Um
dos grandes dilemas da arte contemporânea é que os textos
elaborados para comentá-la muitas vezes superam a obra propriamente
dita, ou seja, o texto de parede na galeria ou espaço expositivo se
torna mais importante que aquilo que o observador desejar ver: a
plasticidade de um processo construtivo.
A
pintora Sima Woiler não oferece esse risco. O que ela realiza é
justamente o estudo e pesquisa, mais ou menos intensiva de acordo
com a tela, de uma região ou território. Seu universo é o da
tela. E ali encontra a matriz para produzir. Resultam desse jogo
trabalhos em branco e preto ou coloridos marcados pelo equilíbrio e
senso de apropriação do universo pictórico.
Cada
obra é resultado de análise, exame e pesquisa, seja da superfície,
dos materiais ou dos pincéis utilizados. Perante infinitas
possibilidades, a seleção de um caminho significa sucessivas
escolhas. Cada uma delas se relaciona a anterior e a seguinte numa
seqüência que denuncia uma forma de conceber o espaço no mundo.
Pintar
é justamente a habilidade de gerir um empreendimento. Há os
alicerces, como o conhecimento técnico progressivamente
sedimentado, e os ornamentos, presentes na maneira adequada de
entender cada trabalho como um ato de felicidade, uma paixão, não
um momento de dor e sofrimento.
Cabe
ao observador, nesse contexto, buscar sinais que o façam participar
dessa exploração. Cada pincelada é uma pista, assim como cada
combinação de cores. O branco, o preto, o ocre ou o vermelho, em
local inadequado, podem estragar um trabalho. A sabedoria e o
lirismo estão em saber como e onde usar os recursos pictóricos.
As
quatro linhas que delimitam uma tela criam um espaço e saber a
maneira de explorá-lo exige um requisito básico que Sima Woiler
mostra ter: plasticidade, elemento que consiste numa postura perante
os suportes e materiais de respeito e, acima de tudo, de atenção e
cuidado.
Trabalhos
bem acabados são aqueles que comportam duas leituras no mínimo: a
puramente estética, no sentido de buscar entender elementos próprios
do artista plástico, como a forma de ocupação do espaço, com
princípios de cor, forma e equilíbrio; e a existencial, que nos
leva a observar nas obras pontes conceituais capazes de gerar indagações
de diversas ordens.
O
espaço surge, assim, como a de um campo a ser ocupado, uma área a
ser devastada. As telas propiciam questionar nosso próprio conceito
de apropriação de setores do olhar. Pode ser um ponto que chama a
nossa atenção ou talvez a imagem toda.
O
importante é que cada obra guarde o frescor de ser única em sua
potencialidade de ver o espaço como o mundo em que a criação se dá
por inteira. Cada área da tela renasce no olhar de quem vê porque
nasceu de um ato criativo consciente e amadurecido.
Explorar
o espaço é um exercício plástico que requer conhecer o peso da
própria mão para deixar cada tela respirar pelo seu valor intrínseco,
tornando o discurso do texto de parede, um adendo, uma informação
a mais, um exercício livre do pensar a partir da consciente prática
do fazer que um artista, no presente caso Sima Woiler, apresenta.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista e crítico de arte, é mestre em Artes
Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA - Seção Brasil).