Fátima Lourenço
Visões do Atacama
Entre o Oceano Pacífico e a
Cordilheira dos Andes, o deserto de Atacama está localizado a
2.300 m de altura. Com uma área de 3 mil km2, é considerado o
local mais seco do mundo. Sua média de precipitação anual é de
0,1 ml e chuva propriamente dita costuma ocorrer apenas uma vez a
cada 15 anos.
O resultado desse ambiente localizado
no Chile é uma paisagem ímpar. Por um lado, desolado como a
superfície do planeta marte. Por outro, formoso e impressionante,
principalmente após as raras chuvas quando as sementes
adormecidas nos secos vales brotam com toda intensidade e
aproveitam, com deslumbrante riqueza de flores aproximadamente
três meses de vida, durante os quais espalham novas sementes que
ficarão enterradas até que uma nova precipitação lhes dê
vida.
Todo esse universo é o ponto de
partida de Fátima Lourenço para transformar o deserto chileno em
inesquecíveis aquarelas. A artista plástica cursa seu mestrado
em Educação, Arte e História da Cultura na Faculdade
Presbiteriana Mackenzie (SP), onde realizou, nos meses de setembro
e outubro de 2001, ao lado da também aquarelista Marilu R. F.
Queiroz, a exposição “A Aquarela e o Direito Autoral nas Artes
Plásticas”.
A partir de uma viagem realizada ao
deserto no início de 2001, a artista plástica Fátima Lourenço
transformou o deserto em uma série de aquarelas que enfocam a
vegetação escassa, com algumas elevações nevadas e pequenos
rios, que formam autênticos oásis de vida e atividade
econômica.
Rica em nitrato de sódio e cobre, a
região, que já foi centro de uma cultura pré-colombiana em 3
mil a. C., foi ainda o cenário da primeira ferrovia da América
do Sul, que ligava Copiapó, região onde ainda é possível o
cultivo de frutas e cereais e as criações de ovinos, cabras e
lhamas, ao porto de Caldera.
Para a aquarelista, essas
informações geográficas e econômicas, no entanto, são o menos
importante. Seu trabalho se debruça sobre as imagens que captou
na sua jornada. As aquarelas expressam justamente a capacidade
artística de transformar a realidade a partir de um olhar
crítico e estético.
O lado crítico é visível na forma
que seus olhos de artista plástica depuram aquilo que viu. O
criador é justamente aquele que recria a realidade a partir de
seus princípios pessoais e do domínio da técnica com a qual
trabalha. Assim, o deserto de Lourenço não é uma reprodução
das imagens de Atacama, mas um novo mundo, que tem na região seu
pólo irradiador da criação artística.
O segundo aspecto é o estético. As
aquarelas da artista plástica encantam pela delicadeza como o
rigor estético do deserto é colocado. As cores intensas
transmitem a atmosfera do local, às vezes, como paisagens
espaciais, outras como sítios paradisíacos, intocados pelo
homem.
Nascida em 17 de setembro de 1955, em
São Paulo, SP e proprietária da Empresa Nanquim Comunicação e
Eventos e professora de oficinas de vitrinismo e decoradora de
vitrinas, Fátima tem formação em Educação Artística e
Desenho Geométrico pela Faculdade Santa Marcelina (FASM) e
Desenho Artístico e Pintura/ Decoração de Interiores pela
Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), além de realizar
curso de Qualificação Profissional de Decorador de Vitrines no
Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e
pós-graduação em Artes Plásticas na FASM.
O talento de aquarelista se manifesta
nas paisagens sobre o deserto de Atacama. Seu figurativismo
expressionista surge com muito vigor nas imagens áridas da
região chilena, principalmente naquelas que combinam três
elementos: as elevações andinas ao fundo, pequenos lagos e a
terra seca. Nessa tríade imagética, Fátima Lourenço revela seu
domínio da difícil técnica da aquarela, que exige extrema
dedicação, elevada sensibilidade e primoroso senso estético.
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integrante da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA)
e autor de Os pinceis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp).