por Oscar D'Ambrosio


 

 

 

 

 

Fábio Cardoso

 

Pintura de matéria

 

    Pintar não é apenas criar figuras reconhecíveis ou sugerir emoções. Constitui um processo de lidar com os materiais para criar uma relação com o observador, seja de amor ou de ódio. Nunca de indiferença. Os trabalhos de Fábio Cardoso, expostos na Galeria Oeste, de 9 de agosto a 23 de setembro de 2006, em São Paulo, SP, tem o poder de cativar pela presença dessa matéria.

    Há neles um mistério. Ao se olhar, surge uma pergunta: como isso foi feito? Os resultados cromáticos são autênticas paredes em que a força não está tanto na forma ou na cor em si mesmas, mas sim na maneira como esses elementos são construídos e na sua capacidade de criar indagações.

    Tratam-se de obras para serem absorvidas tanto pela frieza do conhecimento técnico, mas, principalmente, pela força plástica que carregam como documento de um mundo pós-moderno em que o desenho, dominado pela linha, para muitos, cede espaço à mancha expressiva.

    Cerol é um exemplo justamente desse diálogo entre aquilo que se vê o que se sente. O sólido e o líquido se relacionam de modo a criar uma atmosfera em que o não-dito se torna explícito pela forma como o espaço é ocupado, de modo a estabelecer laços entre o vazio e o preenchido

     Em sua verticalidade, Elo real mostra bem como o assunto nunca é o mais importante quando se fala em pintura o talento está na forma de desenvolver o trabalho sobre a matéria, seja isso de uma forma mais ou menos acadêmica, mais ou menos tradicional.

    Couro continua essa linha de raciocínio, com mais movimento e com a presença de tonalidades mais quentes que, como ocorria no trabalho anterior, dialogam com elementos mais escuros, gerando o sentimento de que aquelas imagens se fazem presentes nas esquinas dos neurônios dos observadores.

    De fato, são os elos nervosos que são desafiados ao impacto de obras como Sob o escalpo. Em suas versões 1 e 2, ambos com parcerias cromáticas entre o negro e o azul e, no segundo caso, com intromissões de verde, apontam para aquilo que Fábio Cardos tem de mais interessante: sua capacidade de manter uma certa capacidade de surpreender.

    Não se trata de inovar completamente, algo cada vez mais difícil na arte contemporânea, mas de conseguir desenvolver a sua proposta por caminhos em que a técnica não se desapegue da emoção da produção e do impacto causado em quem contempla cada pintura.

    Galéia, também em versões 1 e 2 , acompanha essa lógica. Com intromissões, respectivamente, de vermelho e amarelo, conseguem tornar o espectador participante pela capacidade de chamar cada um de nós para perto da tela no vislumbrar dos recursos expressivos elaborados pelo artista.

    Fábio Cardoso proporciona um diálogo com os materiais em que a forma do fazer e a forma de olhar caminham em paralelo. Ambos exigem a atenção e a participação de quem se dispõe a olhar. A conquista desse status constitui uma vitória perante um mundo em que o descartável e o passageiro ganham cada vez mais força.

    

    Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (Aica – Seção Brasil).

 

 

 

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Galéia 1
óleo sobre tela
190 x 150 cm 2006

Fábio Cardoso

 

 

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