Farago
Muito além da música
Arte
e ciência de combinar sons de modo agradável ao ouvido, a música se
relaciona de diversas formas com as artes plásticas, principalmente no
quesito técnica, pois, em ambas, quanto maior o conhecimento do
processo de se compor ou interpretar, mais a obra parece nascer
naturalmente, sem esforço.
Talvez
por isso o gênio espanhol Cervantes, no Dom Quixote, Parte
Segunda, Capítulo XXXIV, apontava que “onde há música, não pode
haver coisa má”. De fato, arte de compor e interpretar parece estar
sempre associada a uma elevação do espírito, já que a música,
quando não inclui a letra, talvez seja a forma de comunicação mais
universal que existe.
A
obra do artista plástico Farago, exposta na JamWarehouse, de 30 de
janeiro a 18 de março de 2006, em São Paulo, SP, sob o título de
“Cores musicais” leva justamente a refletir sobre os caminhos de uma
produção plástica que tem na música, como nas estrelas imortais do
jazz, um importante núcleo temático.
Assim
como o jazz tem no improviso sobre um tema conhecido um de seus mais
importantes aspectos, como provou Charlie Parker, com seu sax alto
tenor, Farago, ao adotar o tema da música, enfrenta o desafio de se
reinventar constantemente. Ao se auto-intitular “compositor visual”
talvez se coloque numa posição não muito cômoda enquanto artista plástico.
Existe
em Farago – que já na adolescência pintava camisetas com imagens de
bandas de heavy metal – um inegável talento no trato com as
cores e na criação de texturas e atmosferas visuais. A questão que se
coloca, porém, em alguns trabalhos, é o uso, por exemplo, do texto nas
telas.
Eles
funcionam como legendas de ilustrações e prejudicam as telas no
sentido de uma visualidade mais limpa, em que a imagem fale por si
mesma. Uma maior soltura no desenho das personagens humanas também
parece ser um caminho possível para que as chamadas composições
visuais sejam cada vez mais “visuais” e menos “composições”.
Isso
significa um progressivo abandono da literalidade na busca de referências.
Um detalhe de um piano ou de um saxofone, por exemplo, podem ser
caminhos para manter a temática
da música, mas reinventá-la com um novo olhar. O tema não é
limitador em si mesmo, mas o olhar sobre ele pode ser renovado com a
imposição de desafios técnicos e de ângulos e composições.
O
vigor das realizações de Farago – nascido em Ponta Grossa, PR, em
1967, mas radicado na cidade de São Paulo desde 1988 – é inegável
enquanto uma sincera manifestação de seu talento ao relacionar a música
com a pintura. Talvez o grande passo esteja em ver cada vez menos a
pintura como tema e sim como pretexto para pesquisa estética em que
possa exercitar a liberdade, vendo a pintura como um fim em si mesma.
Nesse
aspecto, a produção de uma série de quadros a partir da audição de
um mesmo álbum de um artista pode ser uma experiência interessante e
única. O compromisso não seria o de homenagear um compositor, mas sim
extrair de sua musicalidade o maior e melhor
resultado visual possível.
O
escritor francês Paul Claudel (1868-1955) dizia, em seu Diário,
que “a música é a alma da geometria”, apontando que os grandes
mestres da música tinham um grande aliado no conhecimento técnico.
Quanto mais Farago mergulhar na técnica, mais sua potencialidade pode
se tornar evidente, pois poderá converter a expressividade contagiante
de suas telas num exercício cada vez mais promissor de diálogo com a
arte, independendo se o nascimento dela está ou não associado à música.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de
Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor, entre outros, de Contando a
arte de Cláudio Tozzi (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).