Fabiana Batista
A escultora de almas
A cabeça, para os anatomistas, é a
extremidade superior do corpo humano. Há nela, no entanto, um
conjunto de elementos que dá toda a expressividade de um ser. É
nos olhos, no formato do nariz e nas expressões do rosto que se
define uma personalidade. Basta lembrar a célebre imagem do
físico Albert Einstein com a língua para fora, que se
transformou num ícone de irreverência.
Transformar cabeças com movimento e
expressão em figuras construídas em argila é um desafio. E ele
aumenta ainda mais quando as extremidades de que estamos falando
são de autênticas “cabeças”, ou seja, pessoas que se
destacam pela inteligência e pelo talento no mundo da música.
Esse é o desafio da artista plástica
Fabiana Batista, em sua primeira exposição individual,
intitulada “Retratos”, no Bar Blen Blen Brasil, no bairro da
Vila Madalena. Ela procura passar em suas imagens a personalidade
de “cabeças” como Arnaldo Antunes, Chico César e Supla,
entre outros.
Nessas cabeças, o que está em jogo
não é uma cópia do real, mas uma interpretação expressiva que
revela a alma por detrás da máscara de pele e osso de cada um
deles. A artista usou a própria cabeça para encontrar as
melhores soluções para cada caso, revelando um desempenho bem
expressivo, principalmente nas figuras masculinas.
Nascida em São Paulo, SP, em 4 de
novembro de 1976, Fabiana começou a pintar com tinta a óleo aos
oito anos e sempre manteve o seu contato com a arte. Terminou seu
curso de Artes Plásticas no Instituto de Artes (IA) da
Universidade Estadual Paulista (Unesp), em 2000, e atualmente dá
aulas de desenho, pintura e escultura, em seu ateliê, chamado
Conterra.
O trabalho de Fabiana sempre esteve
marcado por esse amor às cabeças, seja na caricatura ou na
escultura. O resultado é observável em retratos expressivos, nos
quais cada detalhe ou movimento denuncia um traço de
personalidade. A técnica, argila não queimada, com acabamento
com pó xadez e verniz vitral, colabora para dar um ar de
rusticidade, de trabalho feito com a capacidade humana de modelar
distintos materiais.
Nesse sentido, a escultura do ex-Titã
Arnaldo Antunes desnuda o poeta que existe por trás da imagem do
artista de cabelos pontiagudos. Sua cabeça reclinada indicia o
caminho dos sonhos, o mergulho nas profundezas da alma de onde
retira suas polêmicas letras e criativos jogos de palavras.
A imagem de Chico César, mostrado
numa posição altiva, como se fosse um guru de infinita
autoridade, apresenta, por sua vez, grande serenidade. Há algo
nela de imperial, sublime e longínqua, como se ele simplesmente
fosse intocável com seu penteado afro e coque em direção aos
céus.
Supla, mergulhado na sombra de seus
óculos escuros; Fernanda Abreu, firme e rígida como uma esfinge;
Simoninha, com um sorriso cativante; e Paula Lima, imagem de
força e retidão de caráter, são outras cabeças criadas pela
artista plástica em sua busca por desvendar o interior dos seres.
A escultora Fabiana Batista não
modela argila, mas desvela personalidades. Não copia a realidade,
mas a transforma em retratos de alma. Assim, as cabeças que cria
são um exercício artístico pleno. As imagens parecem ganhar
vida à medida que as contemplamos – e não seria surpresa se os
olhos fechados de Arnaldo Antunes se abrissem a qualquer momento e
ele começasse a cantar...
Oscar D’Ambrosio é jornalista,
integra a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e é
autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf
Waldomiro de Deus (Editora Unesp)