Estevão Silva da Conceição
O local ideal
Criatividade e sensibilidade são as principais marcas da
obra de Estevão Silva da Conceição. Ele transformou a casa em que
mora, na rua Herbert Spencer, número 38, no bairro de Paraisópolis,
em São Paulo, SP, num autêntico jardim suspenso em que cada cantinho
precisa ser admirado com cuidado para nos deslumbrar com a sua
beleza, dividida em duas partes: a Casa de Pedra, onde fica a sala e
o jardim, e a Casa das Estrelas, feita com madeira, que abriga o
quarto do casal e dos seus dois filhos.
Além de cuidar das plantas na parte mais alta da casa,
localizada a 8 metros de altura, à qual se tem acesso apoiando-se
em galhos de concreto, num tipo de escada natural, Estevão
construiu, com concreto e arame, uma espécie de árvore, toda repleta
de objetos.
Há pratos, xícaras, cacos e lascas de cerâmicas e azulejos,
telefones, celulares, relógios, canecas, garrafas, bolinhas de gude,
tampinhas de garrafa, velocímetros de moto, câmeras fotográficas,
moedas, duendes de gesso e cabeças de manequins, colados em
argamassa, em conjuntos comparáveis aos do famoso arquiteto catalão
Gaudí.
Situada em meio a uma das maiores favelas da cidade, a
casa de Estevão, parece um oásis de tranqüilidade. Isso não só
ocorre pela beleza criada pelo artista em sua casa, mas também pela
personalidade do seu dono, um homem calmo, que atuou em diversas
áreas, principalmente na construção civil e como jardineiro.
É justamente na conjunção dessas duas atividades que a
casa de Estevão se torna um local a ser preservado. Trata-se de uma
obra em processo, que ainda vai demorar muito para ser terminada.
Como pedreiro, ele vai justapondo novos elementos em sua árvore de
concreto e, como amante das plantas, cuida dela na parte superior,
de onde se tem uma vista privilegiada da favela.
Estevão nasceu em Santo Estevão, Estado da Bahia, a 47
km de Feira de Santana e a duas horas do litoral, no dia 4 de
setembro de 1957. Na infância, trabalhou na roça, como lavrador,
junto com os pais. É o filho mais velho de uma família de dois
homens e quatro mulheres. Hoje duas delas e um irmão também moram em
São Paulo.
Estevão estudou apenas até a quarta série do primário e,
para tentar melhorar de vida, aos 18 anos, foi para Salvador, onde
ficou seis meses trabalhando como servente de pedreiro. Naquele
mesmo ano, decidiu tentar a sorte em São Paulo. Pegou um ônibus com
um amigo e, após 34 horas de viagem, chegou.
Como milhares de nordestinos, buscava espaço na cidade grande.
Primeiro, ficou morando no alojamento de uma obra com um primo, que
depois o levou para trabalhar numa construção em Guarulhos, SP.
Ali, aprendeu melhor o serviço que já havia feito na Bahia e passou
a atuar como servente de pedreiro.
Após trabalhar num sobrado que estava sendo construído, passou a
exercer outras funções, como carregar caminhões num depósito de
material no bairro do Morumbi, onde ficou mais ou menos um ano, e
vigia numa construtora. O futuro, porém, lhe reservava uma vida mais
movimentada.
Um amigo, um cearense conhecido como Zé dos Canos,
convidou Estevão para trabalhar como montador na Casa da Moeda no
Rio de Janeiro. Sua função era encaixar peças dos mais diferentes
tipos em diversas estruturas. Ficou ali seis meses, mas logo surgiu
a oportunidade de ir para Araraquara, interior de São Paulo, onde
ficou um ano e um mês.
Começou um período de viagens onde havia trabalho.
Desempenhou a atividade de montador no depósito de uma empresa em
Embu das Artes, que o enviou para Campo Grande, Mato Grosso do Sul,
onde ficou 14 meses construindo caixas d’água. O próximo destino foi
para ajudar a erguer uma vila de casas em Teodoro Sampaio, SP. Eram
só dois funcionários e, como lembra Estevão, havia pouco trabalho.
E as viagens não paravam. O destino seguinte foi Serra
Negra, também em São Paulo, cidade onde ajudou a montar um teto bem
alto, de uns 30 metros, do teatro local. Os seis meses seguintes
foram em Bragança Paulista e, depois, em Osasco, onde ajudou a fazer
uma grande ponte. Na área de construção, atuou ainda em Guarulhos,
montando painéis de ferro em um prédio durante um ano.
Surgiu em seguida, já em 1991, a oportunidade de
trabalhar como jardineiro num prédio. Como sempre gostara de
plantas, Estevão aceitou o serviço, foi aprendendo o ofício e está
ali desde então. O novo emprego lhe deu a oportunidade de se
dedicar, com mais calma, ao seu grande projeto: a construção da
própria casa, a Casa de Pedra e a Casa das Estrelas.
De 1977 a 1985, Estevão sempre morara nos alojamentos
das obras em que trabalhava. Quando teve a possibilidade de ter a
própria casa, mudou para Paraisópolis. A casa onde mora hoje,
naquele momento, pertencia a vários donos. Pouco a pouco, foi
comprando novos espaços para construir o seu mundo. Por achar tudo
muito cinza ao seu redor, começou a fazer as primeiras alterações,
como a construção de um banco de jardim, ainda de madeira, e a
arrumação de algumas plantas. Também replantou um pé de roseira que
as crianças estragavam brincando e cortou uma macieira. Teve então a
idéia de fazer com que o jardim subisse, criando estruturas de arame
e concreto como galhos.
O pé de roseira que existia dava muito trabalho e, como
as folhas viviam caindo, sujava toda a parte central da casa. A
solução foi cortá-lo e, cada vez mais, não parar de colocar outras
plantas, criando um jardim suspenso onde pudesse se dedicar a uma
das atividades que lhe dá mais prazer: cuidar da natureza.
Estevão não parou mais. Inicialmente, os trançados para
fazer o jardim suspenso eram de madeira. Depois, ele os arrancou
para montar toda a estrutura com ferros cruzados, como raízes, que
foi cobrindo com tela de arame e fixando com cimento e areia.
Posteriormente, para ajudar a cobrir a casa na chuva e criar um
ambiente mais fresco para as plantas, surgiu a idéia de colocar
pedras sobre cada galho da estrutura.
O passo seguinte foi colocar pratos grudados nas
paredes. O primeiro foi um de cor azul, uma de suas preferidas, que
quebrou. Na parede, ele ganhou uma nova vida e um significado
totalmente diferente. Depois, outros objetos começaram a ser
adicionados, como canecas, bolinhas de gude, miniaturas de casas e
telefone e celulares antigos
A estrutura foi crescendo na vertical e o número de
detalhes é tamanho, que provavelmente nunca terá fim. A proximidade
entre os objetos tem uma lógica muito própria, geralmente seguindo
uma narrativa amplamente imaginativa, como a de uma bota próxima a
um vaqueiro e a um boi.
Após decidir colar os primeiros elementos, o desafio era
como conseguir o que seria colocado em cada parede. Comprar peças em
antiquários seria muito caro. A sua irmã, que então trabalhava na
Vila Mariana, descobriu um bazar que vendia baratas peças como
bibelôs, jogos de louça com algum defeito ou quebrados e outros
objetos.
Estevão começou a freqüentar esse e outros bazares. Ia
uma ou duas vezes por semana, comprando sacolas de objetos. E até
hoje, quando dispõe de dinheiro, retoma essa prática. As pedras para
grudar nas paredes adquirem, no Centro de Abastecimento de São Paulo
(Ceasa), as bolinhas de gude na rua 25 de março, no Centro Velho,
enquanto o ferro, mais caro, e o cimento compra em Paraisópolis
mesmo.
A Casa das Estrelas é o universo privado, mais
reservado, onde mora com a esposa Edilene e os filhos Stefania e
Enrique. Repleta de cores, é toda de madeira e foi feita antes da
outra parte, que pertencia inicialmente a uma outra pessoa. Estevão,
triste por não poder ver as estrelas do céu em São Paulo, desenhou e
recortou algumas delas em tábuas de madeira.
A esposa Edilene, que participou ativamente da construção dessa
casa, as lixava para que pudessem ser pintadas e fixadas nas
paredes, portas e teto. O resultado oferece a oportunidade ao
visitante de entrar em um ambiente, marcado pela fantasia, poesia e
uma visão peculiar do mundo e da realidade.
O fascinante é que, caminhando pelos vãos das estruturas
criadas por Estevão, parece que se está entre os galhos de uma
árvore, mas, na verdade, trata-se de um universo de cimento e ferro,
tudo construído imitando a natureza, um raciocínio muito próximo ao
do arquiteto Antonio Gaudí, que achava que nas formas de árvores e
plantas estava a grande mãe das construções.
Em 2001, quando foram celebrados os 150 anos de
nascimento do arquiteto catalão, os organizadores das comemorações,
ligados ao Centro de Estudos Gaudinistas, buscaram pelo mundo
inteiro artistas que tivessem trabalhos semelhantes aos do mestre.
Assim, chegaram a Estevão, que teve sua casa e todas as suas
atividades, da compra do material e de carrega-lo em caixas até a
colagem de algumas peças, filmadas para um documentário espanhol.
Também foi convidado para ir à Barcelona para terminar o
documentário, observando as obras de Gaudí de perto. Foram quatro
dias que lembra intensamente. Ele comenta que adorou tudo e
reconhece que sua obra é de pequenas dimensões perante as grandes
construções do arquiteto, que incluem prédios inteiros, casas,
igrejas, parques.
O trabalho que mais o impressionou e no qual viu maior
proximidade com o que ele faz é o Parque Güell. Ali estão também
troncos falsos que parecem ser de madeira, mas são, de fato, de
pedra. O trançado, repleto de curvaturas, é parecido, além do
próprio processo da montagem, colando pedras em estruturas para que
o resultado final pareça natural, embora tenha sido construído pelas
mãos humanas.
Antes de ser convidado pelos espanhóis, Estevão tinha em
Gaudí uma referência apenas distante. Tomara conhecimento dele, em
2000, por uma estudante de arquitetura que estivera na casa dele
para fazer um trabalho e levara uns livros mostrando a semelhança
entre o que ele fazia e as obras que consagraram o artista catalão.
Desde que passou a morar em São Paulo, Estevão, sempre
que podia, de preferência uma vez por ano, voltava para a sua cidade
natal. Foi ali que conheceu, num comício político, a futura esposa.
Eles se casaram em 1993, em Santo Estevão, e depois se mudaram para
São Paulo, onde ele já morava.
Edilene acompanhou toda a evolução da casa – e até hoje
é responsável por uma tarefa difícil: limpar as centenas de folhas
que caem das plantas todos os dias. Faz tudo com um bom humor
constante e com a consciência de que habita uma moradia toda
especial. Afinal, casou com um homem que trabalha como jardineiro
para ganhar o sustento, mas que, como artista espontâneo apresenta,
em cada ação e gesto, um valor especial ao que faz.
Lembra, por exemplo, do pé de roseira que deu origem a
toda a obra do marido. Recorda ainda de que havia uma mesa, bem
diferente da atual, onde hoje é a sala em que eles recebem as
visitas para conversar. Está claro em sua memória como a ampliação
do espaço foi gradual e constante.
Ela conta que Estevão trabalha todo dia, sem se cansar, pouquinho a
pouquinho, na construção de seu sonho. Em todas as folgas que tem,
enquanto os amigos e parentes ficam conversando ou vendo televisão,
ele está cimentando as paredes, cuidando das plantas na parte
superior, limpando os objetos já colados ou escolhendo aqueles que
logo passarão por esse processo.
Edilene diz sorrindo que Estevão “fica doente” quando
fica algum dia sem poder “mexer” na casa. E há muito a fazer. Além
de selecionar o que será colocado nas paredes, existe o trabalho
cotidiano de cuidar de diversas plantas, colocadas em vasos, como
hortelã, coentro, jabuticaba, arruda,manjericão, espada de São
Jorge, azaléia, acerola, pitanga, café, orquídeas e cactos.
Estevão sempre teve uma ligação muito forte com a
natureza. Na Bahia, menino, plantava e colhia roças de feijão e
milho. Também gostava muito de cuidar de pés de flores – e ele
lembra que uma prima tinha um preconceito bobo de que aquilo era
coisa de mulher. Quem diria que no futuro teria a profissão de
jardineiro.
As plantas são as grandes companheiras do artista. Junto
com elas, em seu jardim suspenso, vêm muitos passarinhos. E Estevão
conhece o nome da maioria deles e conta com calma e alegria como as
mais diversas espécies, como pássaros pretos, sabiás e canários já
passaram pela sua casa e pelas dos vizinhos.
Todos os anos, nas férias dele do trabalho, Estevão e
Edilene voltam para Santo Estevão. Visitam a família e levam as
crianças. É uma volta ao passado. Enrique, com quatro anos, e
Stefania, com 11, gostam bastante. Ele, que foi para lá com apenas
seis meses de idade, adora ficar na roça, em meio a plantas
frutíferas como mangueiras, jaqueiras e numerosas outras que não
existem no Sudeste do Brasil.
Estevão acredita que cada um tem seu destino. Difícil
então prever o que vai acontecer com seus filhos. Por enquanto,
Enrique diz que vai ser bombeiro e Stefania, curiosamente, se
imagina como empresária. Ela, em um ponto se assemelha com o pai:
gosta de miniaturas e já começa a perceber que habita um local
especial, que mostra com orgulho às amigas da escola, dizendo que o
pai e artista.
O artista baiano possui um livro para registrar as
visitas. É possível verificar que há muitos estrangeiros ali.
Espanhóis, italianos e japoneses ficam maravilhados e deixam
mensagens e recados. Entre eles, está o engenheiro responsável pelo
término da construção da Igreja da Sagrada Família, projetada por
Gaudí, em Barcelona, curiosamente uma obra que também demorará
décadas para ficar pronta.
Estevão também já fez algumas pinturas, em que revela
uma característica expressionista muito marcada no trato com as
cores. Embora seja difícil de identificar, cada imagem, para o seu
criador, possui uma narrativa interior, uma autêntica história, às
vezes com personagens que se relacionam das mais diversas formas.
Também participou da Cow Parade, em 2005, com a vaca Cowdí.
Estudantes de jornalismo e arquitetura do exterior e do
Brasil também se fascinam com o que encontram e não são poucos os
que nunca foram lá por terem medo e preconceito pelo fato de a casa
ficar em meio a uma das maiores favelas da cidade. São eles que saem
perdendo, pois, indo uma vez, quer se voltar para ver,
periodicamente, quais as novas pedras e objetos que estarão a cobrir
o concreto e o ferro.
Como forma de ganhar algum dinheiro com seu trabalho,
Estevão cobra uma entrada simbólica de R$ 5,00 pela visita, além de
fazer vasos artísticos para vender, tanto de pedra como de outros
materiais. Assim, ele mantém a relação com a natureza e consegue, de
alguma forma, ter algum retorno com um trabalho artístico. Enquanto
isso, a casa vai crescendo e ficando cada vez mais linda, com mais
elementos, sejam eles plantas, azulejos, canecas ou mosaicos, numa
justaposição sem limites, motivada pelo desejo do artista de morar
num espaço cada vez melhor.
Estevão desenvolveu uma técnica toda peculiar para fazer
da sua casa um jardim suspenso e um mundo de harmonia estética.
Graças ao seu sentimento, tanto como pedreiro como jardineiro,
ergueu muito mais que uma casa. Seguindo seu próprio modelo, sem
referências externas, com muita criatividade, o artista baiano
estabeleceu um universo com regras próprias e grande disciplina na
metodologia de construção.
Para Estevão, que dedica horas diárias à construção de
sua casa, cada dia não trabalhado ali é um dia perdido. Trata-se de
um projeto sem data para terminar, mas administrado com determinação
admirável. O objetivo é erguer um local ideal, que torne a sua vida
mais bonita, um espaço onde possa conviver com aquilo que mais
gosta: as plantas, os objetos de louça e cerâmica e a família.
BIBLIOGRAFIA
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Brasil. Ano 8, número 74, maio de 2004, página 82 a 84.
COW PARADE. São Paulo: IBEP- Companhia Editora Nacional, 2005.
FERREIRA, R. “Gaudí de Paraisópolis” in Revista Decoração:
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FROTA, L. C. Pequeno dicionário da arte do povo brasileiro:
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STEIW, L. “Jardineiro cria em favela do Morumbi réplica de obra do
catalão Gaudí” in Revista RSVP. Ano
2, número 14. novembro de 2005, páginas 130 a 133.
Oscar D’Ambrosio, jornalista, é mestre em Artes Visuais
pelo Instituto de Artes (IA) da UNESP, campus de São Paulo e
integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção
Brasil).