por Oscar D'Ambrosio


 

 
 

Fátima Moura

 

            Névoa da serra

 

            Sólida, compacta, cor de chumbo. Estes são alguns dos atributos da Serra de São José, próxima a Tiradentes, Estado de Minas Gerais. Ela é o ponto de partida dos mais belos trabalhos da artista plástica Fátima Moura. No caso de suas obras, beleza significa muito mais que um adjetivo, mas uma forma de conceber o mundo, estabelecendo mistérios visuais pela maneira de utilizar as tintas.

            Nascida em São João del-Rei, em 1963, Fátima, que já estudou pintura, desenho, batik, pintura em cerâmica, gravura e litografia, consegue, ao enxergar as névoas da serra, estabelecer um mundo caracterizado pela espacialidade, ou seja, o local retratado perde importância perante a forma como ela consegue transformar o real em arte.

A Serra de São José, enquanto marco geográfico, é um lírico cenário natural para   o bem conservado conjunto arquitetônico. Há nela nascentes, quedas d’água e uma flora constituída de orquídeas, bromélias e várias espécies de árvores. Ela permite caminhadas, cavalgadas, escaladas e banhos refrescantes, mas nada se compara aos momentos em que as nuvens cobrem parte dela – ou mesmo a serra inteira – criando um jogo em que o verde da mata e o branco das nuvens se mesclam em tonalidades infinitas e insuspeitadas.

Maior formação natural de uma região que engloba, além de Tiradentes, municípios como Coronel Xavier Chaves, Prados, Santa Cruz de Minas e São João del- Rei, a Serra, geologicamente, é uma estrutura de quartzito e paredões de rocha viva que podem ultrapassar os 100 metros. Reduto ecológico que ocupa uma área aproximada de 15 km2, altitude média de 1.100 metros e com maior largura de 500 metros, a formação natural encanta de perto e de longe, mas podia não resultar em obras de resultado estético diferenciado.

            Radicada em Tiradentes, MG, Fátima, como os 6.300 habitantes do município e os milhares de turistas que a visitam, podia se ater às facetas mais luminosas da serra. Ao escolher o universo das névoas, tornou-se, talvez sem plena consciência disso, uma pintora impressionista.

Na prática, isso significa o amadurecimento da visão de uma artista. A grande prova de que um criador se aproxima da excelência é justamente começar a conceber os assuntos não mais em si mesmos, mas como pretexto do ato de criação. Fátima atinge isso pelos estados visuais que passa ao contemplar a Serra.

O que ela enxerga ali não é mais apenas a maravilha plástica que a natureza oferece. Consegue, gradualmente, mergulhar num mundo de cores e formas próprias da pintura. Assim, as telas caminham progressivamente para abstrações marcadas binárias em que o verde e o branco vão se entrelaçando para gerar significados pessoais e visões ímpares de mundo, às vezes com encantadores tons de cinza.

 Ver as pinturas de Fátima Moura sobre a Serra de São José é cada vez menos ver a linguagem. Trata-se de um exercício de valorização da sua produção artística como a expressão de uma criadora pronta a encarar novos desafios, mas que encontra, nesse acidente geológico, até o momento, a maior expressão de sua relação plástica com o mundo.

           

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 

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Neblinas
acrílica sobre tela - 40 x 100 cm - 2005

Fátima Moura

 

 

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