Fabíola
Campos
Enigmas do corpo
Diáfanos corpos
femininos, pássaros e flores de inspiração realista, jogos de
transparências de paisagens fundidas e pinturas de ambientes
integram o diversificado mundo artístico de Fabíola Campos.
Esses elementos, desenvolvidos paralelamente, constituem uma
obra que merece olhar mais atento.
Nascida
em São Paulo, SP, em 3 de maio de 1974, Fabíola sempre gostou
de desenhar em papéis e paredes, inclusive nas costas de
panfletos. Um tio levou esses trabalhos para um artista plástico
que, não só gostou, como a presenteou com telas, tubos, tintas
e pincéis e outros materiais que ainda nem sabia usar.
Em
1988, a mãe a levou para ter aulas que lhe permitissem dominar
a pintura a óleo. Ficou apenas uma semana, pois o professor lhe
disse que poderia prosseguir sozinha com o talento que tinha. Não
só não cobrou as aulas como ainda lhe deu um cavalete. Logo
começou a vender trabalhos em 1991, passou num teste para expor
os seus trabalhos na Praça da República.
Na
Praça, Fabíola encontrou diversos artistas que a apoiaram no
desenvolvimento de seu trabalho, inclusive o primeiro marido,
Mario Pilati. Seu currículo, que inclui exposições
individuais e coletivas, tem como destaque diversos prêmios da
Associação paulista de Belas Artes e da Associação Comercial
de São Paulo.
Das
vertentes mencionadas de seu trabalho, a que mais encanta é a
que extrai momentos de intensa sensibilidade a partir da figura
humana. As telas que realiza de corpos femininos e de mãos se
entrelaçando apresentam diversos aspectos surrealistas, mas
chama a atenção pela maneira como se vale das cores para
passar ao observador estados de alma.
Fabíola
começou a carreira pintando cavalos e outros animais. Um
desenvolvimento desse início pode se encontrado nas pinturas
que faz de pássaros. São curiós, beija-flores, corujas,
tucanos, sabiás e pintassilgos, entre outros, que surgem com
intenso colorido e realismo em cenários igualmente próximos à
natureza.
Há
aí um domínio técnico também encontrado nas pinturas de
ambientes, que exigem grande amor ao detalhe e à perfeição,
assim como uma noção de espaço que não deixe de levar em
conta como uma falha na execução pode comprometer o todo do
trabalho.
Embora
as figuras femininas comentadas sejam a grande contribuição
que Fabíola pode dar em termos de originalidade, outra faceta
artística a que vem se dedicando não pode passar em branco.
Ela cria paisagens fundidas de praias em que crianças brincando
ou embarcações são apresentadas com um interessante jogo de
sobreposições.
Há
ainda caravanas, cavalos, imagens da Av. Paulista e da cidade de
São Paulo, como o Pico do Jaraguá, que também utilizam o
recurso de trabalhar sobre uma imagem a partir de véus ou
figuras geométricas delimitadas por diferentes cores,
estabelecendo uma atmosfera fantástica, que interroga o
espectador.
É,
porém, nas mulheres pensativas e no trabalho com o corpo humano
que Fabíola Campos parece atingir o melhor de sua poética e
linguagem pictórica. Nesses momentos, sua pintura ganha em
lirismo e sinceridade– sendo provável que, no futuro, se
valha cada vez mais desse tema com o apuro técnico que os anos
trazem a todo artista.
Ao
ter o corpo humano como assunto – principalmente o da mulher
–, a artista paulista liberta arquétipos como o
arredondamento das formas, em alusões, mais ou menos explícitas
de acordo com o trabalho, ao útero materno, além de uma visão
enigmática da existência humana repleta de sensibilidade,
feminilidade e uma delicadeza a toda prova.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes pelo Instituto de
Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos
de Arte (AICA-Seção Brasil) e é autor de Contando a arte
de Ranchinho (Noovha América) e Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp
e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).