Fábio Gatti
A busca de contato
O que significa estabelecer contato
com uma pessoa? É necessário o toque explícito, oriundo do
tato? Ou basta uma relação de freqüência, de proximidade ou de
influência? Essas questões surgem ao observar atentamente os
quadros do pintor paranaense Fábio Gatti, que revela um talento
incomum no tratamento de cores quentes.
Nascido em Londrina, PR, em 7 de
outubro de 1980, Fábio começou a se interessar por pintura
quando foi levado para um ateliê pela tia, que fazia aulas de
pintura à tarde e queria uma companhia. Após esse primeiro
contato com a arte, o jovem iniciou um percurso constante de
envolvimento com as telas, enquanto a tia abandonou a atividade.
Fábio começou a freqüentar
academias de arte aos dez anos e nunca mais parou. Estudou por
seis anos pintura acadêmica, cujo aprendizado atribui à artista
Vera Lúcia Joo, e depois passou para o abstrato, numa busca
constante para concretizar sua ânsia de domínio técnico e
artístico. Conheceu assim Daniella de Araújo, formada em artes
pela Universidade Estadual de Londrina, professora e orientadora
com a qual divide atualmente o ateliê.
O mote que rege os quadros de Fábio
é, como ele mesmo define, o "contato". Em maio de 2001,
realizou, em Londrina, uma exposição com esse título,
cristalizando um projeto desenvolvido durante três anos. "A
mágica da minha produção está justamente em retratar o que
posso ver, sentir, ouvir e falar em abstrações, sejam elas
figurativas ou não", afirma. "Quero que as pessoas, ao
olharem uma obra minha, sintam que aquele trabalho realmente
transmite alguma coisa."
Esse contato é estabelecido de
várias maneiras. Há trabalhos abstratos e também imagens mais
figurativas, como o impressionante retrato de uma negra mostrada
com uma coroa na cabeça e um estilizado véu, enquanto, do lado
direito, um crucifixo dourado completa a cena. No fundo colorido,
de composição abstrata, o corpo da mulher se dilui na parte
inferior, ganhando leveza e imponência.
Apresentado na XV Mostra
Afro-Brasileira Palmares, em 2000, a tela Pão, luta e saudade
exprime, pelas cores quentes, angústia, enquanto os olhos
abertos, em amarelo e vermelho, reforçam a intensidade dos
sentimentos e os lábios carnudos transbordam energia e
sensualidade.
O expressionismo e a caricatura se
acentuam em telas como Respiração e Fofi. No primeiro, um grande
sorriso se abre num rosto amarelo, com lábios de intenso vermelho
e enormes dentes brancos. Em Fofi, uma figura feminina de vestido
amarelo, em fundo azul, surge com cabelos esvoaçantes e rosto
contorcido.
Há ainda trabalhos que enfocam o
fascinante mundo dos neurônios. Num deles, sobre uma tela negra,
um cérebro e dezenas de neurônios são retratados. O conjunto
está conectado por um cabo a um teclado de computador, num
resultado que gera impacto pela beleza estética e pelo potencial
questionador.
Em outra obra nessa linha, intitulada
Descarga Noro-Adrenérgica, é possível ver a figura de um
neurônio em meio a círculos azuis e manchas vermelhas e
amarelas. O resultado oferece uma visão pictórica do que seja
uma descarga energética. Há dinamismo e energia extravasando,
numa imagem que não deixa o espectador indiferente.
Ligadas ao termo "contato"
de uma maneira mais explícita, telas como Derretendo mostram duas
mãos negras sobre um fundo azul, vermelho e laranja. Elas se
tocam, mas, ao mesmo tempo, parece que estão se desfazendo, como
se o toque fosse, simultaneamente, um momento de salvação, mas
também dor, sofrimento e desespero.
Toque é ainda mais explícito, pois
um dedo de características pictóricas próximas ao
expressionismo surge com a parte próxima à unha dobrada, num
momento de contato físico. Novamente há ambivalência, pois o
contato tanto pode ser prazeroso ou gerar dor. Para o pintor, o
mais importante está justamente no fato da sua obra gerar uma
reação na pessoa que a vê.
É estabelecido assim o
"contato". Em Astronomia, o vocábulo significa a
posição aparente de dois astros no momento em que parecem
tocar-se, enquanto, na geometria, é a propriedade de duas curvas
que, tendo um ponto em comum, têm na vizinhança desse ponto,
pelo menos n + 1 pontos comuns.
O contato, portanto, exige um diálogo
entre os envolvidos. Seguindo esse raciocínio, um quadro como
Frio, por exemplo, no qual as digitais dos cincos dedos da mão
surgem em negro sobre fundo branco, mostra que todo contato deixa
suas marcas. Seja entre os astros ou entre as formas geométricas,
todo contato, para ser efetivo, envolve uma relação e uma
reação.
É isso o que ocorre num quadro como
Hemoglobina, que reúne as principais qualidades da pintura de
Fábio Gatti. O vermelho geralmente sempre presente, as pinceladas
largas próximas ao expressionismo e a temática visceral – no
caso, o pigmento dos glóbulos vermelhos dos vertebrados que fixa
o oxigênio do ar e o cede aos tecidos – estão presentes, assim
como um fundo irregular, de teor abstrato, que dá à tela
dinamismo e transmite inquietação ao observador.
Gatti cursa desenho industrial na
Universidade Norte do Paraná e realizou sua primeira individual,
em 1999, na Associação Recreativa Esportiva Londrinense, tendo
ainda participado, em 1999 e 2000, da Mostra Afro-Brasileira
Palmares, também em Londrina. Nessas oportunidades, mostrou como
o contato que deseja ter com o apreciador de suas telas pode se
dar de variadas maneiras, seja em quadros que evocam diretamente
imagens reais seja em exercícios abstratos, distantes de
referentes concretos.
A pujante arte de Fábio Gatti não
oferece respostas, mas gera perguntas. Suas telas, marcadas pela
predominância de vermelhos, amarelos e laranjas, estabelecem
contato com o observador pela forma como combinam cores e formas,
seja de figuras humanas, o mundo dos neurônios ou de elementos
sangüíneos. Seus quadros enfocam esses temas com desenvoltura e
originalidade, gerando telas que cumprem o autêntico papel da
arte: o de questionar tudo sempre.
Oscar D’Ambrosio é
jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus:
vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP).