por Oscar D'Ambrosio


 

 


Esculturas de um pássaro

 

Felícia Leirner

 

            Pode um delicado pássaro aprender a trabalhar com o rígido cimento? Foi exatamente essa a missão da escultora Felícia Leirner. Seu nome é a tradução, em língua portuguesa, do polonês Fayga, que significa justamente “pássaro”. Curiosamente, ela, que amava a natureza e os animais, dedicou a vida justamente a realizar obras de artes que encantam a todos nós.

            Loura, bela e com lindíssimos olhos azuis, Felícia Leirner nasceu em 1904, em  Varsóvia, Polônia, onde era chamada de Fayga ou carinhosamente de Faygucha. Como o seu pai, Pinkus, abandonara a mãe em troca do Talmud, livro religioso dos judeus, e os seus irmãos moravam na Inglaterra e nos Estados Unidos, ela vivia sozinha com a mãe, Sheila Aichembaum, uma mulher doente e triste, que morria de saudades da pequena cidade polonesa de Lukov, onde estava enterrado o bisavô de Felícia, o rabino Ben Yakov.

Felícia e a mãe moravam num apartamento acanhado, mas a mente já cheia de imaginação da jovem captava as sensações dos bosques de Lukov, com seus campos de framboesa, das festas judaicas, da imagem do pai lendo os livros sagrados e das audições da Filarmônica local aos feriados.

A futura artista cresceu, então, entre dois mundos: um triste, dentro de casa, e outro, alegre, em contato com a natureza. Gostava tanto da liberdade que dizia que um de seus sonhos era ser camponesa para poder estar mais próxima das galinhas, cachorros, pássaros e, sobretudo, gatos.

            A leitura de romances russos e os espetáculos da Ópera de Varsóvia eram agradáveis, mas a situação dos judeus na Polônia era difícil. Eles sofriam com o preconceito religioso e étnico, sendo, desde a Primeira Guerra Mundial (1914-18) vítimas de massacres e humilhações.

Isso levou os apaixonados Felícia e Isai, ambos com 23 anos, a vir para o Brasil, em 1927. Ele, socialista, decide vir primeiro para preparar as condições para receber a família. Alguns meses depois, ela desembarca em Santos, acompanhada pela mãe que, embora sempre doente, viveu até os 82 anos.

Isai esperou a esposa e a sogra no porto e os três passam a morar em São Paulo. Para ganhar o sustento da família, ele montou uma indústria têxtil, enquanto Felícia, que logo se fascinou com o clima, as flores, as frutas e a vegetação brasileira, cuidava da casa, da mãe e dos três filhos: Giselda, Nelson e Adolfo.

O casal, que antes falava entre si em polonês, com o nascimento dos filhos, começa a dominar melhor a língua portuguesa. Na garagem da rua Ribeiro de Lima, em São Paulo, a pequena indústria de Isai progride, com melhores mostruários e artigos de lã de maior qualidade.

Tudo corria bem até o final dos anos 1940, quando um acontecimento vai mudar a sua vida para sempre. Felícia é acometida por uma grave doença, é hospitalizada e passa por uma séria intervenção cirúrgica. Já no quarto, ainda semi-anestesiada, enxerga alguns vultos alongados, com corpos bem compridos. Um deles lhe disse então que não se preocupasse, pois iria se recuperar plenamente, já que ainda tinha uma tarefa a cumprir.

Felícia nunca esqueceu dessa cena. De fato, ela logo ficou boa e, ao lado do marido, tentava entender que missão o destino lhe reservava. O casal pensou até em abrir uma creche ou um abrigo para idosos, mas não tinha condições financeiras para isso. O caminho encontrado foi o da arte.

Após a cirurgia, Felícia foi obrigada a desistir de qualquer intenção de prosseguir na carreira de cantora de ópera, já que estudara música e canto e havia integrado, como soprano, o coro da Ópera de Varsóvia. Ainda enfraquecida fisicamente, decide, aos 42 anos, junto com a filha Giselda, então com 14 anos, ter aulas de desenho e pintura com Yolanda Mohalyi. Nesse período, ela realizou um belo quadro do marido.

Yolanda apresentou Felícia à amiga Elisabeth Nobling, escultora que trabalhava com cerâmica. Assim Felícia conheceu o barro. O contato com aquele material era o que as mãos ansiosas daquela polonesa com três filhos e imensa capacidade criativa estava precisando.

Felícia, naquele instante, começou a vislumbrar o significado da fala dos espectros. Mas o pleno sentido só foi encontrado um pouco mais tarde, quando ela passou a freqüentar o galpão-ateliê do escultor Victor Brecheret no Parque do Ibirapuera, onde hoje está o Monumento às bandeiras do mestre paulista.

Brecheret inicialmente rejeitou a idéia de ter Felícia como discípula, pois achava que escultura não era coisa de mulher. Mas ela venceu o preconceito e, além de aprender com o mestre, ajudou o artista a trabalhar no grandioso monumento, um dos símbolos da cidade de São Paulo.

Além do contato com Brecheret, Felícia começou a realizar visitas regulares a museus. Pediu ainda ao crítico de arte Wolfgang Pfeiffer  que lhe preparasse uma coleção de slides  narrando a história da escultura da Pré-história ao século XX. Também era comum encontrá-la folheando páginas de livros sobre escultura. Ia assim treinando o poder de observação e aprimorando a sensibilidade. As Bienais de Arte de São Paulo foram fundamentais para a trajetória artística de Felícia Leirner. Em 1953, ela sentiu-se pronta para enfrentar o júri do evento.

Foi aceita e, na edição seguinte, em 1955, recebeu o prêmio concedido pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Felícia participou ainda das Bienais de 1959 e 1961 e, na de 1963, recebeu o prêmio destinado ao melhor escultor brasileiro. Em 1965, mereceu uma sala especial e, em 1967 e 1973, apresentou obras de grande porte. Em paralelo a essa trajetória nas Bienais, ela realizou importantes exposições individuais nos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro e uma de suas peças integra o conjunto escultórico da Praça da Sé, inaugurado em 1977, em São Paulo.

Entre as Bienais, a de 1957 teve grande importância para Felícia e para o seu marido, Isai, que, em 1948, a convite de Francisco Matarazzo Sobrinho, fora um dos fundadores do Museu de Arte Moderna de São Paulo, instituição que era responsável pela organização do evento.

Tudo começou quando o júri nacional da Bienal impediu a participação de mais de 80% dos brasileiros inscritos. Quando soube da notícia, Isai, colecionador de arte e então  diretor do Museu de Arte Moderna, pediu demissão do cargo. Houve ainda outros protestos, como a realização da mostra “12 artistas de São Paulo”, que reuniu trabalhos de recusados na Bienal, como Felícia Leirner, Flávio de Carvalho, Samson Flexor, Darcy Penteado, Odetto Guersoni e José Antônio da Silva.

O evento foi um sucesso e animou Isai a criar uma galeria de arte. Surgiu assim, em 1958, com uma exposição de gravuras e desenhos de Lasar Segall, a Galeria das Folhas. Isai criou ainda o Prêmio Leirner que consistia na aquisição de obras e posterior doação a algum importante museu brasileiro. Houve depois mostras individuais de outros artistas, como Flexor, Djanira e Felícia, e coletivas.

Também eram promovidas conferências e mesas redondas. Essa atividade, porém, durou cerca de quatro anos, pois, com a morte de Isai, em 1962, o local perdeu o seu coração propulsor e a sua alma. Nos seus últimos três anos de vida. Por exemplo, mesmo preso a um leito de hospital, o imigrante polonês mantinha, nas paredes de seu quarto no hospital, obras de artistas brasileiros, que pedia para serem trocadas periodicamente.

A experiência difícil do convívio cotidiano com o sofrimento do marido levou Felícia a manifestar, em termos artísticos, a série Cruzes. Elas são colocadas em diversas posições, sempre sobrepostas, gerando fantásticos efeitos de luz e uma intensa espiritualidade.

            Após o falecimento de Isai, Felícia se isolou. Escolheu como refúgio Campos de Jordão, interior de São Paulo. Vendeu imóveis e parte de sua coleção de arte para comprar casa e terras na cidade. Queria assim viver uma vida em contato com a natureza que tanto amava, permanecendo longe da badalação que caracteriza os grandes centros da arte, como São Paulo.

A obra de Felícia Leirner, para fins de estudo, é dividida, pelo crítico de arte Fernando Morais, em cinco fases. Figurativa (1950/58), A caminho da abstração (1958/61), Abstrata (1963/65), Orgânica (1966/70) e Recortes na paisagem (1980/82). Trata-se de uma maneira agradável de conhecer os trabalhos da artista.

Na fase figurativa (1950/58), o principal tema é a maternidade. Aparecem mulheres em pé, sentadas ou reclinadas, além de grupos que relacionam mãe e filha ou criança e animal. São esculturas feitas, na maioria, em bronze, que transmitem serenidade, com braços e pernas muito longos e cabeça pequena.

Pouco a pouco, vai ocorrendo uma transformação, e as obras começam a lembrar a arte dos antigos etruscos, dos gregos primitivos e dos egípcios. A base se integra com o resto da escultura e passa a existir uma extrema simplificação das formas, com rostos pequenos e corpos cada vez maiores, havendo, no material, ranhuras, cisões e grafismos que dão vida às composições.

Uma escultura desse período muito importante é Maternidade. Trata-se de trabalho em bronze de quase 2 m de altura que mostra toda a força da mulher no ato de gerar, alimentar e criar os seus filhos. A obra ilustra o poder da feminilidade e o vigor da natureza, já que parece ser uma árvore saindo da terra, repleta de energia vital.

A caminho da abstração (1958/61) é uma fase de transição das esculturas com referenciais facilmente identificáveis para uma busca constante da inovação. Há, nesse momento, figuras isoladas, casais e formas aladas que sugerem pássaros. Mas as imagens não são mais inteiriças. Surgem vazamentos que questionam o realismo anatômico, criando jogos de luz e dando leveza às esculturas.

São até criadas composições abstratas, que apontam para as mais variadas formas, com a utilização do espaço de maneira criativa. A esculturas estabelecem harmonia com a vegetação ao redor, parecendo seres da própria natureza, sempre dispostos a surpreender por revelar novas facetas.

Na fase Abstrata (1963/65), estão as Cruzes, realizadas sob influência do falecimento do marido Isai e que lembram florestas densas de árvores ou antigos cemitérios. Ali está representado simbolicamente o corpo do marido, maltratado pela dor, e a tristeza da escultora perante o sofrimento do ser amado.

Ainda nessa etapa, a geometria dos ângulos retos começa a ceder lugar a curvas, elipses e infinitas derivações. São as Estruturações, obras que proporcionam a sensação de movimento. Os conjuntos apresentam características dinâmicas, embora sejam compactos, já que são feitos de bronze. Se as Cruzes parecem ser feitas de madeira, as Estruturações lembram o trabalho que alguns artistas conseguem com o ferro.

Uma escultura bem representativa dessa fase é A fonte, obra que foi reproduzida como selo comemorativo referente à X Bienal de São Paulo. Sob uma aparente simplicidade, há todo um jogo de vazamentos que sugere a saída de uma água imaginária pelas numerosas reentrâncias da forma escultórica.

Na fase orgânica (1966/70), estão os Habitáculos. A artista começa a trabalhar com gesso, estuque e argamassa. Os Habitáculos são jogos de curvas e planos que parecem ser refúgios de pássaros, pigmeus, elfos ou gnomos. Constituem locais que poderiam servir de residência para esses e outros seres fantásticos. Tem uma estrutura arquitetônica e foram criados para estar em contato direto com a natureza.

Há ainda peças isoladas como O anjo, que parece elevar-se à frente do observador, pronto a transmitir alguma misteriosa mensagem. Trata-se de um ser que realiza a comunicação entre os seres divinos e os mortais, sempre disposto a proteger os humanos em sua vida cotidiana. Ao surgir construído em pedra, ganha um ar majestoso e imponente.       Os Bichos, por sua vez, são seres repletos de alegria, com belas formas que estimulam a nossa imaginação. Não é necessário reconhecer o animal representado, mas ter a consciência de que se trata de um dos seres que Felícia tanto amou, com  a sensibilidade de uma artista que sempre procurou aprender com as formas existentes na natureza.

Embora em bronze, um exemplo dessa fase é o São Francisco, figura imponente pelas suas cavidades. Assim como Felícia esse santo amava a natureza e, especificamente, os pássaros. Por isso, a sua imagem é repleta de beleza, com vazios indagadores que parecem convidar as aves a ali instalarem os seus ninhos.

A última fase da obra de Felícia Leiner é chamada Recortes na paisagem (1980/82). Surgem agora aos olhos do observador enigmáticas imagens que parecem ser letras, sinais ou palavras de uma língua desconhecida. Nesse momento, a escultora também se volta para a escrita, criando textos sobre a fragilidade da vida e a vaidade e a arrogância humanas, além de produzir diversas reflexões sobre a arte de modo geral.

Para criar as suas esculturas, Felícia raramente realizava desenhos preparatórios. Nunca gostou de entalhar madeiras ou desbastar mármores. Seu amor sempre foi ao barro. Para as esculturas em bronze, realizava justamente um molde de gesso sobre um modelo de barro. Gostava desse material desde a sua primeira experiência artística, podendo, por meio dele, criar o seu próprio mundo.

Como Felícia sempre fez tiragens de suas esculturas em bronze, ficaram no Brasil réplicas de peças cujos originais estão em cidades como Paris, Amsterdam, Roma, Londres, Belgrado e Telaviv. Isso permitiu que ela reunisse toda a sua obra num único local: a cidade de Campos do Jordão que tanto amou e onde veio a falecer em 1996.

Em 1978, Felícia Leirner decidiu doar as suas escultoras em bronze, granito e cimento ao governo do Estado de São Paulo. Por determinação do então governador Paulo Egydio Martins, as obras foram colocadas, no ano seguinte, à disposição do público no Museu Felícia Leirner, localizado, a céu aberto, em um parque de 350 mil m2, na cidade de Campos de Jordão.

Posteriormente, ela realizou novos trabalhos e também os doou ao Parque, que hoje possui exemplares significativos de todas as fases da obra da artista. Dispostas ao ar livre, em meio à vegetação da Serra da Mantiqueira, as esculturas ganham uma iluminação especial. Assim, Felícia ligou o seu nome para sempre à história de Campos do Jordão, cidade que desenvolveu, ao longo dos tempos, uma sólida relação com as artes plásticas.

De noite, as esculturas de Felícia são banhadas pela luz refletida pela lua; de dia, por um intenso sol. Além disso, a quietude do local é um convite para que o admirador de arte admire toda a beleza dos trabalhos e, pelos vazamentos das obras, possa contemplar, de maneira renovada, o magnífico espetáculo visual que a Serra da Mantiqueira oferece.

No terreno do museu, foi erguido o Auditório Cláudio Santoro, onde se realiza o tradicional Festival de Inverno de Campos de Jordão. O local dá vista para um mar de colinas, onde as nuvens ganham as mais diversas formas e flores silvestres e hortênsias adornam os caminhos.

As obras, se o visitante quiser, podem ser observadas em ordem cronológica. É possível começar com as mais antigas e figurativas, em bronze. Elas estão localizadas à direita e à esquerda de um caminho estreito coberto por árvores que envolvem o ambiente numa delicada e sugestiva sombra.

Passo a passo, o caminho se abre à luz solar e surgem obras mais próximas da arte abstrata, em formas circulares. As peças maiores, em cimento branco, aparecem escondidas entre as árvores e, muitas vezes, parecem estar fundidas com a vegetação do local. Passo a passo, alcança-se uma colina de onde se revela uma bela vista da Serra da Mantiqueira.

A vista se perde na linha do horizonte, sendo possível visualizar, nos dias de bom tempo, o Estado de Minas Gerais. O vento forte e a intensa luminosidade do local proporcionam um diálogo único entre o céu, as esculturas e a grama. Tudo se funde com intensidade, num ambiente mágico.

A prova maior de como as esculturas de Felícia se integram ao ambiente do museu a céu aberto é a obra Moldura. Numa idéia ao mesmo tempo ousada e repleta de humildade, ela concebeu dois retângulos brancos que emolduram uma árvore já existente no local. Recebemos assim da artista o convite para olhar o tronco da árvore e da vegetação ao seu redor pelos diversos ângulos que a (s) suas (s) moldura (s) propicia (m).

Coerente com o seu nome em polonês, Felícia criou muitos pássaros. Eles estão hoje no seu museu, a céu aberto, enfrentando o sol e a chuva. Parecem prontos a levantar vôo para encontrar-se com a sua criadora, esteja onde ela estiver, sempre pronta a modelar o gesso e trabalhar o cimento para criar formas poéticas e encantadoras que embelezam Campos do Jordão, a Suíça brasileira.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, Contando a arte de Peticov (Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
 

 

 

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Lua na janela 

cimento branco armado com ferro 240 cm x 210 cm 1982 
Museu Felícia Leirner - Campos do Jordão, SP

Felícia Leirner 

 

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