Assim, Feres participou de diversas montagens, como a de Morte e vida Severina, baseada em um poema de João Cabral de Melo Neto, que contra o sofrimento das pessoas humildes de Pernambuco perante um ambiente físico e uma sociedade hostil. A arte propriamente dita viria bem depois.

            Feres saiu de Catanduva para tentar entrar no curso de Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Foi para São Paulo, onde morou numa república no bairro da Liberdade e estudou por dois anos num cursinho preparatório. Dava assim seus primeiros traços no mundo da arte, que se tornaria uma das principais razões de sua vida.

            Em 1972, entrou na FAU, onde desenvolveu muitas atividades, teve ótimos professores e fez bons amigos. Continuou amando o desenho, mas ainda não se considerava um artista. A partir do terceiro ano, envolveu-se com a gravura, sendo monitor da artista plástica Renina Katz, de quem ficou muito amigo. Nela, encontrou uma pessoa que, além de produzir muito – e bem! –, valoriza a importância da arte para o ser humano. A Faculdade foi o ponto de partida para uma grande produção.

            Outra amizade importante foi a do artista plástico Rubens Matuck, sempre envolvido com gravuras, exposições, discussões de arte e a fundação da Editora João Pereira. Feres e sua futura esposa Luise Weiss  participaram intensamente do projeto, voltado para a produção de obras artesanais, em pequena tiragem e de extrema qualidade.

            Feres conheceu a Luise quando ele cursava o último ano da FAU, em 1979, e ela estava na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Quem os apresentou foi Rubens Matuck, que a conhecia devido ao trabalho que ela realizava com crianças com deficiência na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Na época, Feres fazia muita xilogravura, tendo como uma de suas referências o sofisticado trabalho de Renina Katz.

            Leitor de poesia e teoria literária, Feres realizou, em 1991, como dissertação de mestrado na ECA, sob orientação de Regina Silveira, a série Vanitas, sobre as vaidades humanas. É um trabalho que valoriza as naturezas-mortas e que obrigou o artista a conhecer muitos textos em latim. De novas formas, as marcas dessa pesquisa permanecem em seu trabalho.

            Feres começou então a perceber melhor a importância do texto como elemento estimulador das artes visuais. Passou a usar letras e trechos escritos em seus trabalhos. A leitura e o estudo de poesia se tornaram muito importantes, principalmente no sentido de organizar idéias de maneira rápida. A partir de fragmentos de palavras, por exemplo, cria com elas novos significados.

            A gravura ocupa um lugar muito importante na obra de Feres. Para realizar boa parte das obras que lhe renderam destaque na primeira metade da década de 1990, desenvolveu um caderno com numerosos estudos das possibilidades visuais do trabalho em branco e preto. Em 1995, a Coleção Artistas da USP publicou um livro com boa parte de seu trabalho em gravura esboçado naquele caderno.

            A pesquisa do doutorado de Feres, em 1994, com o título Transmutação do livro mudo, também na ECA, foi um exercício plástico a partir de um livro de alquimia. Surgiu assim um trabalho mais abstrato, com passagens de cores do negro para o vermelho. Em 1998, ele fez a exposição Obras em negro, em branco e em rubro, no Paço das Artes, em que as cores mais quentes também se fazem presentes.

            Feres desenvolve ainda obras bem figurativas, com pinturas de bules, xícaras e lâmpadas, a partir de utensílios cotidianos. Em suas mãos talentosas, uma simples lâmpada ganha o status de obra de arte. O importante não é o que se pinta, mas como isso é feito. Séries de objetos semelhantes geram assim um especial encantamento.

O trabalho de Feres muitas vezes parte de objetos cotidianos, que ele retrata à sua maneira, com uma técnica apurada, jogando com luzes e sombras e com a cor do fundo da tela. Assim, são atingidas múltiplas variações dos objetos cotidianos. Eles passam a ter vida própria.

            Posteriormente, em 2000, começou a realizar pinturas enormes, com dez metros de comprimento, que exigem, além de conhecimento técnico,  uma série de decisões em termos daquilo que será representado. São introduzidos nesses rolos elementos como o ouro e a prata. Cada parte desse trabalho constitui um cosmo próprio, um pedaço do universo, em várias dimensões.

             Desde o mestrado, Feres interrompeu um pouco a prática da xilogravura, concentrando-se mais no desenho. Também começou a fazer numerosas monotipias, técnica que gosta muito e que lida com a idéia da poesia como imagem, algo bastante característico de sua pesquisa visual, que muitas vezes realiza ouvindo música, de preferência clássica.

            Feres alterna as técnicas sem se sentir culpado por isso. A mais constante é a da gravura, mas passa pela aquarela, entre muitas outras. Uma de suas facetas mais interessantes é a feitura de cadernos e livros, onde é possível encontrar desde anotações com frases de escritores a desenhos de imagens extraídas da natureza. Eles funcionam como a memória do artista. São como pegadas que vão e voltam, que incluem lembranças de viagens a diversos países do mundo, como China e Nova York, e divagações.

            Para o artista, dar aula é uma atividade muito importante, que alimenta o seu trabalho plástico. Na FAU, onde leciona a disciplina chamada Projeto, na Universidade São Judas, responsável por aulas de Linguagem Bidimensional, e na Santa Marcelina, onde trabalha com Desenho de Observação e Modelo, convive, no dia-a-dia, com uma, nem sempre fácil relação, entre o mundo acadêmico das universidades e o universo individual intelectual da criação no ateliê.

            Bastante exigente como professor, Feres tem a plena certeza de que está sempre aprendendo em cada aula na universidade e em cada novo trabalho. Conhecer novos alunos sempre proporciona a ampliação do conhecimento e pode, de diversas formas, alimentar o próprio trabalho.

            Com seu talento, sua forma de encarar arte com seriedade, mas sempre disposto a enfrentar ludicamente as mais variadas técnicas, Feres Lourenço Khoury apresenta um trabalho de muitas facetas. Mestre nas gravuras em preto e branco e pesquisador dessa técnica, também demonstra uma rara versatilidade e competência no manejo das cores e do desenho, muitas vezes com a interferência de textos escritos que nos indagam sobre quais são os limites da arte quando o artista – felizmente – parece ser infinito em sua capacidade de criação.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor, entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).

 
 

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Brumidor, ponta seca, raspador 60 cm x 30 cm 1992

Feres Lourenço Khoury

 

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