por Oscar D'Ambrosio


 

 


Exploração do espaço de Sima Woiler

 

Um dos grandes dilemas da arte contemporânea é que os textos elaborados para comentá-la muitas vezes superam a obra propriamente dita, ou seja, o texto de parede na galeria ou espaço expositivo se torna mais importante que aquilo que o observador desejar ver: a plasticidade de um processo construtivo.

A pintora Sima Woiler não oferece esse risco. O que ela realiza é justamente o estudo e pesquisa, mais ou menos intensiva de acordo com a tela, de uma região ou território. Seu universo é o da tela. E ali encontra a matriz para produzir. Resultam desse jogo trabalhos em branco e preto ou coloridos marcados pelo equilíbrio e senso de apropriação do universo pictórico.

Cada obra é resultado de análise, exame e pesquisa, seja da superfície, dos materiais ou dos pincéis utilizados. Perante infinitas possibilidades, a seleção de um caminho significa sucessivas escolhas. Cada uma delas se relaciona a anterior e a seguinte numa seqüência que denuncia uma forma de conceber o espaço no mundo.

Pintar é justamente a habilidade de gerir um empreendimento. Há os alicerces, como o conhecimento técnico progressivamente sedimentado, e os ornamentos, presentes na maneira adequada de entender cada trabalho como um ato de felicidade, uma paixão, não um momento de dor e sofrimento.

Cabe ao observador, nesse contexto, buscar sinais que o façam participar dessa exploração. Cada pincelada é uma pista, assim como cada combinação de cores. O branco, o preto, o ocre ou o vermelho, em local inadequado, podem estragar um trabalho. A sabedoria e o lirismo estão em saber como e onde usar os recursos pictóricos.

As quatro linhas que delimitam uma tela criam um espaço e saber a maneira de explorá-lo exige um requisito básico que Sima Woiler mostra ter: plasticidade, elemento que consiste numa postura perante os suportes e materiais de respeito e, acima de tudo, de atenção e cuidado.

Trabalhos bem acabados são aqueles que comportam duas leituras no mínimo: a puramente estética, no sentido de buscar entender elementos próprios do artista plástico, como a forma de ocupação do espaço, com princípios de cor, forma e equilíbrio; e a existencial, que nos leva a observar nas obras pontes conceituais capazes de gerar indagações de diversas ordens.

O espaço surge, assim, como a de um campo a ser ocupado, uma área a ser devastada. As telas propiciam questionar nosso próprio conceito de apropriação de setores do olhar. Pode ser um ponto que chama a nossa atenção ou talvez a imagem toda.

O importante é que cada obra guarde o frescor de ser única em sua potencialidade de ver o espaço como o mundo em que a criação se dá por inteira. Cada área da tela renasce no olhar de quem vê porque nasceu de um ato criativo consciente e amadurecido.

Explorar o espaço é um exercício plástico que requer conhecer o peso da própria mão para deixar cada tela respirar pelo seu valor intrínseco, tornando o discurso do texto de parede, um adendo, uma informação a mais, um exercício livre do pensar a partir da consciente prática do fazer que um artista, no presente caso Sima Woiler, apresenta. 

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).

 

 

 

 



 

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