Felícia,
naquele instante, começou a vislumbrar o significado da fala
dos espectros. Mas o pleno sentido só foi encontrado um pouco
mais tarde, quando ela passou a freqüentar o galpão-ateliê
do escultor Victor Brecheret no Parque do Ibirapuera, onde
hoje está o Monumento às bandeiras do mestre
paulista.
Brecheret
inicialmente rejeitou a idéia de ter Felícia como discípula,
pois achava que escultura não era coisa de mulher. Mas ela
venceu o preconceito e, além de aprender com o mestre, ajudou
o artista a trabalhar no grandioso monumento, um dos símbolos
da cidade de São Paulo.
Além
do contato com Brecheret, Felícia começou a realizar visitas
regulares a museus. Pediu ainda ao crítico de arte Wolfgang
Pfeiffer que lhe
preparasse uma coleção de slides
narrando a história da escultura da Pré-história ao
século XX. Também era comum encontrá-la folheando páginas
de livros sobre escultura. Ia assim treinando o poder de
observação e aprimorando a sensibilidade. As Bienais de Arte
de São Paulo foram fundamentais para a trajetória artística
de Felícia Leirner. Em 1953, ela sentiu-se pronta para
enfrentar o júri do evento.
Foi
aceita e, na edição seguinte, em 1955, recebeu o prêmio
concedido pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Felícia
participou ainda das Bienais de 1959 e 1961 e, na de 1963,
recebeu o prêmio destinado ao melhor escultor brasileiro. Em
1965, mereceu uma sala especial e, em 1967 e 1973, apresentou
obras de grande porte. Em paralelo a essa trajetória nas
Bienais, ela realizou importantes exposições individuais nos
Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro e uma
de suas peças integra o conjunto escultórico da Praça da Sé,
inaugurado em 1977, em São Paulo.
Entre
as Bienais, a de 1957 teve grande importância para Felícia e
para o seu marido, Isai, que, em 1948, a convite de Francisco
Matarazzo Sobrinho, fora um dos fundadores do Museu de Arte
Moderna de São Paulo, instituição que era responsável pela
organização do evento.
Tudo
começou quando o júri nacional da Bienal impediu a participação
de mais de 80% dos brasileiros inscritos. Quando soube da notícia,
Isai, colecionador de arte e então
diretor do Museu de Arte Moderna, pediu demissão do
cargo. Houve ainda outros protestos, como a realização da
mostra “12 artistas de São Paulo”, que reuniu trabalhos
de recusados na Bienal, como Felícia Leirner, Flávio de
Carvalho, Samson Flexor, Darcy Penteado, Odetto Guersoni e José
Antônio da Silva.
O
evento foi um sucesso e animou Isai a criar uma galeria de
arte. Surgiu assim, em 1958, com uma exposição de gravuras e
desenhos de Lasar Segall, a Galeria das Folhas. Isai criou
ainda o Prêmio Leirner que consistia na aquisição de obras
e posterior doação a algum importante museu brasileiro.
Houve depois mostras individuais de outros artistas, como
Flexor, Djanira e Felícia, e coletivas.
Também
eram promovidas conferências e mesas redondas. Essa
atividade, porém, durou cerca de quatro anos, pois, com a
morte de Isai, em 1962, o local perdeu o seu coração
propulsor e a sua alma. Nos seus últimos três anos de vida.
Por exemplo, mesmo preso a um leito de hospital, o imigrante
polonês mantinha, nas paredes de seu quarto no hospital,
obras de artistas brasileiros, que pedia para serem trocadas
periodicamente.
A
experiência difícil do convívio cotidiano com o sofrimento
do marido levou Felícia a manifestar, em termos artísticos,
a série Cruzes. Elas são colocadas em diversas posições,
sempre sobrepostas, gerando fantásticos efeitos de luz e uma
intensa espiritualidade.
Após
o falecimento de Isai, Felícia se isolou. Escolheu como refúgio
Campos de Jordão, interior de São Paulo. Vendeu imóveis e
parte de sua coleção de arte para comprar casa e terras na
cidade. Queria assim viver uma vida em contato com a natureza
que tanto amava, permanecendo longe da badalação que
caracteriza os grandes centros da arte, como São Paulo.
A
obra de Felícia Leirner, para fins de estudo, é dividida,
pelo crítico de arte Fernando Morais, em cinco fases.
Figurativa (1950/58), A caminho da abstração (1958/61),
Abstrata (1963/65), Orgânica (1966/70) e Recortes na paisagem
(1980/82). Trata-se de uma maneira agradável de conhecer os
trabalhos da artista.
Na
fase figurativa (1950/58), o principal tema é a maternidade.
Aparecem mulheres em pé, sentadas ou reclinadas, além de
grupos que relacionam mãe e filha ou criança e animal. São
esculturas feitas, na maioria, em bronze, que transmitem
serenidade, com braços e pernas muito longos e cabeça
pequena.
Pouco
a pouco, vai ocorrendo uma transformação, e as obras começam
a lembrar a arte dos antigos etruscos, dos gregos primitivos e
dos egípcios. A base se integra com o resto da escultura e
passa a existir uma extrema simplificação das formas, com
rostos pequenos e corpos cada vez maiores, havendo, no
material, ranhuras, cisões e grafismos que dão vida às
composições.
Uma
escultura desse período muito importante é Maternidade.
Trata-se de trabalho em bronze de quase 2 m de altura que
mostra toda a força da mulher no ato de gerar, alimentar e
criar os seus filhos. A obra ilustra o poder da feminilidade e
o vigor da natureza, já que parece ser uma árvore saindo da
terra, repleta de energia vital.
A
caminho da abstração (1958/61) é uma fase de transição
das esculturas com referenciais facilmente identificáveis
para uma busca constante da inovação. Há, nesse momento,
figuras isoladas, casais e formas aladas que sugerem pássaros.
Mas as imagens não são mais inteiriças. Surgem vazamentos
que questionam o realismo anatômico, criando jogos de luz e
dando leveza às esculturas.
São
até criadas composições abstratas, que apontam para as mais
variadas formas, com a utilização do espaço de maneira
criativa. A esculturas estabelecem harmonia com a vegetação
ao redor, parecendo seres da própria natureza, sempre
dispostos a surpreender por revelar novas facetas.
Na
fase Abstrata (1963/65), estão as Cruzes, realizadas sob
influência do falecimento do marido Isai e que lembram
florestas densas de árvores ou antigos cemitérios. Ali está
representado simbolicamente o corpo do marido, maltratado pela
dor, e a tristeza da escultora perante o sofrimento do ser
amado.
Ainda
nessa etapa, a geometria dos ângulos retos começa a ceder
lugar a curvas, elipses e infinitas derivações. São as
Estruturações, obras que proporcionam a sensação de
movimento. Os conjuntos apresentam características dinâmicas,
embora sejam compactos, já que são feitos de bronze. Se as
Cruzes parecem ser feitas de madeira, as Estruturações
lembram o trabalho que alguns artistas conseguem com o ferro.
Uma
escultura bem representativa dessa fase é A fonte,
obra que foi reproduzida como selo comemorativo referente à X
Bienal de São Paulo. Sob uma aparente simplicidade, há todo
um jogo de vazamentos que sugere a saída de uma água imaginária
pelas numerosas reentrâncias da forma escultórica.
Na
fase orgânica (1966/70), estão os Habitáculos. A artista
começa a trabalhar com gesso, estuque e argamassa. Os Habitáculos
são jogos de curvas e planos que parecem ser refúgios de pássaros,
pigmeus, elfos ou gnomos. Constituem locais que poderiam
servir de residência para esses e outros seres fantásticos.
Tem uma estrutura arquitetônica e foram criados para estar em
contato direto com a natureza.
Há
ainda peças isoladas como O anjo, que parece elevar-se
à frente do observador, pronto a transmitir alguma misteriosa
mensagem. Trata-se de um ser que realiza a comunicação entre
os seres divinos e os mortais, sempre disposto a proteger os
humanos em sua vida cotidiana. Ao surgir construído em pedra,
ganha um ar majestoso e imponente.
Os Bichos, por sua vez, são seres repletos de
alegria, com belas formas que estimulam a nossa imaginação.
Não é necessário reconhecer o animal representado, mas ter
a consciência de que se trata de um dos seres que Felícia
tanto amou, com a
sensibilidade de uma artista que sempre procurou aprender com
as formas existentes na natureza.
Embora
em bronze, um exemplo dessa fase é o São Francisco, figura
imponente pelas suas cavidades. Assim como Felícia esse santo
amava a natureza e, especificamente, os pássaros. Por isso, a
sua imagem é repleta de beleza, com vazios indagadores que
parecem convidar as aves a ali instalarem os seus ninhos.
A
última fase da obra de Felícia Leiner é chamada Recortes na
paisagem (1980/82). Surgem agora aos olhos do observador enigmáticas
imagens que parecem ser letras, sinais ou palavras de uma língua
desconhecida. Nesse momento, a escultora também se volta para
a escrita, criando textos sobre a fragilidade da vida e a
vaidade e a arrogância humanas, além de produzir diversas
reflexões sobre a arte de modo geral.
Para
criar as suas esculturas, Felícia raramente realizava
desenhos preparatórios. Nunca gostou de entalhar madeiras ou
desbastar mármores. Seu amor sempre foi ao barro. Para as
esculturas em bronze, realizava justamente um molde de gesso
sobre um modelo de barro. Gostava desse material desde a sua
primeira experiência artística, podendo, por meio dele,
criar o seu próprio mundo.
Como
Felícia sempre fez tiragens de suas esculturas em bronze,
ficaram no Brasil réplicas de peças cujos originais estão
em cidades como Paris, Amsterdam, Roma, Londres, Belgrado e
Telaviv. Isso permitiu que ela reunisse toda a sua obra num único
local: a cidade de Campos do Jordão que tanto amou e onde
veio a falecer em 1996.
Em
1978, Felícia Leirner decidiu doar as suas escultoras em
bronze, granito e cimento ao governo do Estado de São Paulo.
Por determinação do então governador Paulo Egydio Martins,
as obras foram colocadas, no ano seguinte, à disposição do
público no Museu Felícia Leirner, localizado, a céu aberto,
em um parque de 350 mil m2, na cidade de Campos de
Jordão.
Posteriormente,
ela realizou novos trabalhos e também os doou ao Parque, que
hoje possui exemplares significativos de todas as fases da
obra da artista. Dispostas ao ar livre, em meio à vegetação
da Serra da Mantiqueira, as esculturas ganham uma iluminação
especial. Assim, Felícia ligou o seu nome para sempre à história
de Campos do Jordão, cidade que desenvolveu, ao longo dos
tempos, uma sólida relação com as artes plásticas.
De
noite, as esculturas de Felícia são banhadas pela luz
refletida pela lua; de dia, por um intenso sol. Além disso, a
quietude do local é um convite para que o admirador de arte
admire toda a beleza dos trabalhos e, pelos vazamentos das
obras, possa contemplar, de maneira renovada, o magnífico
espetáculo visual que a Serra da Mantiqueira oferece.
No
terreno do museu, foi erguido o Auditório Cláudio Santoro,
onde se realiza o tradicional Festival de Inverno de Campos de
Jordão. O local dá vista para um mar de colinas, onde as
nuvens ganham as mais diversas formas e flores silvestres e
hortênsias adornam os caminhos.
As
obras, se o visitante quiser, podem ser observadas em ordem
cronológica. É possível começar com as mais antigas e
figurativas, em bronze. Elas estão localizadas à direita e
à esquerda de um caminho estreito coberto por árvores que
envolvem o ambiente numa delicada e sugestiva sombra.
Passo
a passo, o caminho se abre à luz solar e surgem obras mais próximas
da arte abstrata, em formas circulares. As peças maiores, em
cimento branco, aparecem escondidas entre as árvores e,
muitas vezes, parecem estar fundidas com a vegetação do
local. Passo a passo, alcança-se uma colina de onde se revela
uma bela vista da Serra da Mantiqueira.
A
vista se perde na linha do horizonte, sendo possível
visualizar, nos dias de bom tempo, o Estado de Minas Gerais. O
vento forte e a intensa luminosidade do local proporcionam um
diálogo único entre o céu, as esculturas e a grama. Tudo se
funde com intensidade, num ambiente mágico.
A
prova maior de como as esculturas de Felícia se integram ao
ambiente do museu a céu aberto é a obra Moldura. Numa
idéia ao mesmo tempo ousada e repleta de humildade, ela
concebeu dois retângulos brancos que emolduram uma árvore já
existente no local. Recebemos assim da artista o convite para
olhar o tronco da árvore e da vegetação ao seu redor pelos
diversos ângulos que a (s) suas (s) moldura (s) propicia (m).
Coerente
com o seu nome em polonês, Felícia criou muitos pássaros.
Eles estão hoje no seu museu, a céu aberto, enfrentando o
sol e a chuva. Parecem prontos a levantar vôo para
encontrar-se com a sua criadora, esteja onde ela estiver,
sempre pronta a modelar o gesso e trabalhar o cimento para
criar formas poéticas e encantadoras que embelezam Campos do
Jordão, a Suíça brasileira.