por Oscar D'Ambrosio


 

 


 

Explorações do espaço

 

            Explorar o espaço do papel em branco significa estabelecer com o suporte relações de possibilidades. Seja numa vertente mais figurativa ou abstrata, o artista necessita, ao dar vazão a sua energia vital, criar laços de respeito aos materiais com os quais trabalha. Gera assim uma poética própria baseada nas distâncias entre o que se deseja fazer e aquilo que efetivamente se consegue.

            André Albuquerque e Catharine Gati vislumbram, na maioria dos trabalhos em branco e preto, seus elos com o espaço. Cada um desenvolve a própria linguagem com marcas poéticas bem específicas, relacionadas com a estética que cada um deles desenvolve.

            Com a técnica do carvão, Albuquerque estabelece um universo de paisagens que representa um marco em sua carreira, até agora caracterizada pela presença de rostos e corpos deformados em tons escuros e com muita tinta, num processo em que a feitura de cada obra constituía um aprimoramento técnico constante.

            Ao explorar o espaço, o artista inclui um ser voador, imaginário, uma espécie de aviador de almas que, ora flutuando, ora numa situação tensa, mantém-se entre o céu e a terra. O domínio da técnica parece indicar que o próprio ato de pintar com a tinta a óleo será revisitado, ganhando novas dimensões, não tanto na questão do assunto, mas principalmente no aspecto técnico de lidar com cores e camadas.

            Catharine, por sua vez, apresenta obras feitas com guache e litogravuras. Dos primeiros, destaca-se a experimentação e a liberdade de buscar novos paradigmas a partir do próprio trabalho. A exploração das manchas abre portais imagéticos marcados pela pesquisa das relações entre o negro da tinta e o branco do papel.

            O conceito de desordem caótica primordial e de diálogo entre o equilíbrio e o amorfo se faz ainda mais presente quando se pensa que o trabalho com as sugestões é um dos fundamentos do trabalho da artista. Na suas litogravuras, ela parte do estudo atento de prateleiras e de sus objetos para obter diversos recortes, frutos de um misto de observação e de imaginação, com o uso da cor e de critérios de composição.

            Albuquerque e Catharine somam assim esforços para concretizar jornadas no espaço caracterizadas pelo repúdio a qualquer tipo de fronteira limitadora. É a capacidade de ambos de se jogar livres no espaço do papel que constitui o ponto em comum de dois criadores que não abrem mão de uma das funções primordiais da arte: não se contentar nunca com aquilo que parece pronto e acabado. Daí o desejo de mergulhar em novas técnicas e gerar imagens surpreendentes em seu poder expressivo.

 

            Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, integra a Associação Internacional de Críticos de Artes (AICA – Seção Brasil)

 

 



 

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