Evandro Angerami
A poética do
silêncio
Mario da Silva
Brito, em seu Diálogo
intemporal, aponta que “o homem moderno perdeu o
prazer do silêncio”. Essa afirmação torna-se ainda mais
instigante quando se pensa nas artes plásticas, pois não são
poucos os que sempre esperam encontrar em pinturas e instalações
uma visão explosiva e expressionista da realidade, tendo
dificuldade em conviver com aqueles trabalhos que estimulam
a interiorização do ser.
O
artista que consegue passar para o seu trabalho um
sentimento de silêncio e de ampla respiração vence um
desafio. Constrói, por meio de recursos plásticos, uma
criação que transmite um sentimento de vazio existencial,
que se preenche no momento em que o quadro é observado,
revelando um processo de amadurecimento visual e um domínio
na conjugação de diversas imagens.
As
telas de Evandro Angerami atingem justamente esse diálogo
com o silêncio graças à habilidade de trabalhar com espaços
amplos, em que a terra e o céu se articulam de modo a
combinar-se numa espécie de paisagem que estimula a reflexão
e propicia a passagem para uma nova dimensão.
O
resultado alcançado é a cristalização de um processo de
construção da própria obra, que inclui uma faculdade não
concluída de biologia, estudos de escultura, bacharelado em
Artes Visuais pela Faculdade de Belas Artes e estudo nos
ateliês de Rubens Matuck e Aldemir Martins.
Angerami,
nascido em São Paulo em 1979, que já recebeu menção
honrosa em ilustração da Cornell University, em Nova York,
EUA, país no qual já expôs, apresentava no início e seu
trabalho, imagens sobre cidades. Posteriormente, mergulhou
cada vez mais num universo de valorização da técnica, dos
materiais e da imagem como procedimento artístico e existencial.
Ao
utilizar folha de ouro e tinta a óleo, Angerami busca
atingir o ponto mais alto de sua produção. É estabelecido
um reino de imagens de praias vazias de pessoas, nas quais a
areia dialoga com alguma vegetação e com o céu, muitas vezes
pontuado por estrelas que, em branco ou revelando o próprio
fundo da tela, criam atmosferas de observação e harmônico
equilíbrio.
No
segundo ato do Conto
de Inverno, Shakespeare escreveu que “Onde, por vezes,
a palavra falha/ O silêncio da pura inocência convence”.
A obra de Evandro Angerami obtém esse resultado. Sua busca
pela poética do silêncio e pela estética da respiração
mais pura possível recupera, em cada tela, o prazer de criar
e de estimular o espectador a se debruçar sobre os próprios
valores, questionando o que significam a arte e a vida.
Para
isso, o silêncio que as suas telas geram no ato da
contemplação constituem um sutil ensinamento: o de que a
grande arte não precisa de barulho para ser criada ou
vista, sendo, quando sincera, geralmente, o resultado de uma
falta de ruído, existente entre o antes e o após do
processo criativo.
Quando
é resultado dessa respiração que o pintor dá a si mesmo,
os trabalhos que se contemplam de um artista, como é o caso
das imagens de Angerami, não têm só qualidade, mas o
lirismo daquilo que o artista consegue fazer com a sua
sensibilidade, cada vez mais aprimorada somada aos recursos
técnicos aprendidos ao longo da carreira.
Oscar
D’Ambrosio, jornalista, mestre em Artes Visuais pelo
Instituto de Artes Visuais da UNESP, integra a Associação
Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil) e
é autor, entre outros, de Contando a arte de Peticov
(Noovha América) e Os pincéis de Deus: vida e obra do
pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora Unesp e Imprensa
Oficial do Estado de São Paulo).