por Oscar D'Ambrosio


 

 


Fabio Flaks

 

            No reino do vazio

 

            O paulista Fabio Flaks expôs, de 4 a 25 de abril de 2006, na Galeria Virgilio, em São Paulo, SP, trabalhos que tem como assunto o “vazio”. Isso significa que seus trabalhos tinham como tema aparente justamente a discussão de algo difícil de definir conceitualmente, ainda mais em se tratando de artes visuais.

            O termo “vazio”, numa ótica filosófica científica, designa um espaço, um nada infinito que pode ser o receptáculo de tudo o que existe. Na teoria matemática dos conjuntos, por sua vez, é justamente aquele universo que não possui elemento algum – e, por isso, talvez seja o mais fascinante.

            Esse vazio, pleno de significado e despossuído de matéria, surge de diversas maneiras. Desenhos com massa corrida, por exemplo, cobrem com exatidão áreas entre as linhas pautadas de um caderno. Estabelece-se assim o vazio do discurso, pois sugere-se que algo esteve ali, mas foi coberto.

            Esse vazio de significado perante o “apagamento” ou “cobertura” de algum elemento é invertido em Espaço, enorme desenho (208 x 588 cm) em grafite sobre papel em que tudo é preenchido, a não ser as linhas que definem justamente a perspectiva. Desse modo, o espaço vazio, não desenhado, é que cria a sensação de um espaço, que surge vazio, mas está “cheio” de desenho, de traços, de imaginação artística.

            Espaço se complementa com as fotografias Pintura, em que temos imagens de espaços vazios de paredes marcadas pela falta dos quadros retirados. A presença da ausência dos quadros denunciada nas fotos indica quase um sentimento de saudade por aquilo que se foi e não está mais, mas que deixou uma história a nos gerar indagações.

            A pintura Vago, próxima às raízes de arquiteto de Flaks trabalha com a idéia dos vazios existentes dentro de uma casa, onde, ao que tudo indica, é nosso olhar que estabelece o preenchimento de cheios e vazios, de existência e vacuidade. Mais uma vez, é na capacidade de renovar nosso olhar que a proposta do artista nos desafia.

            A pintura When routine bites hard, primeiro verso da música Love will tear us apart, da banda Joy Division, reproduz um fotograma do videoclipe da canção. Embora sejam possíveis diversas analogias com a letra da melodia e com a próprio fato da significação da representação de uma imagem isolada de um videoclipe, a obra traz um impacto existencial, filosófico e metafórico menor que o obtido por Espaço, por exemplo.       Espaço não só pela dimensão avantajada, mas pela própria técnica utilizada de transformar a ausência de tratamento gráfico em estrutura linear do espaço, criando os limites da imagem proposta é o grande momento da exposição.

Fabio Flaks, no conjunto dos trabalhos, oferece a possibilidade de refletir sobre o vazio como aquilo que nos preenche. Sem necessidade do recurso da palavra, comunica uma proposta plástica e filosófica plena de sentido, pois é no vazio e no silêncio que reside uma das mais interessantes possibilidades de mergulho existencial que leva ao preenchimento do próprio ser.

 

Oscar D’Ambrosio, mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp/São Paulo/Brasil), integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica - Seção Brasil).

 

No Netscape clic com botão direito para ver a imagem


Fechar Foto                                                                                              Abrir Foto

 

Pinturas

Série de fotografias - 100 x 80 cm - 2006

Fabio Flaks

 

artCanal

 

Outros Artistas

 

Oscar D’Ambrosio