por Oscar D'Ambrosio


 

 


Estive no Esteve: visita ao colecionador  Kim Esteve

 

            Se pintar ou esculpir é uma arte, colecionar exige um talento simétrico. O verbo, em seu sentido mais estrito, não significa apenas juntar trabalhos, mas sim desenvolver o talento de colocá-los lado a lado, em produtivos diálogos. Inclui ainda o prazer de mostrar e o de amalgamar esses criadores, tornando a própria casa um local de reflexão cultural.

             Assim é a casa de Kim Esteve, na Chácara Flora, Zona Sul da cidade de São Paulo. O local, já mítico por ter recebido personalidades como o artista pop Roy Lichtenstein, a performer Laurie Anderson, o fotógrafo Helmut Newton e o rolling stone Ron Wood, entre muitos outros, guarda um acervo da melhor qualidade pleno de sentido.

            O local já mereceu inclusive um livro A Memória do Guardião, da editora Terceiro Nome, escrito pelo crítico de arte Edward Leffingwell, que se concentra não só no acervo, mas, principalmente na história do dono da casa, que inclui amizade com artistas do nível de Wesley Duke Lee, Ivald Granato, Rubens Gerchman, Nelson Aguilar, Tomoshigue Kusuno e Neil Williams.

            Nascido em São Paulo , mas tendo estudado nos EUA, Kim trabalhou no escritório da família, no Texas, e mudou-se para Nova York em 1968. Ali foi introduzido ao universo das artes visuais pelo negociante de café e colecionador de arte João Roberto Suplicy Hafers. O primeiro trabalho adquirido foi justamente de Gerchman, que morava em Downtown.

            Talvez a maior preciosidade do acervo seja um quadro relativamente pequeno, de 61 x 58 m , de Willem de Kooning, de 1967. O ritmo dessa criação é absolutamente ensurdecedor. A metáfora vale pelo poder dessa obra de chamar a atenção em qualquer lugar que ela esteja.

            Trata-se de um convite à reflexão pelo gesto da pincelada e pela forma como as cores são dispostas na tela. A tela tem uma força visível no primeiro impacto e que só aumenta em observações posteriores. Está ali uma espécie de testamento aos que acreditam que a arte abstrata é simples. Ele mostra que, para atingir um alto nível, muito esforço é necessário. Aí sim a obra fica “simples”.

            Os numerosos trabalhos de Neil Williams da coleção de Kim Esteve apontam não só para a amizade entre os dois, mas para uma produção plástica marcada por um lirismo em que o uso da cor tem um papel fundamental na construção de imagens em que, mesmo quando se trata de construir realidades plásticas sob variações de preto, atinge um elevado nível visual e espiritual.

            Em contrapartida, a explosão de cores e gestos de José Roberto Aguilar, em O mito brasileiro, de 1981, constitui um grito de exteriorização. Qualquer tipo de emoção contida ou planejada encontra ali uma expressão de libertação na junção de movimentos, grafismos, círculos e linhas que se articulam sobre um fundo azul.

            Nova contenção formal é proporcionada por Cildo Meireles em dois trabalhos de 1986 que falam entre si: Quadro negro deixa uma pequena abertura branca sobre o fundo preto, enquanto Muro apresenta um fundo com técnica mista, construído sutilmente sobre o fundo branco, com uma mancha negra ao meio.

            Do diálogo entre esses dois trabalhos, que se atraem e se afastam mutuamente pela forma como são resolvidos tecnicamente, é possível estabelecer uma ligação com um dos melhores trabalhos da coleção, O beijo do elo perdido, 1991, de Daniel Senise. Nesses dois crânios que se beijam/engolem está expressa a dualidade do próprio colecionador de arte, mergulhado entre os quadros que o fascinam e, muitas vezes, prazerosamente o incomodam.

            Se Senise atinge esse patamar de gerar um mal-estar pela própria força de seu trabalho, mais quatro artistas lhe fazem companhia nesse talento de maravilhar e, ao mesmo tempo, criar interrogações no observador: Flávio Shiró, Siron Franco, Mário Gruber e Iberê Camargo.

            Shiró, com Sortilège, de 1986, apresenta, em técnica mista, a sua derrisória visão de mundo. Estão ali os tons escuros e o trabalho intenso sobre a tela que geram as mais variadas emoções, sempre alertando para a finitude humana e para a mutabilidade não só da espécie, mas da própria arte.

            É um trabalho que evoca a onipresença da morte, assim como Siron Franco, com seu engajado Peles, 1990, no qual números, texturas, veladuras e formas vão progressivamente se articulando na construção de uma composição em que a agonia, a solidão e a morte predominam.

            Maria, 1990, de Iberê Camargo, e Sem título, 1981, de Mário Gruber, se complementam na formação de retratar o ser humano de uma maneira não-realista, mas voltada para a compreensão da alma. São deformações obtidas por diversos recursos técnicos, plenas de interpretações dos sentimentos que mobilizam a vida, seja a espera do  amanhã ou a criação mental de planos para o futuro.

            Diversos trabalhos de Maciej Babinski tratam ainda dessa ambigüidade entre aquilo que o homem vê e o que realmente cada um é. O artista tem justamente a preocupação plástica de ressaltar aquilo que há de mais instintivo nos seres humanos, assim como a relatividade da existência. Por isso, surgem caveiras, máscaras e rostos os mais variados de vertente expressionista.

            O uso de variações cromáticas e da proporção áurea que caracteriza o pensamento e as obras de Antonio Peticov se faz presente em Infinity II , em que os tons de lilás e vermelho predominam e aludem não só ao formato de um coração, mas ao palpitar de um percurso existencial.

            Para quem prefere um trabalho mais experimental com a matéria, Nuno Ramos e José Resende são exemplos de como a aglutinação de elementos e a combinação deles das mais diferentes formas – mais caótica, no primeiro; e mais ordenada, no segundo – indicam a mesma propensão de manter os olhos atentos para a realidade contemporânea e sua dinâmica.

            Nos jardins da casa de Esteve há ainda diversas esculturas sobre a grama perfeitamente aparada. Curvas em aço inox de Forrest Myers e tubos de aço de 6 metros de altura de Carlos Fajardo aproximam-se de trabalhos de artistas como Amilcar de Castro e Osmar Dali, compondo um ambiente onde a observação de cada elemento com extrema atenção é fundamental.  

            Visitar a casa de Kim Esteve, como e pode verificar pelos poucos exemplos citados, constitui um grande prazer e um mergulho no melhor da arte contemporânea. A força das obras, aliada à recepção calorosa e repleta de historias do anfitrião, torna o local uma parada obrigatória para os amantes da arte.

            Na casa, está um pouco do que os colecionadores podem oferecer de melhor, ou seja, o prazer de reunir bons trabalhos de artistas significativos dispostos com critério numa atmosfera agradável, quase mística, em que a arte recupera boa parte de sua aura perdida, sendo valorizada como objeto plástico que proporciona prazer estético e gera a possibilidade de contemplar com maior profundidade diversas facetas de cada ser individualmente e da raça humana como um todo.

 

Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

 

 

 



 

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