Feres
Lourenço Khoury
Versatilidade a ser desvendada
Há artistas que fazem da versatilidade uma
marca de sua trajetória. A discussão que propõem está justamente na
resposta técnica que dão às mais variadas dificuldades e na forma
como enfrentam os diversos desafios. Nesse sentido, Feres Lourenço
Khoury fascina. Embora o seu trabalho mais conhecido seja o de
gravurista, nas formas como explora as possibilidades do branco e do
preto, suas telas, rolos de pinturas e imagens de objetos do cotidiano o
colocam como um artista ainda a ser descoberto pela crítica e pelo público.
Nascido em 28 de maio de 1951, na pequena
Urupês, no interior do Estado de São Paulo, Feres Lourenço Khoury vem
de uma família de libaneses. O pai era daquele país e a mãe, filha de
imigrantes. Os primeiros anos da vida do futuro artista, portanto, foram
marcados pela influência da cultura árabe.
A família
do pai de Feres era de boa condição social no interior do Líbano, e o
pai estudou num colégio francês. A mãe estudara em São Paulo e
gostava muito de música, mas, como era comum na época, parou os
estudos quando casou. Mesmo assim, sempre estimulou a busca do
conhecimento. Prova disso é que suas três filhas, irmãs de Feres,
ampliaram a sua visão de mundo na capital paulista e se tornaram
professoras.
Feres morou
na pequena Urupês apenas até os três anos de idade, quando os pais se
mudaram para Catanduva, onde abriram um comércio. Ninguém na família
desenvolveu vocação artística, mas o menino, desde cedo, demonstrou
gostar de atividades relacionadas como teatro e desenho. Este último
nunca foi abandonado e ainda é motivo de belos cadernos, realizados com
diversas técnicas.
O futuro
artista passou em Catanduva a infância e a adolescência. No ensino
fundamental, o amor pelas artes e pelo desenho, em especial, já se
manifestava. Entre 15 e 16 anos, participou de diversos concursos de
artes e salões para jovens em cidades daquela região, como São José
do Rio Preto.
Seus
primeiros desenhos refletiam justamente a influência que recebia,
principalmente das formas geométricas do cubismo, com seus princípios
de deformação da realidade. Mas nesse momento, Feres não pensava
ainda em ser artista profissional. De fato, não sabia exatamente o que
desejava como carreira. Bem depois, as artes plásticas se tornaram a
sua vida.
Uma de suas
paixões era o teatro e, como era próprio dos anos 1960, estudou muito
folclore e as raízes regionais. Assim, Feres participou de diversas
montagens, como a de Morte e vida Severina, baseada em um poema de João
Cabral de Melo Neto, que contra o sofrimento das pessoas humildes de
Pernambuco perante um ambiente físico e uma sociedade hostil. A arte
propriamente dita viria bem depois.
Feres saiu
de Catanduva para tentar entrar no curso de Arquitetura da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Foi para São Paulo, onde morou
numa república no bairro da Liberdade e estudou por dois anos num
cursinho preparatório. Dava assim seus primeiros traços no mundo da
arte, que se tornaria uma das principais razões de sua vida.
Em 1972,
entrou na FAU, onde desenvolveu muitas atividades, teve ótimos
professores e fez bons amigos. Continuou amando o desenho, mas ainda não
se considerava um artista. A partir do terceiro ano, envolveu-se com a
gravura, sendo monitor da artista plástica Renina Katz, de quem ficou
muito amigo. Nela, encontrou uma pessoa que, além de produzir muito –
e bem! –, valoriza a importância da arte para o ser humano. A
Faculdade foi o ponto de partida para uma grande produção.
Outra
amizade importante foi a do artista plástico Rubens Matuck, sempre
envolvido com gravuras, exposições, discussões de arte e a fundação
da Editora João Pereira. Feres e sua futura esposa Luise Weiss
participaram intensamente do projeto, voltado para a produção
de obras artesanais, em pequena tiragem e de extrema qualidade.
Feres
conheceu a Luise quando ele cursava o último ano da FAU, em 1979, e ela
estava na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Quem os
apresentou foi Rubens Matuck, que a conhecia devido ao trabalho que ela
realizava com crianças com deficiência na Pinacoteca do Estado de São
Paulo. Na época, Feres fazia muita xilogravura, tendo como uma de suas
referências o sofisticado trabalho de Renina Katz.
Leitor de
poesia e teoria literária, Feres realizou, em 1991, como dissertação
de mestrado na ECA, sob orientação de Regina Silveira, a série Vanitas,
sobre as vaidades humanas. É um trabalho que valoriza as
naturezas-mortas e que obrigou o artista a conhecer muitos textos em
latim. De novas formas, as marcas dessa pesquisa permanecem em seu
trabalho.
Feres começou
então a perceber melhor a importância do texto como elemento
estimulador das artes visuais. Passou a usar letras e trechos escritos
em seus trabalhos. A leitura e o estudo de poesia se tornaram muito
importantes, principalmente no sentido de organizar idéias de maneira rápida.
A partir de fragmentos de palavras, por exemplo, cria com elas novos
significados.
A gravura
ocupa um lugar muito importante na obra de Feres. Para realizar boa
parte das obras que lhe renderam destaque na primeira metade da década
de 1990, desenvolveu um caderno com numerosos estudos das possibilidades
visuais do trabalho em branco e preto. Em 1995, a Coleção Artistas da
USP publicou um livro com boa parte de seu trabalho em gravura esboçado
naquele caderno.
A pesquisa
do doutorado de Feres, em 1994, com o título Transmutação do livro
mudo, também na ECA, foi um exercício plástico a partir de um
livro de alquimia. Surgiu assim um trabalho mais abstrato, com passagens
de cores do negro para o vermelho. Em 1998, ele fez a exposição Obras
em negro, em branco e em rubro, no Paço das Artes, em que as cores
mais quentes também se fazem presentes.
Feres
desenvolve ainda obras bem figurativas, com pinturas de bules, xícaras
e lâmpadas, a partir de utensílios cotidianos. Em suas mãos
talentosas, uma simples lâmpada ganha o status de obra de arte. O
importante não é o que se pinta, mas como isso é feito. Séries de
objetos semelhantes geram assim um especial encantamento.
O
trabalho de Feres muitas vezes parte de objetos cotidianos, que ele
retrata à sua maneira, com uma técnica apurada, jogando com luzes e
sombras e com a cor do fundo da tela. Assim, são atingidas múltiplas
variações dos objetos cotidianos. Eles passam a ter vida própria.
Posteriormente,
em 2000, começou a realizar pinturas enormes, com dez metros de
comprimento, que exigem, além de conhecimento técnico,
uma série de decisões em termos daquilo que será representado.
São introduzidos nesses rolos elementos como o ouro e a prata. Cada
parte desse trabalho constitui um cosmo próprio, um pedaço do
universo, em várias dimensões.
Desde
o mestrado, Feres interrompeu um pouco a prática da xilogravura,
concentrando-se mais no desenho. Também começou a fazer numerosas
monotipias, técnica que gosta muito e que lida com a idéia da poesia
como imagem, algo bastante característico de sua pesquisa visual, que
muitas vezes realiza ouvindo música, de preferência clássica.
Feres
alterna as técnicas sem se sentir culpado por isso. A mais constante é
a da gravura, mas passa pela aquarela, entre muitas outras. Uma de suas
facetas mais interessantes é a feitura de cadernos e livros, onde é
possível encontrar desde anotações com frases de escritores a
desenhos de imagens extraídas da natureza. Eles funcionam como a memória
do artista. São como pegadas que vão e voltam, que incluem lembranças
de viagens a diversos países do mundo, como China e Nova York, e divagações.
Para o
artista, dar aula é uma atividade muito importante, que alimenta o seu
trabalho plástico. Na FAU, onde leciona a disciplina chamada Projeto,
na Universidade São Judas, responsável por aulas de Linguagem
Bidimensional, e na Santa Marcelina, onde trabalha com Desenho de
Observação e Modelo, convive, no dia-a-dia, com uma, nem sempre fácil
relação, entre o mundo acadêmico das universidades e o universo
individual intelectual da criação no ateliê.
Bastante
exigente como professor, Feres tem a plena certeza de que está sempre
aprendendo em cada aula na universidade e em cada novo trabalho.
Conhecer novos alunos sempre proporciona a ampliação do conhecimento e
pode, de diversas formas, alimentar o próprio trabalho.
Com seu
talento, sua forma de encarar arte com seriedade, mas sempre disposto a
enfrentar ludicamente as mais variadas técnicas, Feres Lourenço Khoury
apresenta um trabalho de muitas facetas. Mestre nas gravuras em preto e
branco e pesquisador dessa técnica, também demonstra uma rara
versatilidade e competência no manejo das cores e do desenho, muitas
vezes com a interferência de textos escritos que nos indagam sobre
quais são os limites da arte quando o artista – felizmente – parece
ser infinito em sua capacidade de criação.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de
Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil). É autor,
entre outros, de Contando a arte de Cláudio Tozzi (Noovha América)
e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus
(Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).