por Oscar D'Ambrosio


 

Ferenc Pataki

A pureza do unicórnio

Os artistas naïfs têm algumas características comuns, como aprender a pintar de forma autodidata e buscar em ambientes idílicos rurais uma escapatória do universo citadino em que vários deles residem. O iugoslavo Ferenc Pataki se encaixa nesse perfil, com telas que representam autênticos sonhos de calma e pureza.

As telas oníricas que cria evocam o unicórnio, personagem de grande valor simbólico que comparece em uma de suas telas. Criatura mítica com corpo de cavalo, cor branca e único e afinado corno sobre sua fronte, esse ser fantástico, associado com a castidade e com Cristo, aparece não só na arte medieval, mas também em lendas anteriores e na arte da China, Índia e Islão.

Na história da arte, o unicórnio mais célebre é o retratado na série de seis tapeçarias do século XV intitulada A dama com o unicórnio, no museu de Cluny, de Paris. Pataki, porém, não fica atrás em simbologia, dando uma visão moderna do simbólico personagem, que, segundo a lenda, só pode ser capturado quando se apóia no regaço de uma mulher virgem.

Nascido em 31 de janeiro de 1944, em Zrejanin, Iugoslávia, Pataki, após terminar seus estudos de segundo grau, trabalhou na fábrica local de petróleo, mas, desde a infância, mostrava muito talento para a arte, inicialmente a música, tocando com maestria um violão que ganhou dos pais.

Por alguns anos, o jovem viveu de seu emprego de músico, tocando num grupo que animava festas e bailes. Posteriormente, essa inclinação para a arte derivou para a pintura, atividade que lhe rendeu reconhecimento internacional, principalmente por apresentar um estilo bem individualizado, em que o tom pastel é empregado na criação de paisagens bucólicas.

O encontro de Pataki com a pintura ocorreu em 1973. Já casado, trabalhava num escritório para atendimento a desempregados iugoslavos, realizando levantamentos estatísticos. Em seu tempo livre, começou a pintar como hobby, segundo conta em carta de dezembro de 1996: "Comecei a desenhar como passatempo no período da tarde e também a pintar aquarelas e realizar trabalhos em têmpera".

Pataki aprendeu sozinho a dominar essa e outras técnicas e pintou seu primeiro quadro a óleo quando tinha mais de 30 anos, em 1974. A estréia em exposições ocorreu em sua cidade natal, em 1981. Nesse período, ele desenvolveu um estilo individual, facilmente reconhecível, adquirido graças ao seu grande interesse por diferentes técnicas de pintura e pela prática constante.

A precisão nos detalhes, as cores puras e a construção de belas imagens, principalmente paisagens pelo uso de pontos, com uma técnica que recorda o pontilhismo do francês Seurat, são os elementos inconfundíveis de uma pintura que cria espaços de sonho, verdadeiras quimeras bucólicas em que o espectador se afasta da realidade urbana, mergulhando num mundo dominado por belas árvores, nuvens esparsas e delicadas e pequenas flores.

Os temas enfocados pelo artista reforçam essa atmosfera onírica. Castelos encantados, espantalhos, o mencionado unicórnio e aves calmamente pousadas compõem ambientes com uma luminosidade que segue sempre a mesma estrutura: a parte superior da tela é quase negra, ocorrendo um progressivo clareamento até a metade, geralmente em celeste. As árvores, verde-azuladas ou levemente avermelhadas, criam então sombras, onde aparecem imagens de pessoas, animais ou seres mitológicos em situações que indiciam extrema tranqüilidade.

O pintor começou a viver integralmente de sua pintura em 1982, data em que também se reconhece como naïf. As paisagens, sempre campestres, parecem indicar que esses ambientes de sonho são o refúgio das cidades em que trabalhou, seja no setor petrolífero ou na busca da redução da miséria e do desemprego. A dura realidade citadina, portanto, não comparece em seus quadros.

O reconhecimento da crítica não tardou. Pataki já teve a oportunidade de mostrar seus trabalhos em diversos países, no Canadá, Austrália, Hungria, Japão, EUA, França, Singapura e Coréia do Sul, geralmente em coletivas, segundo explica: "Como não gosto de exposições individuais, realizei apenas três mostras sozinho, em Zrenjamin, em 1981; e em Kovaèica e Kecskemét, ambas em 1985. Nesse mesmo período, porém, realizei muitas coletivas na Iugoslávia e no exterior, além de obter diversos diplomas de mérito de várias instituições públicas e privadas".

Cabe recordar que, segundo as lendas que o cercam, o unicórnio vive mil anos, sendo, por isso, considerado o mais nobre dos animais. Analogamente, a pintura de Pataki certamente resiste ainda mais. As imagens míticas e idílicas do pintor não têm limites de tempo ou espaço, estimulando a imaginação e provando como o ser humano tem a capacidade infinita e divina de criar, pela pintura, realidades paradisíacas.

 


Oscar D'Ambrosio

O autor é jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP, 1999).

 

 

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Galeria de Fotos

 

Oscar D’Ambrosio