Federico Quezada
Do chão para as paredes
Em Subtiava, Nicarágua, como ocorre
em diversas cidades do Brasil e em outros países de tradição
cristã, os moradores elaboram, para a procissão de Semana Santa,
tapetes de flores ou serragem no chão das principais ruas do
município. A temática são cenas sacras, alusivas à vida e ao
sofrimento de Jesus Cristo. Esses tapetes, geralmente feitos
durante aproximadamente cinco horas, na frente do próprio
turista, logo se desfazem com os passos dos caminhantes que, ao
percorrerem o simbólico caminho de Cristo até a morte na Cruz, vão
destruindo as imagens que viram nascer, momentos antes, num
processo delicado, de esmerada elaboração.
Para o artista plástico nicaragüense
Federico Quezada o grande desafio que surgia dessa festa estava em
conseguir congelar aquelas obras de modo que um turista pudesse
levá-las para casa. "Eu me perguntava por que não perenizávamos
aquela obra de uma maneira que o visitante pudesse colocá-la no
local que achasse melhor, seja sua casa, ou escritório",
conta.
Quezada criou assim, em 1998, uma nova
técnica, chamada Serragem Ecológica Permanente (Aserrín Ecológico
Permanente – Aecop, em espanhol). "Estava doente para as
festividades de Semana Santa e, como não podia fazer os tapetes
diretamente na rua, comecei a fazê-lo em uma placa de madeira
sobre uma mesa antes de colocá-la no chão para a procissão",
conta.
Assim, os tapetes saem do chão e
ganham as paredes. "Resgatamos uma cultura de 60 anos em
Subtiava e de mais de um século no país", afirma. "Além
disso, minha técnica é ecológica, pois as sobras de madeira das
serrarias podem, com a técnica Aecop, ser recicladas, dando
origem a belas obras de arte."
O aspecto ecológico é muito
enfatizado pelo artista, que defende justamente o uso de objetos
recicláveis nas mais variadas expressões artísticas. "A
serragem é um dejeto inorgânico altamente contaminante. Lançado
pelas serrarias à beira de rios, polui o habitat silvestre",
informa. "Também é queimada, afetando a saúde da população
e deteriorando ainda mais a camada de ozônio. Isso sem contar o
potencial de exportação que as obras apresentam ",
acrescenta.
Para um país que importa praticamente
tudo, desde cadeiras de plástico da Guatemala a sardinhas de
Costa Rica, a possibilidade de exportar arte é atraente, pois, além
do trabalho do artesão, as obras de Quezada necessitam apenas de
serragem e cola. "A Aecop é mais barata que outras técnicas,
como a tinta acrílica ou a aquarela. Além disso, uma obra de
aproximadamente 70x70 cm demora apenas uma semana e meia para
estar bem realizada e acabada", diz.
Nascido em 16 de agosto de 1963, em León,
Nicaragua, Federico Quezada Morán, que mora há 11 anos em
Subtiava, está desde a juventude ligado à elaboração de
tapetes de rua de serragem na Semana Santa. Economista de formação,
desenvolveu sua obra de maneira autodidata, realizando cenas sobre
o Pecado Original, o Bom Pastor, o Nascimento e o Batismo de
Jesus, entre outras.
Quezada aprendeu vendo os outros
fazendo os tapetes de serragem para as procissões e logo começou
a fazer os próprios. Os primeiros passos no desenho, ocorreram
com a feitura de mapas e escudos, enquanto os conceitos de pintura
os adquiriu por meio de conversas e livros.
Os planos imediatos do artista incluem
dar cursos para que mais pessoas dominem a técnica Aecop, que
apresenta vários passos. Inicialmente, coadores são utilizados
para separar a serragem em diferentes tamanhos para obter os mais
grosso e os mais finos. Em seguida, o material é tingido de
diversas cores e colocado para secar, seja na sombra ou dentro de
fornos.
Enquanto isso, o artista desenha sobre
uma base de madeira a imagem que deseja concretizar. Prepara também
a cola, uma espécie de goma que será misturada com a previamente
serragem tingida. "O resultado é a massa com a qual elaboro
o quadro", explica Quezada. "Este processo permite um
melhor acabamento. Além disso, a imagem não decola e as figuras
e cores podem ser feitas a gosto do cliente e com baixo custo. Em
síntese, é uma nova forma de expressão artística baseada na
arte sacra".
As obras de Federico Quezada já foram
mostradas em exposições em Manágua e em León, na Nicarágua, e
na Filadelfia (EUA). O resultado obtido apresenta características
da arte popular, como a ausência de perspectiva, as cores bem
definidas e o fazer eminentemente artesanal, que proporciona que
os tapetes passem do chão para as paredes com os mesmos
componentes, a mesma textura e o mesmo colorido tradicional.
Com sua técnica inovadora, Federico
Quezada torna o impermanente em algo eterno e propicia que as
imagens antes destruídas na Semana Santa convivam com o cotidiano
das pessoas nos mais diversos ambientes. O artista consegue
perenizar seu trabalho e, ao ensiná-lo aos mais jovens, garante a
perpetuação de uma forma de arte – a formação de figuras à
base de serragem – extremamente original e de forte cunho
popular, motivada por uma das festas de maior apelo cristão, a
Semana Santa, marcada pelo sofrimento de Cristo em seus passos do
Calvário para redimir a humanidade.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).